
O vídeo que deu que falar levanta a questão da autoridade dos professores. Na verdade, a questão da autoridade é um debate que está sempre a voltar: a da polícia, a da justiça, a dos pais, a dos professores. E o pior é que a estupefacção perante o que se está a passar, num país que viveu tantos anos em ditadura, vem atrasada. É um debate com barbas em sociedades democráticas. E quando aqui se fala de democracias não é apenas da questão da liberdade que se está a falar. Fala-se também de sociedades menos estratificadas e menos centralizadas.
O uso da autoridade depende da capacidade de coerção, da distância (superioridade reconhecida) de quem exerce a autoridade e da utilidade da aceitação dessa autoridade. Para que a autoridade possa ser exercida ou quem a exerce tem formas de nos obrigar a aceitar as regras que impõe, ou reconhecemos uma legitimidade especial que resulta da dificuldade de atingirmos o “posto” que ocupa ou essa pessoa pode premiar-nos pela aceitação do seu poder.
Na verdade, a escola e os professores perderam estas três formas de exercer a sua autoridade.
Numa sociedade mais democrática, os instrumentos de coerção foram reduzidos. E porque a escola não está isolada da sociedade em que vive, não pode exercer esses poderes fora das regras gerais. Para que continuasse a ser possível a ordem de um professor ser acatada sem questionamento seria necessário que toda uma rede de repressão social continuasse a existir. Já não existe.
Com a democratização do ensino, a escola deixou de ser um instrumento de ascensão social. A escola não oferece, pelo menos a quem não pretenda continuar os estudos para lá do 12º ano, nenhuma recompensa. E isso retira-lhe autoridade. Mais: a partir do momento em que a escola passou a ser para todos foi ela mesma que deixou de distinguir socialmente quem a frequenta, e essa sua natureza igualitária retirou-lhe autoridade social.
Por causa disto e da massificação da função docente (com a entrada de milhares de professores no sistema), o professor deixou de estar no topo da hierarquia social. Pelo contrário, a função de professor é hoje pouco respeitada. E os estudantes, que não vivem fora da sociedade, vêem o professor com indiferença. A não ser que ele seja excelente, claro.
Na verdade, a perda de autoridade não é exclusiva dos professores. Só como exemplo: com a multiplicação de fontes de informação, os jornalistas perderam autoridade; com o enfraquecimento do Estado, os políticos perderam autoridade. Mesmo os juízes ou os polícias perderam estatuto social e simbólico e só mantêm a sua autoridade por serem portadores de formas eficazes de coerção.
Vamos partir de dois princípios (sempre discutíveis): que em democracia há sempre uma diluição da autoridade e que, ainda assim, ela é necessária para que algumas funções sejam eficazmente exercidas. Há duas escolhas possíveis: repensar algumas instituições para que essa autoridade seja voluntariamente reconhecida pela sociedade ou reforçar os instrumentos de coerção. Se não se garantir o primeiro caminho acabará por ser o segundo a impor-se numa espiral difícil de controlar.
No caso da escola, sendo o ensino básico obrigatório e não aceitando as nossas sociedades o uso da força na educação, as formas de coerção disponíveis para adolescentes serão sempre fracas. Resta devolver à escola funções que a sociedade em geral e os adolescentes e suas famílias em particular reconheçam como benéficas para si.
Os mais conservadores têm uma resposta clara: querem voltar à escola elitista. Ter escolas de excelência, que seleccionando os seus alunos ganhem estatuto social de excepção, deixando os menos capazes num limbo caótico, socialmente desprestigiante e sem futuro. Não há dúvida de que assim devolvem a autoridade à escola. Pelo menos à escola onde estudem as elites e onde os melhores das classes mais baixas podem entrar quando são excelentes. E de lá não querem sair. Estão assim garantidas todas as condições para que se exerça a autoridade. O problema é que em todas as outras escola a crise de autoridade se agravará ainda mais.
Aqueles que acreditam na democracia (no que a palavra tem de mais profundo) têm de procurar um caminho mais difícil: que a escola dê a todos qualquer coisa para além de uma falsa promessa de ascensão social (que na realidade só outros instrumentos podem garantir). E só vejo uma possibilidade: preparação especializada, proximidade com o que será a experiência futura e experiências impossíveis de encontrar fora da escola.
Na verdade, a escola de hoje não tem quase nada a ver com tudo o que se passa fora dela. Estar 50 ou 90 minutos sentado numa secretária a ouvir um professor, dividindo o tempo por assuntos absolutamente diferentes, para depois ser avaliado por o que se sabe, é uma coisa que não se repete em praticamente mais nenhum momento das nossas vidas. Dificilmente conseguimos convencer alguém que se for bom naquilo será óptimo nas restantes funções que terá na sua vida.
A escola deve ser aquilo que sempre tentou ser: uma preparação para a vida adulta. Seja a vida profissional, pessoal ou de cidadão. E por isso, nela se devem dar os primeiros passos para o que será essa mesma vida. Dando, claro, informações fundamentais e instrumentais sem as quais nada se pode aprender, mas também criando hábitos de aprendizagem, elasticidade mental, experiência de trabalho em grupo e de liderança, hábitos de disciplina na gestão do tempo, estimulando a criatividade, ensinando a falar, a escrever, a pensar e a argumentar, estimulando a capacidade de iniciativa e de risco. Se o fundamental da escola é estar sentado numa aula a ouvir alguém e fazer testes (não digo que isto não tenha de existir), quase nenhuma destas capacidades é realmente trabalhada.
O problema daquilo a que têm chamado “pedagogismo” não é, na realidade, ser muito avançado. É ser quase tão atrasado como aquilo que tenta combater, ficando a meio caminho. O problema da escola não é ser muito ou pouco exigente. É ser desadequada naquilo em que é e não é exigente. É estimular a passividade absoluta para de repente , vindo do nada, promover o “achismo” inconsequente. É manter a lógica uniformizadora que vem do tempo em que a escola servia de instrumento de poder do Estado ou de preparação para uma organização do trabalho que está a desaparecer. E por vezes fingir que estimula a opinião própria sem garantir instrumentos para que ela valha alguma coisa. É ser burocrática. E o “eduquês” é tão burocrático como a velha escolha.
Quer isto dizer que a escola deve ser mais agradável? Quando não pode ser, não. Sendo certo que, ao contrário do que alguns parecem achar, ser desagradável não é por si só uma qualidade, preparar o futuro é preparar também para coisas desagradáveis. Quer dizer que devemos facilitar ou baixa a fasquia? Exactamente o contrário. Não podemos aproximar a escola à facilidade do lazer ou à ignorância da adolescência, limitando o que se ensina ao estreito horizonte do que se encontra na televisão e nas conversas com os amigos. Temos é de aproximar a escola da dificuldade da vida adulta, dando ao adolescente coisas que ele não tem fora da escola mas que terá no futuro.
Só escolas mais autónomas e menos dependentes do “centro”, mais democráticas e menos burocráticas, com mais projectos e mais actividades extracurriculares, menos uniforme e pré-fabricada, pode recuperar a autoridade. Num momento em que em todos os sectores se promove a personalização de tudo o que se oferece a toda a gente, leio com espanto imensa gente a defender exactamente o oposto para a escola: leis sobre tudo, regras iguais em todo o lado, exames nacionais a todo o momento…
O regresso ao passado numa sociedade que não volta para trás apenas isolará mais escola da realidade que a rodeia. E ao fazê-lo ela perderá importância. E perdendo-a perde todos os instrumentos que ainda lhe restam de autoridade. Aos professores restará serem amas-secas dos nossos filhos até eles voltarem para a vida real onde aprendam qualquer coisa sobre o que realmente lhes vai interessar.
Na verdade, a crise de autoridade dos professores é a crise de autoridade que vem sempre com a democracia. Em vez de nos indignarmos, vale a pena repensar a escola. Porque é com a crise da escola que nos devemos preocupar.
Por Daniel Oliveira 23 Mar 08 em Educação56 respostas ao post “A autoridade”
- 1 Pingback on 24 Mar 2008 às 0:19
«Em vez de nos indignarmos, vale a pena repensar a escola»
Talvez «… repensar o exercício da cidadania»
Porque a nossa democracia é, ainda, em muitos “poderes” apenas formal e os cidadãos abstém-se de a exercer, de ser os verdadeiros titulares do poder.
Porque os pais se abstêm da escola exigindo aos professores que sejam os pais dos seus filhos.
Porque (nos) abstemos de participar…
Porque…
Porque nos abstemos do direito (e do dever) de votar.
Preferindo que o “poder” tome conta de nós, sem que nos aborrecemos muito…
Excelente post, Daniel.
-Repito as linhas gerais do comentário que deixei, julgo que dois posts atrás. Não se trata de tornar a escola ou o ensino elitista, trata-se de recuperar o prestígio e autoridade perdidas. Em primeiro lugar, será necessário, introduzir uma cultura de exigência, com objectivo de produzir resultados, daí que defenda a realização de exames nacionais, não obviamente todos anos, mas no final de cada ciclo. Fazer depender dos resultados, uma parte do financiamento da própria escola, será responsabilizar em primeiro lugar os seus responsáveis, seguido do corpo docente, e apenas em última análise, os alunos. Disciplinarmente, e consoante a gravidade, e a sucessão de comportamentos inaceitáveis, poderia ser introduzida a suspensão, e em última consequência a expulsão, com obrigatoriedade de repetição no ano seguinte, caso a escolaridade obrigatória não tenha sido atingida. Julgo que a permanência de 2 ou 3 seguranças na escola, caso se verifiquem frequentemente, roubos, desacatos, não traria mal nenhum ao ambiente escolar, nem colocaria em causa a democracia ou os direitos de quem quer que seja. A partir daqui, separar o trigo do joio, existem professores que talvez não tenham vocação para tal, defendo que cada estabelecimento de ensino possa contratar o seu corpo docente, dentro do quadro como é evidente, não é para contratar amigos, que nem sequer sejam professores, mas o tal financiamento, que dependeria também dos resultados, cortará tais tentativas. Isto não é elitismo, nem coloca a democracia em causa, a continuar o presente estado de coisas, qualquer dia será o actual sistema de ensino a estar em xeque.
Uma questão que não é a despropósito, porque tem a ver com a certificação de habilitações e, por isso, com a escola.
Você, Daniel Oliveira, referiu, no último programa “Eixo do Mal”, que Renato Sampaio, sobrinho de Orlando Gaspar (a família Gaspar é que domina o PS no Porto) , deputado das tatuagens e piercings, era consultor de empresas da construção civil e motivou uma risada entre gente, aqui do Porto, que conhece bem o dito. Este sujeito tem o nono ano, a sua profissão é desenhador e, de facto, trabalhou numa empresa de construção civil falida. A sua ligação à empresa teve um só objectivo: arranjar umas obras junto dos camaradas.
Procure saber, se é ou não verdade o que lhe digo!
Se Renato Sampaio indicou a profissão de consultor é porque não sabe o significado dessa profissão.
Este deputado é de Alijó, terra natal de Sócrates. Um é doutor por fax, o outro consultor em nome de quem?!… Não é difícil adivinhar.
Estamos cheios de falsos doutores, consultores e outros falsários.
Talvez fosse altura de desmistificar este tipo de aldrabões, novos ricos da política, que têm vergonha de assumirem o que são (e não seria mal nenhum).
O Daniel devia ter um conhecimento maior sobre o sistema de ensino para escrever o que escreve. Cria situações embaraçosas para si. O Daniel defende a personalização da escola, manda a achega dos exames nacionais. Aconselho-o a informar-se e a reflectir. Lembre-se que a entrada no ensino superior é uma competição entre alunos e que talvez comece aqui o porquê de muita gente colocar reticencias sobre a “personalização” que tanto fala, ainda para mais quando os pais têm dificuldade em escolher a escola que os filhos podem frequentar (a escolha tem como base a morada e consequentemente proximidade relativamente aos locais de ensino, entre outros)
Excelente posta Daniel tal como é excelente o comentário do António Almeida. A verdade é que se o processo natural é o que descreve, e é, então não podem ser as autoridades a facilitar o caminho, aliviando a responsabilidade a alunos e professores,nem as escolas podem estar na mão de quem está,fisicamente, longe delas.
Todas as escolas que nos últimos anos estão bem colocadas no ranking nacional deveriam receber a carta de alforria! Não há razão nenhuma para continuarem a ser comandadas á distância pelos burocratas do ME! E a seguir seriam autonomizadas as que se revelassem ao mesmo nível, e de forma sucessiva, até chegarmos a um núcleo duro e dificil que exigiria tratamento especial.
Podem ser várias escolas em Lisboa, uma no Algarve,meia dúzia no Porto.Sobre estas escolas recaía a atenção de especialistas, de segurança mais apertada,enfim de medidas especiais. Vai ser assim em todas as actividades e a escola não é excepção, bem pelo contrário!
Por este caminho de facilitismo,irresponsabilidade,laboratório de experiências, é que não iremos a lado nenhum!
Exposição BRILHANTE!
Resalvo dois parágrafos para comentar:
“Os mais conservadores têm uma resposta clara: querem voltar à escola elitista. Ter escolas de excelência, que seleccionando os seus alunos ganhem estatuto social de excepção, deixando os menos capazes num limbo caótico, socialmente desprestigiante e sem futuro. Não há dúvida de que assim devolvem a autoridade à escola. Pelo menos à escola onde estudem as elites e onde os melhores das classes mais baixas podem entrar quando são excelentes. E de lá não querem sair. Estão assim garantidas todas as condições para que se exerça a autoridade. O problema é que em todas as outras escola a crise de autoridade se agravará ainda mais”.
Admite então esta possibilidade. O nivelamento, neste caso muito por baixo, não pode prejudicar quem tem capacidades e não tem dinheiro.
Está estudadíssimo que numa turma de 25 alunos, 2 são muito bons, a maioria medianos e 3 ou 4 francamente problemáticos. Porque não pegar nestes últimos e integrá-los numa escola particular, onde teriam que adoptar o comportamento da maioria? Um por turma.
O cheque educação, livre do preconceito, resolveria muitos problemas.
“Só escolas mais autónomas e menos
dependentes do “centro”, mais democráticas e menos burocráticas, com mais projectos e mais actividades extracurriculares, menos uniforme e pré-fabricada, pode recuperar a autoridade. Num momento em que em todos os sectores se promove a personalização de tudo o que se oferece a toda a gente, leio com espanto imensa gente a defender exactamente o oposto para a escola: leis sobre tudo, regras iguais em todo o lado, exames nacionais a todo o momento…”
Esta descentralização vai promover a excelência e consequentemente a competição entre escolas. Sendo a competição saudável importantíssima ao progresso, terámos aqui um bom começo. Definitivamente, a escola deve ser um espaço de aprendizagem democrático, mas não massificante. O problema é que o socialismo é que está a dar e este conceito não é socialista.
Acrescento que um professor tem que ser um comunicador. Grande parte do problema da autoridade passa por aqui. Um bom comunicador, que passe mensagens sem grande esforço, é um líder nato que poderá levar, neste caso os alunos, o mais longe possível.
é engraçado que de todos os exemplos dados (com os quais eu até concordo) o Daniel não tenha analisado o caso da “empresa”. E a autoridade no mundo do trabalho, como é que vai em termos de democratização?
Daniel,
Não é verdade que “… leio com espanto imensa gente a defender exactamente o oposto para a escola: leis sobre tudo, regras iguais em todo o lado, exames nacionais a todo o momento…”. Tens uma ministra que quer passar para as escolas a gestão da coisa pública e, no entanto, foste para a manifestação lutar contra isso. Por isso fica aqui o desafio: Qual das medidas da ministra da Educação é que tu constestas afinal????
Nuno Castro, não falei da empresa exactamente porque não houve no mundo do trabalho, em Portugal, pelo menos, um processo de democratização. A evolução tem ido, aliás, no sentido oposto.
Bom «post» Daniel.
Concordo com o modo como coloca o problema. Era, precisamente, por aí que deveríamos começar.
Que tipo de escola queremos?
Para quê?
Para quem?
Em última análise até poderíamos questionar o ensino obrigatório.
O estado deverá assegurar o ensino[universal e gratuito] mas não o deverá impor.
Se o ensino não fosse obrigatório, provavelmente, casos como o do vídeo não ocorreriam.
Apreciei, ainda, o ter retirado o vídeo e o modo como o justificou, fiquei, apenas, surpreendido por não ter tido o mesmo cuidado quando colocou um vídeo de um polícia americano que repreendia um «skater».
Li o post com muito cuidado, mas só uma vez porque fiquei cansado.
Aliás não acredito que noventa por cento dos senhores alunos que andam a fazer o decimo segundo ano o conseguissem ler até ao fim, e lendo-o o compreendessem.
Mas o post é exemplar.
Para Daniel Oliveira a escola (as escolas) deviam funcionar como imensos plenários onde as questões eram discutidas, muito perto dos problemas reais, o professor seria apenas um árbitro muito discreto, os horários variavam de acordo com a temperatura ambiente e as necessidades de uma aula prática na praia e as resoluções aprovadas, claro está, por braço no ar.
Não havia exames, nem notas, nem na realidade disciplinas (estas seriam escolhidas de acordo com o meio urbano, aqui como fazer xaputa ali como entrar nos Morangos com Açúcar )
Era bonito, era poético.
Desconfio é que as crianças, os jovens e os adultos saíssem destas madrassas ocidentais a saber somar dois mais dois.
Continuo na minha.
A professora da luta-livre deve estar espantadíssima como é que aquilo que funciona tão bem nos livros, que tão diligentemente ajudou a escrever, não resiste a um toque de telemóvel.
O Daniel deu-me um raspanete e eu, como sou bem aplicado, tive que gramar a pastilha: li tudo.
Infelizmente, a minha previsão concretizou-se. E, se quer que eu lhe diga, o Daniel é pouco sucinto. Repete, repete e repete: o ensino centrado no aluno, a aprendizagem pela descoberta, que os alunos são todos iguais, por isso, não deve haver elites. Diga-me, chama aos alunos mais predispostos a aprender de elitistas? Critica o eduquês, mas acaba por ser um seu acérrimo defensor.
Enfim, a hipocrisia do costume. E é esta hipocrisia que descredibiliza a escola pública, meu caro.
Daniel, venha para o terreno. Ensine a Língua Portuguesa ou a Matemática a umas 5 ou 6 turmas de alunos problemáticos durante 3 anos, do 7º ao 9º.
Pressinto que ou o Daniel mudaria muito a sua prática inicial, ou seria comido vivo em três tempos e, além destes pequenos não terem aprendido nada de jeito, teriam, consequentemente, desenvolvido melhor os seus instintos básicos.
Se acreditamos na escola pública temos de mostrar que é possível obter iguais ou melhores resultados que os privados. Temos que nos empenhar com os alunos que querem aprender, sobretudo, os de classes baixas.
Infelizmente terá de haver disciplina e rigor, não só para estes desenvolverem aprendizagens (ou competências, tanto se me dá) mas, sobretudo, Daniel, porque estas são essenciais para a vida.
Caro Daniel Oliveira
Ontem coloquei uma mensagem, pela meia-noite, no espaço «Isto só à estalada». Hoje não a descubro; trata-se de um problema informático ou há censura no Arrastão?
Sendo o tema o da autoridade, vou tentar continuar o debate aqui.
Confrontei-o com o facto de a tolerância à violência e o sentimento de insegurança, criar condições para o crescimento da extrema-direita. Afirmei pois que a tentativa de justificar o injustificável_ a violência sobre uma senhora de 60 anos, professora_ desculpando a agressora e culpando a vítima é o maná de que o fascismo se alimenta. Na minha opinião, o seu texto (tendo em conta a sua exposição mediática) produz tal efeito, pois devem ser os genuínos democratas os primeiros a mostrar à sociedade que a violência de um aluno sobre um professor, ou outra qualquer que não resulte do direito à defesa da integridade física, é absolutamente intolerável !
Pois quando os democratas não o fazem, então sim sobra a oportunidade para os fascistas com discursos de tipo: «estão a ver a bandalheira a que chegamos! A culpa é da democracia, mas nós vamos meter isto na ordem, a autoridade vai ser reposta.» .
Foi assim, com a ascensão do Estado Novo, foi esse o motivo invocado pelos nacionalistas para começar a guerra civil de Espanha, e igual argumento usaram os apoiantes de Pinochet. O Fascismo nunca dorme. Mas só tem força quando os cidadãos começam a dar-lhe ouvidos. E só lhe dão ouvidos quando as democracias os defraudam, quando sentem medo.
Direi ainda que o que se está passar nas escolas portuguesas vai ser cruelmente pago pelos alunos sem conhecimentos, regras, disciplina que este sistema educativo produz. Nas empresas, os recursos humanos chumbam-nos logo na entrevista; e os que conseguirem passar cedo descobriram que as regras são outras e a competição não poupará os inaptos. Tarde demais, o mercado não os quererá para nada. Pois é preciso ter em conta que no mundo global enfrentarão pessoas muito melhor preparadas vindas de todas as partes do mundo. Porque será que os países orientais, como por exemplo a Coreia do Sul são geralmente os melhores nas olimpíadas de estudantes, enquanto por cá se entra na universidade sem saber escrever e sem saber quem foi Salazar? Porque na Coreia cenas tristes como as que sucedem todos os dias nas nossas escolas são algo de totalmente inconcebível para os próprios alunos. As regras são claras e todos são responsabilizados. Bem sei que foi com boa intenção que se tentou proteger o aluno da anterior violência exercida sobre ele, desde a professora primária ao professor do liceu. Mas, infelizmente, o resultado é este: violência, desmotivação, ignorância. Sinceramente, tendo em conta o que se investiu, não podia ser pior.
Não pretendo ofendê-lo, nem sequer convencê-lo de nada_ tão só tentei debater ideias. Com elevação, dignidade e respeito mútuo.
Tem o Daniel Oliveira todo o direito de não me responder. Obviamente. Porém, não tem direito nenhum de tentar diminuir quem de si discorda (e, pode não acreditar, mas geralmente estou de acordo consigo), arrumando-me com um comentário semelhante _ «o texto mais machista …»_ ao que fez da outra vez.
Cordialmente
João Cerqueira
Como diz a Izabel, numa turma de 25 alunos há 3/4 alunos problemáticos. A escola tem que ter competências para resolver estas questões.Se estiver fora da sua capacidade,estes alunos devem ser entregues a especialistas multi-áreas, para se encontrarem caminhos
que viabilizem uma educação e um futuro para estes jovens!
Sempre dando oportunidades a estes jovens para encontrarem o seu caminho!
Fica mais barato do que abandonar as escolas e os jovens á sua sorte. Não pagamos agora a especialistas,pagaremos a polícias e a guardas de prisões,mais tarde!
.
João, o seu comentário anterior, no outro post, foi publicado.
Daniel (e João) esse «apagar» aparente dos comentários está ligado à utilização do «internet explorer», utilizando o «firefox» o problema já não acontece, talvez fosse um aspecto a rever…
Concordo plenamente com o último comentário.
E acho o post uma enfermidade de lugares-comuns esquerdizantes, que já provaram o seu irrealismo e ineficácia. Grande parte do que vivemos tem origem no “hei, teacher let the kids alone” e noutras belas panaceias parentes do “mito do bom selvagem”.
Ninguém aprende sem OUVIR, ESCUTAR,PRESTAR ATENÇÃO. O resto são modismos e variantes das teorias e da técnica.
Não sei se é novidade, mas a verdade é que este problema de falta de autoridade é transversal a toda a administração pública. Onde não há responsabilização, em que todos são iguais,onde não há avaliação,em que os sindicatos co-dirigem,não pode haver autoridade.E é tambem por isso que a administração funciona mal! Muito mal!
Julgam que um dirigente na administração pública se quiser premiar os melhores funcionários o pode fazer?
Fico espantado com a leitura que algumas pessoas fazem do que se escreve está tão formatada ao que acham que vão ler. Dizer que neste post se defende «“hei, teacher let the kids alone”» e outras «belas panaceias parentes do “mito do bom selvagem”» é dizer quase o contrário do que está no texto:
«O problema da escola não é ser muito ou pouco exigente. É ser desadequada naquilo em que é e não é exigente. É estimular a passividade absoluta para de repente , vindo do nada, promover o “achismo” inconsequente.»
«E o “eduquês” é tão burocrático como a velha escolha.»
«Preparar o futuro é preparar também para coisas desagradáveis.»
«Não podemos aproximar a escola à facilidade do lazer ou à ignorância da adolescência, limitando o que se ensina ao estreito horizonte do que se encontra na televisão e nas conversas com os amigos. Temos é de aproximar a escola da dificuldade da vida adulta, dando ao adolescente coisas que ele não tem fora da escola mas que terá no futuro.»
«“hei, teacher let the kids alone”?
“mito do bom selvagem”»?
Onde?
A escola também devia ensinar as pessoas a ler textos e a debate-los em vez de ter respostas pré-fabricadas para repetir sempre o mesmo debate.
Onde é que está o Pink Floyd?
Aqui!
Dando, claro, informações fundamentais e instrumentais sem as quais nada se pode aprender, mas também criando hábitos de aprendizagem, elasticidade mental, experiência de trabalho em grupo e de liderança, hábitos de disciplina na gestão do tempo, estimulando a criatividade, ensinando a falar, a escrever, a pensar e a argumentar, estimulando a capacidade de iniciativa e de risco.
Se o senhor ler com atenção o que escreveu compreenderá que isto não é um programa é um sonho cor-de-rosa a aplicar num universo ideal.
É por estas balelas (desculpe o termo) muito lindas, escritas em eduquês embrulhadas em celofane que se pode citar um conhecido ditado
Se não sabes para onde vais, todos os caminhos são bons
PS. Aposto que nos livros que as Senhoras Doutoras lêem e produzem, deve haver dezenas de parágrafos muito parecidos com aquele seu.
É como diz: a busca da autoridade perdida, é um “drama” de grande parte dos serviços do Estado. Desde a polícia aos políticos profissionais, passando por professores médicos, juízes, todos choram a autoridade perdida. Mas talvez seja de pensar se, na realidade, não pretendem apenas recuperar um estatuto que os dispensava de prestar contas sobre os seus actos. Do mesmo modo, talvez valha a pena pensar se a única forma de ultrapassar esta situação de “crise de autoridade”, não será envolver a comunidade, no seu conjunto, nas tomadas de decisão-ou seja, aprofundar a democracia. Salvo melhor opinião, neste momento de crise global, vamos em sentido contrário. Nas escolas e na sociedade.
Um último apontamento: não deixa de ser curioso que todo este debate tenha sido provocado pela atitude de uma jovem que, longe de contestar a autoridade de quem quer que seja (não tinha conhecimentos, nem estatuto para o fazer), se limitou a manifestar a sua má educação, de acordo com a ordem de valores que, pelos vistos, interiorizou- o telemóvel está muito acima de qualquer pessoa…
Fado,
Partindo do principio que a sua questão não é de estilo, devo concluir que acha que os alunos…
Não devem ter hábitos de aprendizagem;
Não devem ter elasticidade mental;
Não devem ganhar experiência de trabalho em grupo;
Não devem ganhar experiência de liderança;
Não devem ter hábitos de disciplina na gestão do tempo;
A sua criatividade não deve ser estimulada;
Não devem saber falar;
Não devem saber escrever;
Não devem saber pensar;
Não devem saber argumentar;
Não deve ser estimulada a sua capacidade de iniciativa e de risco.
Zé Bonito
Essa ansia de ganhar protagonismo perdido é uma realidade a combater, mas é bem real.Tem toda a razão em a referir. É em democracia que esse equilibrio se encontra.No debate democrático. Todos têm que prestar contas.Aquela aluna teve aquela comportamento porque o ambiente escolar o admite possível.Desde logo porque o telemóvel não sendo um instrumento de trabalho da aula deveria estar desligado. E a reacção da professora tambem mostra que não espera ajuda de ninguem. Se a escola tivesse alguem que exercesse a autoridade, naturalmente que a professora o chamaria.Aquela reacção é a de quem está encurralada.Estavam ambas encurraladas e com medo de perder a face.
isto só é possível, porque foi passado para a comunidade, que ensinar adolescentes é deixá-los tratar os mais velhos por tu.São iguais!Não são!Um é professor o outro é aluno.É só isto que tem que estar no seu lugar!
Mas tem toda a razão.Quem não viveu no antes 25 de Abril, jamais perceberá que o fascismo eram essas humilhações diárias,dos poderes sem face,não criticáveis, sempre intocáveis.
Não consigo ler o meu comentário, por isso, lá vai outra vez.
“Segundo sei (posso estar enganado), a professora nem participação fizera do sucedido. O que acho preocupante.”
Se calhar a professora lá terá as suas razões, que não serão muito diferentes daquelas que o Daniel insinua. Ou seja que a culpa é da prof.
Aliás, não sei porque se discute este vídeo. Só na minha escola já vi dois ou três muito mais graves. Imagino até que cada escola terá vários, estou errado?
Mais grave ainda é a indisciplina de alunos sobre os funcionários que, muitas vezes, são tratados abaixo de cão e se os doutores mal se sabem defender então aqueles….
Mais grave ainda são as agressões e intimidações de alunos mais velhos ou mais fortes sobre os mais fracos.
Enfim, diz-me o Daniel é a Democracia, nada a fazer, portanto.
Interrogo-me se os injustiçados de hoje não seguirão quem radicalmente prometa ordem, justiça e disciplina amanhã.
versão mozzila
“Segundo sei (posso estar enganado), a professora nem participação fizera do sucedido. O que acho preocupante.”
Se calhar a professora lá terá as suas razões, que não serão muito diferentes daquelas que o Daniel insinua. Ou seja que a culpa é da prof.
Aliás, não sei porque se discute este vídeo. Só na minha escola já vi dois ou três muito mais graves. Imagino até que cada escola terá vários, estou errado?
Mais grave ainda é a indisciplina de alunos sobre os funcionários que, muitas vezes, são tratados abaixo de cão e se os doutores mal se sabem defender então aqueles….
Mais grave ainda são as agressões e intimidações de alunos mais velhos ou mais fortes sobre os mais fracos.
Enfim, diz-me o Daniel é a Democracia, nada a fazer, portanto.
Achei a posta suficientemente interessante para a ler até ao fim.
Mas tenho alguns comentários a fazer:
- Emendou a mão em relação à posta do telemóvel, esta deveria ter sido a posta a escrever e não a outra;
- Embora seja esse o assunto em discussão, o Daniel deixa em cima da escola quase toda a responsabilidade na educação e formação dos cidadãos. É precisamente por se estar permanentemente a exigir isso da escola, que o modelo acaba por ruir em muitos pontos. Chego a conclusão, que a escola não se consegue especializar em nenhuma das tarefas que lhe atribuem. Tudo se lhe pede: ensino; formação pessoal; cívica; assistência social; serviço de psicologia; etc etc etc - longa lista de eteceteras.
- A Democracia tem de facto efeitos colaterais. Um deles é como afirma, a perda de autoridade das instituições - escola, polícia, justiça, etc - mas essa autoridade não é residual: o Estado, apesar de tudo, tem o poder de obrigar os alunos a frequentarem a escola contra sua vontade. Há milhares de alunos que frequentam a escola contrariados, e no entanto estão lá, porque se não estiverem a policia vai a casa, etc. Como vê alguma autoridade tem de ser coerciva. É a vida.
- Julgo que se deve começar discutir seriamente se parte dos actuais alunos problemáticos não deverão sair do ensino regular para um ensino mais tecnico e prático, profissionalizante. E isto logo a partir do 6º ano. Escolas separadas. Sei que isto tem um efeito perverso: determinados alunos nunca terão contacto com uma aula de frances ou de filosofia, mas para que querem eles isso?
Há claramente uma franja de alunos a quem a escola nada diz, e que são precisamente aqueles que mais recursos, trabalho e paciencia consomem.
Também não me parece muito justo, ter o sistema mergulhado em confusão e indisciplina, provocadas por uma minoria, em deterimento da maioria que aprende e progride. É gente dessa maioria que está a deixar o Ensino Público rumo ao Privado. Penso que se deveria assumir claramente este problema e separar de uma vez por todas duas realidades que estão misturadas à força.
«Ainda sobre o vídeo (por estes dias só há um), João Grancho, coordenador da linha SOS Professor, disse: “Este foi um acto condenável, mas recorrente.” Na quinta-feira, assustei-me com o vídeo.»
Daniel Oliveira.
Você tem voltado ao assunto do ensino após ter efectuado uma apreciação pouco abonatória acerca das competências da professora injuriada e maltratada, mas de cada vez é pior a emenda do que o soneto. Neste último, então, você mistura umas coisas lidas à pressa acerca do conceito de autoridade com outras mal digeridas acerca da escola, e diz uma série de grossas asneiras pegadas (a mais ligeira é integrar o ensino secundário na escolaridade obrigatória). Deixe-me, portanto, dizer-lhe duas ou três coisas acerca das confusões e das falácias do seu post em relação à conflitualidade na escolaridade obrigatória. Apesar de restrito a este aspecto, acabou por ser extenso. Por esta ou por outras razões, está no pleno direito de não o publicar.
“Com a democratização do ensino, a escola deixou de ser um instrumento de ascensão social. A escola não oferece, pelo menos a quem não pretenda continuar os estudos para lá do 12º ano, nenhuma recompensa. E isso retira-lhe autoridade”. Como lhe disse noutro dia, o sistema de ensino não foi democratizado: foi universalizado. E o segmento da escolaridade básica foi tornado obrigatório antes mesmo da implantação da República (daí que durante muitos anos a escola oficial fosse designada por Escola Régia). A escolaridade básica, independentemente do número de anos que abarque, constitui desde há muito uma imposição social, que os Estados utilizam com muitas finalidades (pôr os nacionais a falarem uma língua uniforme, ensinar-lhes os instrumentos básicos, triviais, sobre as letras, as contas, a higiene, os pesos, as medidas e as moedas, para que a economia funcione num mercado mais amplo sem grandes entraves nem enganos nos trocos, para que a religião seja melhor acatada, para que a noção de pátria ganhe algum sentido para além da comunidade aldeã onde cada um nasceu, etc., etc.).
Este segmento do sistema de ensino nunca constituiu um instrumento de mobilidade social ascendente, porque nunca preparou para uma profissão nem para algo que não fossem as competências sociais tidas por básicas ou elementares em cada época. Não se pode confundir a ESCOLA, o sistema de ensino não superior, com o seu segmento básico, porque só os segmentos seguintes, pós básico, orientados para o prosseguimento de estudos de nível superior ou para a iniciação profissional tiveram (e ainda têm) uma função de mobilidade social ascendente. E muito menos se pode confundir a ESCOLA com a escolaridade obrigatória.
Em tempos, na sociedade rural e subdesenvolvida que era a nossa, a escolarização obrigatória encontrou muitas resistências. Antes de mais, dos pais, que a recusavam pelos pretextos mais variados, a começar pela sangria de braços que acarretava para as tarefas mais ligeiras dos trabalhos agrícolas, e, depois, sendo a esmagadora maioria deles analfabeta, pela inutilidade que lhe atribuíam. Ainda hoje, pelas mesmas ou por razões parecidas, persiste alguma resistência à escolarização obrigatória, devido ao período bem mais longo de nove anos. O abandono prematuro (para o qual uma parte do insucesso serve de pretexto) é disso exemplo, nomeadamente entre comunidades étnicas que lutam contra a aculturação, como os ciganos, ou entre as comunidades mais pobres que vêem no trabalho infantil uma forma de aumentar os seus magros proventos. Fazer depender da frequência escolar a concessão do rendimento mínimo garantido foi uma forma de tentar vencer essas resistências.
Mas desde sempre a escolarização obrigatória encontrou resistência por parte do público a que se destina. Por razões de cansaço (devido às distâncias a percorrer, à acumulação do esforço do trabalho escolar com o do campo, à má alimentação, etc.), de diversidade das capacidades exigidas, da disciplina a que obriga, da persistência necessária e dos castigos infligidos como instrumento de aprendizagem, a escola não era vista como instituição apetecível. Quando à resistência dos pais se juntava a dos filhos, o abandono era o caminho garantido.
Com a transformação da sociedade portuguesa a seguir à segunda guerra mundial e, mais acentuadamente, desde o marcelismo até hoje, as coisas têm melhorado bastante. Foi prolongado o período de escolaridade obrigatória para 6, 8 e 9 anos e as taxas de escolarização subiram bastante, aproximando-se, no ingresso, em termos práticos, dos 100%. Persistem, porém, os problemas do insucesso e do abandono prematuro, cujas causas não podem ser atribuídas apenas ao desinteresse dos pais e dos alunos, muito menos à falta de capacidades inatas, mas ao próprio sistema de ensino (o currículo unificado no último segmento – o chamado 3.º ciclo – o número excessivo de disciplinas, o número excessivo de horas passadas na escola, o ensino com base no “manual” e muito pouco experimental e construtivo, os programas extensos, ambiciosos, não modularizados, sem identificação precisa dos objectivos pretendidos e, em geral, feitos de forma incompetente, a falta de profissionalismo de muitos professores (porque a escola ainda hoje é um local aonde se vai “dar umas aulas”), etc., etc. O facto da taxa de escolarização no segmento secundário do sistema de ensino ser relativamente baixa é revelador de que a escola pós obrigatória não é aliciante; e as taxas de insucesso e de abandono neste segmento também dizem algo sobre o funcionamento do sistema (onde a incompetência com que está estruturado e é gerido é ainda maior) e sobre a qualidade das aprendizagens na escolaridade obrigatória.
O alargamento do período da escolaridade obrigatória acarretou uma transformação do público a quem ela anteriormente se dirigia: em vez de crianças até aos dez ou doze anos, passou a ter como alunos adolescentes até aos dezasseis. Foi este facto que diversificou o público da escolaridade obrigatória, e não a democratização do ensino. Embora dantes os adolescentes também andassem na escola, não andavam na escolaridade obrigatória; frequentavam a escola em segmentos secundários e por motivação pessoal ou familiar. Sendo tais segmentos de frequência facultativa, as taxas de frequência, de insucesso e de abandono tinham outros significados e não constituíam preocupação da administração educativa, e os problemas disciplinares que os adolescentes sempre provocaram tinham outro tipo de resolução.
A escola sempre teve de lutar contra a indisciplina dos seus frequentadores, mesmo quando eles eram apenas crianças. Ser criança é ser um pequeno diabrete em potência, capaz de traquinices e de outras maldades. E, na escolaridade obrigatória frequentada por crianças, a escola estava também dotada de funções educativas e correctivas, umas impostas pelo estado e outras delegadas pelos pais (nunca as mãos lhe doam, senhor professor, era o recado mais frequente). A humilhação e o castigo corporal eram nela de uso diário, não apenas como instrumentos educativos, reproduzindo o que era de uso comum também na sociedade, mas, o que era surrealista, como instrumentos de aprendizagem. Na mesma época, o castigo corporal era pouco aplicado aos adolescentes frequentadores dos segmentos não obrigatórios; não só os problemas disciplinares por eles ocasionados eram distintos dos ocasionados por crianças, por razões do seu próprio desenvolvimento, mas porque as sanções que lhes eram aplicadas pertenciam a outro tipo (expulsão da sala de aula, suspensão da frequência e expulsão da escola).
Os problemas disciplinares na escolaridade obrigatória mudaram, antes de mais, porque mudaram os seus frequentadores, que com o seu alargamento para 9 anos passou a incluir os adolescentes. E mudaram também porque a sociedade conheceu profundas transformações nos valores dominantes, as quais se repercutem na maior diversidade e gravidade dos problemas que ocorrem nas escolas. Por outro lado, a forma de resolver esses problemas mais diversos e graves também mudou, porque mudaram a filosofia educativa e a preocupação do estado em manter o maior número de crianças e de adolescentes na escola. Ao carácter obrigatório da escolaridade veio juntar-se a filosofia da inclusão. E esta é a grande contradição, talvez uma contradição insanável, com que a escola obrigatória se debate modernamente.
As modas pedagógicas, que alguns depreciativamente e talvez sem saberem bem do que falam apelidam de “eduquês”, não são o principal problema da escolaridade obrigatória; elas têm a sua quota parte de responsabilidade na baixa qualidade das aprendizagens, tal como a têm a incompetência na concepção e na gestão curriculares e outras deficiências na gestão do sistema, mas a contradição entre o carácter obrigatório e, portanto, compulsivo, da frequência escolar e a falta de instrumentos adequados para fazer face à crescente displicência com que a escolarização é encarada e ao menosprezo pela aprendizagem, assim como para fazer face às atitudes desrespeitosas e à crescente indisciplina na sala de aula é talvez o principal problema.
A filosofia de inclusão a todo o preço e a ausência de instrumentos adequados para lidar com a indisciplina estão perfeitamente espelhados no novo estatuto do aluno aprovado recentemente por este governo. Parece que só agora muita gente se deu conta de que a exclusão deixou de figurar entre as sanções, seja para punir a falta de assiduidade, seja para punir a indisciplina, agravando a displicência com que a escolaridade obrigatória é encarada e dando um péssimo exemplo de irresponsabilidade para os adolescentes em formação. É claro, do que precisamos para fazer face à situação grave que se vive na escolaridade obrigatória, não é de um estatuto do aluno, mas de um estatuto da própria escolaridade obrigatória, onde os adolescentes, que ainda não seres autónomos nem cidadãos no uso pleno dos direitos de cidadania, fiquem subordinados a alguém: aos pais, à escola ou a ambos. O que urge resolver é a actual indefinição em relação às responsabilidades de cada interveniente. Os problemas aparecem na escola porque é nela que os seus frequentadores passam mais tempo juntos e aí são contrariados; mas não são apenas problemas da escola: são problemas da sociedade e dos pais.
As filosofias políticas que defendem que todos são iguais em direitos, mas não em obrigações, independentemente das funções que desempenham – os filhos iguais aos pais, os novos iguais aos velhos, as mulheres iguais aos homens – não são um resultado da democratização das sociedades; são resultado de duas tendências contraditórias que nelas se verificam. Por um lado, da expansão do capitalismo e do hedonismo que ele fomenta, para quem na caixa do supermercado todos são iguais, desde que tenham dinheiro para pagar; por outro lado, são fruto da pregação das utopias igualitaristas, para as quais o caminho da história é a igualdade total e a fraternidade universal. Ao contrário do que é correntemente afirmado, as crianças e os adolescentes de hoje, assim como os seus pais, não são apenas filhos do Rousseau e do Marx: são também filhos do Spock. Afinal, uma troupe de valentes sacanas!
JC.
Obrigado por ter apagado os meus 2 comentários a este post.
Acho que o Daniel aborda muito bem a questão da escola e da autoridade, e desse ponto de vista gostei muito do seu texto. Como gostei muito dos outros que tem escrito a propósito deste episódio do telemóvel. Mas não queria deixar de chamar a atenção para alguns estereótipos que, de tão repetidos, ganham a aparência de verdades que não são.
Quando diz:
“Na verdade, a escola de hoje não tem quase nada a ver com tudo o que se passa fora dela. Estar 50 ou 90 minutos sentado numa secretária a ouvir um professor, dividindo o tempo por assuntos absolutamente diferentes,”
está a referir-se a que escola? É que há décadas que se sabe que não deve ser assim; há décadas que não é essa a orientação da formação dos professores (bem pelo contrário) nem das políticas educativas. Sem querer ser ingénuo - é evidente que muitos professores continuam nesse paradigma da transmissão de conhecimento (o que quer que isso seja) - a verdade é que em muitas escolas, muitos professores fazem muito mais aquilo que o Daniel diz que se deve fazer do que aquilo que acha que se faz :-).
E o que permitiu ao ensino sair desse paradigma industrial foi precisamente … a Pedagogia, e é também nela, mesmo que o Daniel não tenha consciência disso, que enraiza o que lhe parece bom para a escola - a personalização, o diálogo, a construção pessoal de um percurso de conhecimento, a liberdade para pensar e questionar e ser crítico, etc. Com respeito e com rigor, com trabalho, certamente, mas de formas que sejam significativas para os alunos. O problema do “pedagogismo”, como lhe chama, não é ser avançado ou atrasado, é ser estúpido. Está para a Pedagogia como o fundamentalismo está para qualquer religião ou o fanático da claque para o adepto do desporto - é um exagero de formalismo e burocracia, como refere, mas também de pieguice e lamechice, na maior parte dos casos.
Por isso, convém não confundir o discurso pedagógico (ele mesmo muito diversificado) com o “eduquês”, porque são coisas muito diferentes. O Nuno Crato, que escreveu muito bem sobre isto, não fez essa confusão, e lá estão alguns dos nomes importantes da Pedagogia que têm permitido tornar a escola melhor para as sucessivas gerações.
Não, não é nada disso, mas vai ser difícil o senhor perceber, não porque não seja inteligente mas apenas porque o seu cérebro já se recusa a ver a realidade.
E a realidade é que os alunos não querem nada disso e querendo parte, querem-no sem esforço, sem disciplina, sem análise.
Aliás o ministério quer o mesmo.
Mas esteja descansado que o seu camarada de ideologia o senhor jornalista Rui Tavares hoje no Público já resolveu o problema.
Como?
Diminuindo os riscos, turmas mais pequenas e mais professores, Se não der, turmas ainda mais pequenas e mais professores até chegar ao exemplo exemplar, um professor, um aluno, um cachaço perdão um voto.
Mais contínuas, perdão pessoal auxiliar, perdão ajudantes de acção escolar.
E por último intercomunicadores ligados, julgo eu, a uma central de emergência.
Faltou-lhe, mas eu dou uma ajuda, um botão de pânico.
Justicialista, os seus comentários não foram apagados. Não foram é a este post, mas ao post que foi todo ele apagado.
Concordo com quase tudo o que diz. E o que não concordo é acessório.
JC, a forma como começa todos debates fazem com que não tenha qualquer interesse debater consigo. É mal-educado sempre e sem excepção, mesmo quando a discussão não está acalorada. Mas adiante.
Resumo e não me alongo. Toda a sua crítica parte de um truque argumentativo: o de comparar a escolaridade obrigatória até à 4ª classe com a escolaridade obrigatória até ao 9º ano, como se fossem exactamente a mesma coisa. Não são. Têm funções completamente diferentes, com alunos com características completamente diferentes (a começar pelas idades) e os conteúdos que são ensinados diferentes.
«A escolaridade básica, independentemente do número de anos que abarque, constitui desde há muito uma imposição social». Independentemente do número de anos que abarca? O facto de ter o mesmo nome é muito menos relevante do que o número de anos que abarca. E como estamos a falar de adolescentes, é o número de anos que abarca que fez com que passassem a estar abrangidos pelo ensino básico e obrigatório. E isso é que faz com que estejamos aqui a debater a questão da autoridade com os adolescentes. O número de anos que abarca é quase uma das questões fundamentais do debate.
Eu estive sempre a falar de adolescentes na escola. Ou seja: eu não comparei a escola até à 4ª classe do passado com a escola até ao 9º ano de hoje. Comparei os adolescentes na escola do passado (geralmente, depois da 4ª classe) com os adolescentes de hoje, que já estão abrangidos pela escolaridade obrigatória. Ou vai continuar a comparar a antiga escola primária do passado com o conjunto da escolaridade obrigatória quando esta for alargada até ao 12º ano?
A comparação da escolaridade obrigatória de antes e de agora é sua e não é o tema do meu post. Até porque no primeiro ciclo não é costume assistirmos a este tipo de problemas. As crianças aceitam, na esmagadora maioria dos casos, a autoridade do professor, porque aceitam a autoridade do adulto. Nada desta minha conversa faria qualquer sentido aplicada a crianças de seis, sete ou oito anos. Nem a forma de ensinar até ao fim do primeiro ciclo tem as exactas características que aqui descrevi.
Aliás, o seu jogo de palavas é revelador: «Os problemas disciplinares na escolaridade obrigatória mudaram, antes de mais, porque mudaram os seus frequentadores, que com o seu alargamento para 9 anos passou a incluir os adolescentes.»
Eu digo: os problemas disciplinares nos adolescentes mudaram, antes de mais, porque o ensino, para eles, passou a ser obrigatório. E isto é para si um disparate apesar de estarmos a dizer exactamente a mesma coisa, mudando o sujeito da frase. Se isto não é má-fé…
PS: usei erradamente a expressão “ensino básico e secundário”, por hábito do passado. Está corrigido.
“Com a democratização do ensino, a escola deixou de ser um instrumento de ascensão social. A escola não oferece, pelo menos a quem não pretenda continuar os estudos para lá do 12º ano, nenhuma recompensa. E isso retira-lhe autoridade”.
Bem, isto não é inteiramente verdade.
Eu creio que o alargamento do ensino em direcção à escolaridade obrigatória foi ,para muitos alunos oriundos de meios socialmente desfavorecidos, um instrumento efectivo mobilidade social. Todos nós, os que passámos pela escola pública, conhecemos esses bons exemplos. Não se pode dizer, nestes mais de trinta anos de democracia, que tudo tenha sido mau, no universo da escola pública. Eu creio que ela até ajudou à mobilidade, as condições de partida (com muitos alunos oriundos de meios iletrados, ou em que a cultura letrada era frágil) eram porém adversas. E considerando essas tais condições adversas, temos de reconhecer que o desempenho da escola pública até nem foi nada mau. Diria mais, foi assaz positivo.
Hoje, a escola pública enfrenta novos desafios, com a omnipresença de novos canais de socialização, do peso da televisão à internet, sem esquecer outros artefactos do nosso tempo, os telemóveis, os leitores de mp3, etc., etc. O Daniel enfatiza a necessidade desta mesma escola se adaptar aos novos tempos. De acordo, mas convém não exagerar… Também devemos exigir esse esforço de adaptação aos alunos, independentemente da origem social ou étnica. Para tal é necessário que as escolas tenham um corpo de regras claro (não é o que sucede hoje, com as interferências do Ministério de Educação, cujos burocratas de serviço criam estatutos do aluno a partir de cima e impostos a todos os estabelecimentos de ensino). E que essas regras perdurem no tempo, não variando ao sabor das modas e mudanças que vão ocorrendo na sociedade geral. Estabilidade é importante.
Sobre autoridade, diz o Daniel que na sociedade democrática ela assenta no reconhecimento ou na negociação (foi o que entrevi dos seus posts). Aqui parece-me que olha apenas para um dos lados da questão. Esquece que a autoridade também depende dos meios (institucionais) que um dado actor (neste caso, falamos do professor) tem à sua disposição. Porque os meios também contribuem para o reconhecimento ou aceitação da autoridade de outrem, convém não esquecer. É assim mesmo em sociedades democráticas. Dizer que “a autoridade conquista-se” não basta, porque isso é afirmar que as qualidade intrínsecas ao actor, como por exemplo o carisma, seriam suficientes. Não são. Ou se o são, é para uma ínfima minoria, os tais seres excepcionais. Eu também gostaria que a autoridade fosse conquistada assim, por força de um julgamento racional, do reconhecimento das qualidades de que é portador um dado agente, mas isto é domínio do Dever Ser. Ou seja, possui uma carga utópica.
Na questão das regras escolares, sustento que a possibilidade de expulsão do estabelecimento escolar (não do sistema de ensino, pelo menos numa primeira fase), enquanto sanção de fim de linha, deve ser prerrogativa das escolas, e não do Ministério de Educação. Não devemos ter medo das palavras, a punição, desde que proporcional ao acto, contribui também para formar melhores cidadãos. E se o Daniel fala na necessidade de a escola não se resumir à instrução das matérias, deveria também ter isto em consideração. Porque, como dizia um comentador mais acima, este estado de indisciplina larvar é o terreno fértil do fascismo. E não é de surpreender que muitos destes jovens assim indisciplinados e mal-educados se deixem, mais tarde, seduzir pelo canto do autoritarismo.
DO.
Admito pacificamente que não tenha qualquer interesse em debater este assunto, comigo ou com qualquer pessoa informada. Por desconhecimento das matérias concretas, por posicionamento ideológico e por qualquer limitação intelectual, você não está à altura.. Mas é escusado acusar-me de usar truques argumentativos ou de má-fé. Compreendo que ser contraditado e ver desmascaradas as balelas que se dizem incomoda, mas não é motivo suficiente para descer tão baixo.
Os adolescentes sempre andaram na escola e sempre causaram problemas disciplinares. Eu sou um exemplo disso: excesso de faltas aos 12 anos e suspenso por oito dias aos 14. Os problemas que causavam eram de tipo ligeiramente diferente e, na generalidade, de menor gravidade e também menos frequentes. O aumento da diversidade, da gravidade e do número dos problemas resulta de várias ordens de factores, de que destaco os mais importantes a meu ver: generalização da frequência ao universo dos adolescentes, pela extensão da escolaridade obrigatória; mudanças acentuadas dos valores sociais dominantes, com destaque para o hedonismo e o igualitarismo; incapacidade dos pais para educarem os filhos; incompetência e inépcia na concepção e na gestão curriculares; alterações substanciais na composição e no profissionalismo do corpo docente (por efeito da massificação); e alteração radical da filosofia educativa vigente, a chamada inclusão, que coloca a escolaridade obrigatória perante um dilema insanável: querer todos na escola e ao mesmo tempo abdicar dos instrumentos que lhe poderiam facultar alguma capacidade para disciplinar a rapaziada.
Só se pode comparar o que é comparável. Por minha parte, não comparei a escolaridade obrigatória de 4 anos com a escolaridade obrigatória de 9 anos; pelo contrário, distingui-a claramente; mas não chego ao ponto de pretender comparar a escolaridade de frequência facultativa com a escolaridade de frequência obrigatória, que é o que você faz, partindo de confusões e de falácias. A escola de adolescentes de hoje é de frequência obrigatória e não de frequência facultativa, como era antigamente; logo, o público adolescente da escola alterou-se por força da obrigatoriedade da frequência, porque doutro modo uma parte não a frequentaria. Esta parte do público, pelas suas características pessoais e sociais, trouxe para escola maior diversidade de problemas disciplinares; e as transformações nos valores sociais dominantes agravou essa maior diversidade dos problemas.
Embora escolaridade obrigatória possa não ser sinónimo de escolaridade básica, isto é, possa ser extensível a outros níveis de escolaridade (pretensão dos governos para manter os jovens ocupados e afastados do mercado do emprego até idades maiores), entre nós, até agora, ela restringe-se à escolaridade básica, ao considerado trivial em cada época. Com a extensão do período da escolaridade obrigatória, é natural que as matérias a aprender se estendam um pouco, a uma parte do que dantes era objecto dos primeiros segmentos da escolaridade de nível secundário. Ainda que fora da física, da química e da matemática, elas não sejam assim tão mais extensas ou tão mais profundas das ensinadas anteriormente em períodos de escolaridade obrigatória mais curtos (e que por isso tinham de ser memorizadas), é certo que o currículo contém matérias supérfluas e excesso de disciplinas. Mas são-no, nalguma medida, e isso, juntamente com as transformações dos valores sociais, só agrava, para a parte dos alunos que passaram a frequentá-la, as características enfastiantes, de aborrecimento e de revolta, e os problemas disciplinares, que a frequência obrigatória da escola provoca. Se a escola não desempenhasse a função de única instituição disponível para o convívio diário entre pares e para guardar filhos, as taxas de frequência seriam bem menores, apesar de obrigatória.
Pelas características básicas, elementares, das matérias ensinadas na escolaridade obrigatória, esta nunca constituiu um instrumento de mobilidade social ascendente. Constitui apenas um meio de dotar a generalidade da população das competências elementares tidas por necessárias, e, para a parte interessada, uma etapa incontornável para aceder aos níveis seguintes, os únicos que podem desempenhar essa função. Como a mobilidade social já não está tão ligada à ideologia da meritocracia, até o carácter de elo intermédio necessário da escolaridade obrigatória tem vindo a ser desvalorizado, o que agrava o desinteresse e os problemas daí resultantes.
Toda a sua argumentação, para além de misturar algumas palermices sem sentido, se resume a escamotear a distinção fundamental entre escola e escola obrigatória. Não admira, porque os igualitaristas e hedonistas parecem ter horror ao qualificativo de obrigatório, palavra que tentam afastar do seu léxico. Para eles, a escola resume-se à escola pública, escondendo que uma parte da escola pública é de frequência obrigatória, compulsiva, para uma parte dos adolescentes que doutro modo não a frequentaria. Para a maioria dos seus frequentadores, a instituição escola nunca se caracterizou pela agradabilidade, pelo prazer e pela facilidade; antes pelo contrário, ela sempre foi uma instituição coerciva. A extensão da coercividade ao universo dos adolescentes e, ao mesmo tempo, a retirada à instituição de alguns dos instrumentos sancionatórios da indisciplina, que poderiam, de algum modo atenuá-la ou dissuadi-la, constitui o dilema da escola obrigatória actual. O resto é conversa fiada. No seu caso, para além de patranhas ideológicas, é ainda incompetência e alguma limitação intelectual, que nem lhe permitem enxergar as palermices que debita. Ora, quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?
JC.
Não disse nada, até agora. Não sou professora, os meus filhos já estão grandes, e os meus netos ainda andam no Jardim-Escola.
Mas vi o vídeo e fiquei estupefacta!
Talvez não devesse ter ficado, a avaliar pelo que vejo à minha volta. Pais que aceitam as maiores mal criações dos filhos. Filhos que insultam Pais, que se desculpam dizendo “agora é assim”.
Ora, se é assim, tem de deixar de ser!
A disciplina é indispensável na vida. E a disciplina incute-se desde pequeno, pelo que a primeira responsabilidade é sem dúvida dos pais. Ou de quem os educa. Ser educado também é um direito da criança.
Vi, por curiosidade alguns episódios daquela série dos “Morangos com açúcar – geração rebelde”. Tudo o que ali se passa é errado. E os miúdos tomam aqueles actores como ídolos.
Rebeldes, todas as gerações o foram. Mas aquela forma de rebeldia, além do mais, é estúpida.
Talvez, não sei, a obrigatoriedade escolar tenha ido longe demais. Aos 16 anos, já se é responsável: pode-se se julgado, pode-se ir preso, pode-se trabalhar.
Quem não quer estudar, nem deixa os outros estudar: ala – vá trabalhar.
Mas talvez não precisemos de ir tão longe.
Não podemos falar de adolescentes sem pensar no que deveria ser a instrução primária. A ânsia de apresentar estatísticas favoráveis de literacia fez avançar uma enorme quantidade de alunos ileterados.
Só deviam passar ao nível seguinte, os alunos que estivessem para isso minimamente preparados, porque só assim poderiam seguir e aproveitar aquilo que lhes estivesse a ser ensinado. Repetir um ano, pode ser a salvação de um aluno.
De nível em nível, e de ignorantes em ignorantes, chegamos aos adolescentes de que se fala. A quem não foi incutido nem saber nem disciplina. Alunos que sabem que nunca serão chamados a prestar contas dos seus próprios actos.
Não é possível ensinar matemática do 9º ano a adolescentes que não sabem fazer as 4 operações! Nem interessá-los pela matéria para a qual não foram minimamente preparados. Estou convencida que muita da rebaldaria que se passa nas escolas vem do desinteresse dos alunos.
Mantê-los à força na escola quando eles manifestamente não estão em condições de avançar, é incentivar este tipo de coisas.
Talvez – e digo talvez – a rebeldia dos adolescentes do que diz respeito à escola resulte do facto de não lhes ter sido dado aquilo a que eles tinham direito: bases.
Nunca poderemos compreender os problemas dos adolescentes sem compreender o que foi feito de errado às crianças.
Pronto: se acharem este comentário idiota, não vale a pena responderem.
«No caso da escola, sendo o ensino básico obrigatório…»
É essa distinção que eu faço em relação ao passado e ao presente. É que agora é obrigatório para adolescentes. Nisso, estamos a dizer o mesmo.
Com comentários cheios de insultos acho extraordinário que se queixe de eu descer muito baixo ao dizer que há “má-fé” na sua argumentação. Má-fé porque deliberadamente finge que não percebe o que eu escrevi.
Acho extraordinário que pense que com o alargar da escolaridade obrigatória ela mantém os seus objectivos iniciais, quando apenas era aplicada aos 4 primeiros anos.
Tenho todo o interesse em debater. O seu estilo é que me tira o interesse todo.
DO.
A escolaridade obrigatória de 4 anos era a escolaridade básica, na época designada por primária; a escolaridade obrigatória de 9 anos continua sendo a escolaridade básica. Se ambas são do mesmo nível, só podem desempenhar a mesma função: obrigar a generalidade da população a frequentá-la e dotá-la das competências elementares julgadas necessárias em cada época.
As competências elementares, básicas, julgadas necessárias em cada época vão mudando, conforme vai mudando a complexidade da vida em sociedade. Pudera que assim não fosse… Não é por mudarem os conteúdos das competências que se achem necessárias que passa a tornar distinta a função da escolaridade básica. Embora o leque de conteúdos seja mais extenso, por força do maior período de escolarização, o seu nível continua a estar adaptado às capacidades médias do nível etário da população e a ser considerado elementar.
Pelas suas características, a escolaridade básica nunca desempenhou qualquer função de mobilidade social ascendente. O seu carácter obrigatório, por seu lado, procura dotar todos das competências elementares julgadas necessárias. A distinção social nunca foi produzida pela escolaridade básica obrigatória; foi produzida pela não escolarização, pela transgressão dos que não a cumpriam, que assim se privavam das competências elementares que ela proporcionava; e foi produzida pela frequência de outros níveis de escolaridade, não obrigatórios, facultativos e de frequência motivada.
A escola frequentada por adolescentes sempre teve os problemas provocados pelos adolescentes. Não tem nada a ver com a democracia política, porque esses problemas existem em sociedades democráticas e não democráticas; tem a ver com a coercividade própria da instituição e com a rebeldia própria da adolescência. Dê-lhe como exemplo de indisciplina o meu caso pessoal de adolescente rebelde, similar a tantos outros milhões de casos, enquanto frequentador da escola não obrigatória numa sociedade ditatorial.
Para alguns adolescentes, a escola é uma violência, simbólica, física e psicológica, com a qual lidam mal e da qual procuram escapar-se; a escola obrigatória, então, é uma violência ainda maior, porque ela é por si só uma imposição arbitrária. Nesta situação, à rebeldia própria da idade junta-se a consciência do arbítrio da imposição, gerando todo um leque de estratégias e de comportamentos compensatórios.
O que atenua o carácter coercivo da escola obrigatória é que ela ainda permanece como a única instituição onde os pares se podem socializar e conviver com maior frequência e durante mais tempo, perante o desaparecimento progressivo da rua como local de socialização, de colectividades, de clubes e do trabalho infantil nas oficinas tradicionais onde se fazia a aprendizagem dos ofícios, e porque nela se foi instalando uma maior permissividade e o abaixamento do nível da exigência dos comportamentos e das aprendizagens, pela impotência de lidar adequadamente com as contradições e os conflitos.
Juntando a tudo isto a dimensão excessiva da população da maioria das escolas (que já se vai atenuando, por força da contenção da natalidade e da expansão da rede), o excessivo tempo passado na escola (que os políticos e os paizinhos, por razões diferentes, ainda pretendem alargar), a maior diversidade de instrumentos lúdicos disponíveis na sociedade, a mudança nos valores sociais dominantes, a melhoria da situação económica, a maior diversidade do público escolar, a redução da capacidade dos pais para educarem os filhos e dos professores para lidarem com esta malta, a escola obrigatória tem vindo a transformar-se num local perigoso para todos os seus frequentadores. Não apenas para os professores, mas para todos.
Se você não compreendeu ainda estas questões elementares e o risco que a escola obrigatória corre de se transformar numa instituição lúdica de guarda de meninos e de meninas, é caso para dizer: Arre, que você é mesmo duro da pinha!
Não fale da autoridade dos professores, da democracia, da escola etc sem especificar que se trata dos professores portugueses, da autoridade dos professores das escolas de Portugal e da democracia portuguesa. Isto é, não fale como se tratassem de fenómenos inelutáveis e próprios de todos os sistemas escolares das democracias. Os problemas de que fala são da actualidade portugesa, assim como é apenas uma questão portuguesa o lugar (último ou penúltimo) que os nosso alunos ocupam entre os dos países da OCDE.
JC
24 Mar 2008 às 14:40
Embora ache que nunca se deve chamar burro a uma pessoa, sabe-se lá se os burros, os verdadeiros, ouvem e se sentem abespinhados, a sua intervenção é definitiva.
Está lá tudo explicado.
Resta que aprofunde a diferença entre escola privada e pública e porque é que ela existe.
Afinal uma e outra são bem caras.
Uma aos próprios a outra a mim e outros.
Ze Lib, a violência nas escolas está muitíssimo longe de se um fenóme exclusivamente ou especialmente português.
JC. tem um fetiche pelka designação burocrática. O que ensina hoje no 7º, 8º e 9º ano não é, no que é essencial, diferente do que se ensinava antes.
A violência nas escolas não é um fenómeno exclusivamente português, com certeza, mas tudo o resto é: não se trata de problemas da democracia ou da obrigatoriedade da escola, mas de tais assuntos em Portugal (por exemplo, não pude deixar de reparar que o tom autoritário com que a adolescente exigiu o telemóvel à sua professora é de uma má criação muito nossa desde logo por o humor estar dela completamente ausente - os sorrisos ouvidos não nascem tanto do insólito da situação quanto da antecipada humilhação da professora. São coisas próprias da choldra muito canalha e muito nossa, como já notava Eça que convém não fingir serem universais.
Constato com agrado que a temperatura do Arrastão desceu um pouco. Demasiado calor leva–nos a mergulhar nas águas da discussão emotiva, belicosa, mas pouco producente.
Retomemos pois a conversa.
Sobre a escola, a autoridade e descalabro educativo português proponho a seguinte reflexão:
Já repararam que os alunos filhos dos imigrantes vindos de Leste e da China são muitas vezes os melhores alunos nas nossas escolas. Não sendo génios nos seus países, apenas alunos medianos, cá são modelos exemplares de comportamento e boas notas. Tendo em conta a barreira da língua e outras dificuldades, deveria constituir tal constatação motivo de asssombro. Porém, suponho que ninguém se admira.
E porque razão será que eles conseguem facilmente superar os alunos portugueses?
Porque foram educados, tão só.
Foram educados em sistemas de ensino onde existem regras, direitos e deveres: o aluno tem o direito a receber uma boa instrução ministrada por professores competentes e o dever de estudar e de se comportar na aula; por outro lado, o professor tem o dever ensinar, de estimular o aluno, de lhe abrir horizontes, e o direito de ser respeitado .
É muito simples: as regras são estas e quem não as cumpre é punido! A isto chama-se respeito tanto pelos professores quanto pelos alunos. O resto é uma fraude, a negação de uma existência realizada a um jovem ser humano,a via rápida para a pobreza, marginalidade ou crime.
Naturalmente, os pais destes alunos vindos de outros sistema de ensino ficam estupefactos com a bandalheira da nossa escola
_ vi na RTP uma senhora ucraniana, com um sorriso condescente, entre a pena e a chacota, afirmar que a escola portuguesa era uma brincadeira… .
Não deveria isto constituir motivo de vergonha para qualquer cidadão?
Não se trata de ser de direita ou de esquerda, republicano ou monárquico. Trata-se de ver com objectividade a triste realidade:
a escola portuguesa recebe classificações internacionais medíocres; há alunos que entram nas faculdades sem saberem escrever ou construir frases (e até já vi teses académicas ilegíveis); todos os dias há violência física ou psicológica sobre professores, funcionários e alunos (bullyng).
Pode este grande desastre continuar assim?
A divulgação do vídeo da agressão à professora (no limite é disso que se trata) é um marco simbólico da total perda de autoridade do professor em Portugal, algo que se vem desenhando há longo tempo na Escola Pública em Portugal: não há forma de neste momento, vivendo o dia a dia das escolas, reagir sem paixão ao seu comentário sobre o que deveria ser a atitude da professora. O Daniel não é professor e nem o quer ser. Aliás ninguém em seu juízo perfeito o quererá. Exige-se hoje de um professor demasiadas coisas, que seja um super-homem ou mulher com nervos de aço para além do resto. No contexto actual é regra geral haver nas turmas da Escola Pública uma ou várias ‘peças’ como a menina do vídeo, com desvios de comportamento a roçar a sociopatia. O facto da professora não ter reportado este comportamento é sintomático da falta de confiança dos professores nos regulamentos e no sistema existentes para resolver estes e outros problemas. Ficam sujeitos, muitas vezes por parte de colegas que vivem situações de indisciplina semelhantes, a comentários como o seu. E preferem encher as consultas de psiquiatria. Com a implementação dos CEF’s (que tanto ajudam a estatítica do Governo) o Ensino Secundário deixou de estar de fora deste problema que , repito, vem de longe e, sinceramente, não creio que seja uma fatalidade. Antes é o corolário da incompetência e falta de coragem política para o enfrentar que têm caracterizado as políticas educativas em Portugal. Percorremos um caminho que outros (O Reino Unido, a Holanda…) já percorreram, um passo em frente para o abismo. Subscrevo pois, inteiramente, o que Mário Crespo escreve no artigo do JN. http://www.scribd.com/doc/2348511/24-3-mario-crespo
«A divulgação do vídeo da agressão à professora (no limite é disso que se trata) é um marco simbólico da total perda de autoridade»
Devo recordar que as primeiras imagens deste género divulgadas foram divulgadas por professores para uma reportagem da RTP. E muita gente aplaudiu.
Daniel
Se era para discutir o assunto (autoridade) de uma forma séria e sem qualquer tipo de preconceito a imagem que lhe serve de fundo foi muito mal escolhida, porque nos reporta imediatamente para um tempo e um tipo de autoridade que já não está em discussão.
O que aqui está em discussão, penso eu, é saber o que fazer numa Escola Pública onde por força de um mito denominado “escola inclusa” se está a excluir quase todos, engordando, a cada dia que passa, as escolas privadas e dessa forma promovendo a verdadeira selecção de classe.
Existem hoje nas escolas públicas, alguns, poucos, alunos que impedem de uma forma sistemática o trabalho de colegas e professores. É como se estivessemos a representar para uma uma plateia hostil, em que a esmagadora maioria do público está interessada na peça mas duas ou três pessoas fala alto, ri a despropósito chama sistemáticamente a atenção do actor. A peça não corre bem, os actores estão à beira de um ataque de nervos, o público não se concentra, saí cansado e com vontade de não voltar mais.
Cá fora os três espectadores juntavam-se ao seu grupo e ainda insultavam e batiam nos espectadores que se mostraram descontentes com as suas intervenções. E agora imagine que é o actor e que todos os dias tem que conviver com estes espectadores.
Que fazemos?
Peças a seu gosto? E os outros? Criamos peças só para eles numa outra sala? será que mesmo assim, e agora todos juntos, não vão continuar a insultar e a bater nos espectadores que têm gostos diferentes dos seus?
Eu preferia que quando ainda estavam todos juntos lhes fosse dito, muito claramente, que quem fosse assistir ao espectáculo não podia perturbar e que se o fizessem tinham que abandonar o Teatro até ter percebido que essas regras eram para cumprir. E que se era uma questão de conteúdo da peça, nesse caso deveria escolher outro Teatro. Veriam que eles acabariam rapidamente, uns atrás dos outros, por acatar as regras. Lá no fundo todos gostam do Teatro e da peça aprendem a gostar.
A solução instantânea e gratuita para a indisciplina escolar é montes de estalada nos focinhos das pestinhas… agora se não querem, continuem a discutir o sexo dos anjos…os países emergentes, esses sabem impor disciplina e vamos ficar a vê-los cada vez mais longe. O país está entregue a bananas que não sabem exercer autoridade e que impedem quem o sabe de o fazer… é o suicídio colectivo.
Aplaudo a Laranjalima e o Pedro:
dois comentários certeiros, inteligentes e que suscitam reflexão.
O Euroliberal também acerta na constatação de que este ensino prejudica e atrasa o país_ já a cura à chapada…
Trabalho cívico ou comunitário para estes arruaceiros resolveria muitos problemas e, hellas, educaria.
Ainda não consigo preceber a diferença entre o rapaz que filmou o acontecimento e os muitos “rapazes” que o mostraram na net!
África e o Oriente (Japão)
Neste debate sobre a autoridade proponho uma abordagem multicultural, analisando os exemplos dos africanos e dos japoneses em relação à autoridade. Para tal, recorrerei à minha vivência pessoal (esperando que tal não seja confundido com arrogância ou presunção).
Estando a fazer uma tese de doutoramento sobre o artista plástico José de Guimarães, tenho feito investigação sobre a cultura africana (José de Guimarães esteve na guerra colonial e lá descobriu a arte simbólica dos povos de Cabinda). Ao contrário do que alguns possam pensar, nas tribos africanas existe um sistema de regras bem definido destinado a assegurar o bem comum e a figura do ancião_ tido como um símbolo de conhecimento e sabedoria_ é profundamente respeitada. O ancião possui a memória da tribo, representa a experiência necessária para se sobreviver, sendo um autêntico sacrilégio desrespeitá-lo. O conhecimento que acumulou, levou alguém a dizer que quando um velho morre em África é como se ardesse uma biblioteca. Ou seja, é um Grande Professor e é uma honra ser seu aluno. Faltar ao respeito a um ancião pode ser pago com a expulsão da tribo.
Porém, no ocidente, inventor da democracia e dos direitos humanos, o ancião é um velho inútil para o mercado e uma presa fácil para adolescentes malcriados.
Da prática de há mais de 20 anos de Karaté Shotokay aprendi (ou reforcei) duas lições fundamentais: a disciplina e a ideia de jamais desistir, seja lá do que for. Saber com séculos de existência, as artes marciais podem fornecer ao praticante ensinamentos fundamentais para o seu sucesso na vida_ e no fundo é isso que se pretende. À criança que entre para uma boa escola de Karaté são ensinadas regras muito simples: durante o treino há que respeitar o mestre e os colegas, não é tolerada a violência, e a indisciplina é castigada, por exemplo permanecendo sentado sobre os calcanhares (com os joelhos no solo) durante alguns minutos em silêncio. Obviamente, o visado pode recusar-se e ir embora, porém já não será mais admitido. Nunca vi nenhum miúdo a recusar o castigo, e a maioria das crianças praticantes (orientadas por um mestre e não por arruaceiros) são geralmente alunos responsáveis e com bom aproveitamento escolar. Ver, num estágio com mais de cem crianças e adolescentes, todos em silêncio no momento da saudação ao mestre (é uma tradição japonesa), profundamente concentrados, a esforçarem-se e a absorver o conhecimento, é uma experiência única. E nenhum está lá por obrigação_ fazem-no com entusiasmo e alegria; e são capazes, depois de interiorizarem as regras, de demonstrar surpreendente maturidade. Quase todos, quando se tornam adultos, exprimem um sentimento de gratidão aos mestres que os formaram. Acredito sinceramente que assim se presta um serviço à comunidade.
Seria possível conseguir tal comportamento numa escola portuguesa? Receio que não… (mesmo aplicando todas as técnicas de pedagogia e psicologia).
Num tempo de globalização e multiculturalismo, onde alguns pretendem que tudo é tolerável (sobrando sempre para as mulheres as consequências da ‘’tolerância’’), porque não «importar» de África o profundo respeito pelos mais velhos e do Oriente o sentido de disciplina, responsabilidade e luta pelos objectivos? Afinal, se gostamos de dar lições aos outros povos, também não faria mal tentar aprender algo com eles.
Estudei numa escola pública e por isso a defendo, tentando demostrar que se alguém quisesse acabar de vez com ela não poderia escolher melhor método do que aquele que tem sido seguido.
Reforçando o comentário de João Cerqueira vi, há dias, um documentário, ainda em fase de montagem, sobre o trabalho que uma ONG está a desenvolver em Angola na área da Educação. A certa altura a coordenadora do Projecto foi visitar uma comunidade com o objectivo de resolver o problema de uma escola(?!) que tinha sido vandalizada e estava sem vidros, sem cadeado com as madeiras que suportavam as placas de zinco (?!) quebradas, etc. Reuniram-se os pais, os sobas os professores a coordenadora e o representante do governo para a educação. Queriam saber como e quando é que a comunidade ia resolver o problema, dado que era responsável pelos estragos ? Como ninguém apresentava soluções e tentavam passar a responsabilidade de uns para os outros. O representante do governo foi categórico: têm até ao final do mês para repararem a escola. Se não o fizerem retirámos os professores e pômo-los ao serviço de outra comunidade. Remédio santo. lmediatamente se dividiram tarefas, custos, tempos etc. Acabaram-se as discussões e passou-se à acção. É assim com os adultos, tem que ser assim com os meninos…regras simples, claras e consequentes, essenciais à vida em comunidade. O que é que isto tem de extraordinário? O que tanto se discute ? Isto não é “autoridade” no sentido mais negro do termo. Isto é respeito pelos outros…aquela coisa básica de que “a minha liberdade acaba onde começa a dos outros”.
Gostava de poder corrigir o comentário anterior…escrita miserável!!! Fica a desculpa do adiantado da hora.
“Porém, no ocidente, inventor da democracia e dos direitos humanos, o ancião é um velho inútil para o mercado e uma presa fácil para adolescentes malcriados.”
João Cerqueira,
Tem toda a razão, o seu comentário é muito pertinente.
Violência_ Contradição versus Coerência
Em Portugal a palavra autoridade suscita reacções extremas, tanto à direita quanto à esquerda. As pessoas de direita idolatram-na, as de esquerda têm-lhe horror. O meio-termo, o ponto de equilíbrio ou bom-senso, parece não existir.
A recente agressão à professora (se calhar, entretanto já houve outras) coloca esta questão e, concomitantemente, a da tolerância da violência.
Vou dar um exemplo: o cidadão A agride o cidadão B
Imaginem que A é um polícia e que B é um manifestante pacífico. Naturalmente a Direita tenderá a justificar as cacetadas dadas no manifestante, podendo até alguns chegarem ao ponto de afirmar coisas do tipo: «quem se mete nelas…», «se ficasse em casa nada disto lhe acontecia…», acabando por transferir a culpa para a vítima.
A Esquerda, condenará sem reservas a atitude do polícia.
Mas agora imaginemos que A é um desfavorecido, vindo de um bairro social, e B é um professor. Os papéis invertem-se. Vai a esquerda tentar encontrar razões para justificar o comportamento do agressor, por exemplo apontando a sua falta de pedagogia ou vocação (foi assim que Daniel Oliveira iniciou esta discussão, condenando todavia a agressora) , enquanto a Direita exigirá a cabeça da aluna.
Sendo este exemplo uma caricatura, atrevo-me a pensar que não andará muito longe da realidade.
Ou seja, quando se olha a realidade e os comportamentos humanos através das lentes foscas da ideologia podemos facilmente distorcer os factos e entrar em total contradição.
No passado, grandes escritores só descobriram o horror dos sistemas políticos e religiosos que defendiam quando os sentiram na pele. A Guerra Civil de Espanha deu boas lições a muita gente: o trotskysta Orwell torna-se anticomunista, Koestler descobre que os seus camaradas podem cometer as mesmas barbaridades que os nacionalistas e o Beranos, católico fascista, descobre perplexo que a própria igreja colabora nos fuzilamentos de republicanos em Palma de Maiorca. Só os que não viram o sangue continuaram irredutíveis.
Por cá, suponho que só uma experiência de alguns dias numa escola problemática (algo que cada vez mais se confunde com a normalidade), poderia despertar para realidade aqueles que ainda não se deram conta da gravidade do problema.
Ps: enquanto não entro na guerra da guerra do Iraque, deixo uma sugestão: porque razão ninguém denomina a tragédia com a única designação possível_ Crime contra a humanidade_ ?