O que perturba em Ruslan, Ramzan e Islam é mesmo a normalidade das suas vidas em Grozny, capital da Chechénia. Amigos de adolescência, passeiam pela cidade de carro sem destino, conhecem raparigas em concertos, cada um gosta da sua música quando gostar de músicas ocidentais é já uma manifestação de pouco apego ao comunismo soviético. Desfeito o império Ruslan e Ramzan tornam-se cameraman de televisão. Islam é médico. Quando a guerra começa qualquer um dos três torna-se testemunha do Inferno. E o documentário “Three Comrades”, de Masha Novikova, tem o privilégio de contar com o testemunho póstumo das suas filmagens e o testemunho vivo de quem tratou de salvar vidas.
Ruslan, Ramzan e Islam têm em comum a adolescência, a amizade que mantêm, as respectivas famílias que tentam salvar, a dedicação à suas profissões e o sentido de obrigação de as cumprir durante a guerra. A sua frieza bondosa permite um olhar desesperante sobre a guerra. Vi poucos filmes na vida onde a espera, o desespero, o alívio e a decepção fossem tão evidentes. A entrada dos tanques russos na cidade e os bombardeamentos indiscriminados, num dos mais aviltantes crimes do fim do século passado, é dos momentos mais estranhos do filme. Mais do que as imagens é o som que nos faz sentir o medo que eles parecem ignorar. Sobretudo o da noite da passagem de ano de 1994 para 1995, quando a cidade é desfeita.
Em “Three comrades” os homens que tomaram o poder na Chechénia não são poupados pela sua violência, intolerância e fanatismo.
Ruslan e Ramzan acabam por morrer na guerra. Islam é preso em Moscovo e acusado de terrorismo, numa daquelas caças às bruxas em que Putin é especialista. Apenas por ser checheno. Acaba por fugir da Rússia. Um dos melhores documentos que pude ver sobre a bestialidade da guerra. E, no entanto, quase tudo é banal (na banalidade possível da guerra) no que vamos vendo. Talvez por isso mesmo tenha tanta força.
Sem comentários 21 Out 07 em doclisboa




Na Federação Russa cerca de 20% da população é de religião muçulmana. Mas ainda longe de alcançar todos os direitos que são conferidos aos outros cidadãos. Parece-me que no entanto a causa da Chéchenia é mais da direita do que da esquerda. Alguma esquerda ainda presa aos fantasmas do passado, tem muita dificuldade em criticar tudo o que venha da Federação Russa, ex-URSS, tida como o modelo mais perfeito de sociedade na Terra até hoje.
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