Escreve-se no “Mudar de Vida”, um interessante projecto informativo de esquerda: «Em Portugal, desde Daniel Oliveira a Marcelo Rebelo de Sousa, o namoro com Obama é público e assumido. As suas palavras de “mudança” e “esperança” são agradáveis aos ouvidos. Mas quando nos dispomos a procurar as políticas mais substantivas e concretas, o discurso revela-se oco e a intenção preocupante.»
O exercício que vem depois é trivial: escolhem-se todas as posições em que se discorda de Obama para mostrar que entre Obama e o que temos a diferença não existe. Escolhe-se o Afeganistão para se esquecer o Iraque. Escolhe-se o voto de Obama quanto ao financiamento da guerra para esquecer a sua permanente oposição à guerra, quando entre democratas e republicanos se ouviam os urros de combate. Descobre-se que o Obama é contra um serviço de saúde universal esquecendo-se o ponto em que está o debate nos EUA e o salto político que esta campanha já significou nessa matéria. A conclusão quase inevitável do pequeno artigo está no título: «Barack Obama: Continuidade política debaixo de uma retórica de “mudança”». Ou seja, entre Obama e Bush a diferença é quase nula. No fundamental, vai tudo dar ao mesmo.
De facto, se não contar com as circunstâncias encontro sempre uma razão para não estar em lado algum. Nos EUA, em Portugal ou em qualquer ponto do planeta. Não defendo o voto útil. Mas sei que é inútil ficar de fora quando não há mais lado nenhum para ir. E nos EUA não há. Quando houve, quando Ralph Nader conseguiu a força política que depois desbaratou, foi por ele que estive. Até dei dinheiro ao gajo! Só que o desespero e frustração são hoje muito maiores e Nader não chega para tanto. Esse voto está a ir para Obama mesmo que Obama queira outra coisa. Claro que se alguém espera que os americanos votem num candidato que queira reduzir o poder dos EUA no Mundo está olhar para o povo e para o país errado. Isso caberá a outros povos, a outros eleitores de outros países.
As escolhas, por serem escolhas, são sempre um mal menor nas circunstâncias em que se fazem. Não se apoia o mal menor quando ele significa um recuo ou uma desistência. Quando isso significa baixar a fasquia quando ela pode ficar onde está ou até subir um pouco. É por isso que não acho que Sócrates seja uma alternativa ao que tivemos com Durão Barroso. De facto, por mais que nos esforcemos, será difícil encontrar alguma diferença programática. Mas pode dizer-se o mesmo em relação a Obama quando comparado com Bush? Querer que Obama vença é baixar a fasquia da exigência? É baixar a fasquia em relação a Bush filho? Em relação a Bill Clinton? Em relação a Bush pai? Em relação a Carter? Em relação a Reagan? Dizer que Obama é a continuidade do que temos é fazer uma grave confissão: tudo o que se disse sobre George W. Bush não era mais do que propaganda. Ele afinal não era pior do que os outros.
O jovem blogger Matthew Yglesias faz este exercício irónico, comparando a candidatura de Obama à de McCain (paralelos com Bush só mesmo o “Mudar de Vida” se atreve): «Afinal de contas não há um milésimo de diferença entre um candidato que promete cortes de impostos, passar os riscos de saúde para os indivíduos, uma revigoração da campanha bushista para dominar o Mundo através da força militar, uma abordagem pró-indústria aos temas ambientais e, do outro lado, um rival que promete uma socialização substancial dos riscos de saúde, uma diminuição em 80% nas emissões de dióxido de carbono e o fim da Guerra do Iraque (e do quadro de pensamento que levou a essa guerra!), ensino pré-escolar universal, etc. Claro, há também aquelas nomeações judiais – aborto, direitos gay, etc – e algumas miudezas sobre se a Agência Nacional de Segurança pode ou não ter poderes de espionagem irrestritos. Mas basicamente não passam dos mesmos dois clones das grandes empresas concorrendo com programas virtualmente idênticos.»
Ver o copo meio vazio ou meio cheio são duas opções possíveis e nenhuma delas condenável. No “Mudar de Vida” dão algumas boas razões para ser cuidadoso em relação a Obama. Não ignoro nenhuma delas. Mas ao não reconhecer nenhuma mudança no debate, nenhuma evolução no confronto político nos EUA e nenhuma diferença substancial nos programas (com omissões escandalosas), não se está apenas a ver o copo meio vazio: está-se a jurar, como se tornou hábito em alguma esquerda, que o copo nunca vai encher. Nem uma gota. Até um dia longínquo que ninguém consegue imaginar, está sempre tudo na mesma e na mesma tudo ficará.
E o que mais me perturba é o tratamento que é dado à “esperança”: nada mais do que uma palavra agradável aos ouvidos. Nesta campanha “esperança” não é apenas uma palavra. Ela pode ser fundada ou infundada, mas é absolutamente real. Palpável, mesmo. Entre muitos americanos esta esperança é a maior que sentiram nas suas vidas políticas. E é de uma enorme cegueira passar sobre este facto com tanta ligeireza. É verdade que as coisas não mudam só porque as pessoas acreditam que vão mudar. Mas se as pessoas nunca acreditarem elas nunca mudarão. O primeiro passo para que exijam mudanças é terem esperança. Mesmo que os protagonistas lhes prometam mais do que vão dar. Neste ponto, há pouca diferença entre os deprimidos crónicos da esquerda e um Vasco Pulido Valente: ambos acham que está sempre tudo na mesma e nada de novo está realmente a acontecer.
Se de cada vez que uma coisa muda a única coisa que tivermos para dizer às pessoas é que tudo acabará inevitavelmente na mesma e que só quando tudo for como queremos é que alguma coisa de relevante está a acontecer não estaremos a dar razões de luta às pessoas. Estaremos a dar-lhes razões de desistência. E este é o pecado da esquerda: esqueceu-se do enorme poder político da esperança. Porquê? Porque ela própria a perdeu. O outro pecado é mais grave e incomoda-me mais: há alguma esquerda que não acredita no poder transformador do voto. Mas esse é outro debate. Limito-me, quanto a isto, a ser cauteloso: nunca lhes dou o meu. Temo que não mo devolvam ou que o tratem como se não fosse importante.
13 comentários 26 Fev 08 em EUA, Esquerda13 respostas ao post “Não, não podemos”
- 1 Pingback on 27 Fev 2008 às 1:11
- 2 Pingback on 24 Mai 2008 às 0:18




Comparações com Bush filho até acho que o candidato republicano não as quere.Quanto á comparação entre os dois candidatos democratas para mim ainda não me informei o suficiente para fazer uma escolha.Quanto á força da esperança concordo em absoluto consigo,faz me lembrar aquele poema canção “eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida…”
[Responder]
Eu li o artigo no «Mudar de Vida» e achei-o exagerado, no sentido em que punha o Obama como simplesmente o “Senhor que se segue” e nada mais… Não me parece que seja algo assim, e pegar só nos aspectos negativos parece-me algo tendencioso demais.
Mas!… E há sempre um ‘mas’, o Obama também não me parece um messias, alguém que vá fazer toda a diferença do mundo. Chamá-lo portador da esperança é também um exagero!
Se chegar às eleições e se confrontar com o McCain, espero que ganhe – é o mais à ‘esquerda’ que se pode encontrar num país onde não há ‘esquerda’.
Mas acho que o senhor McCain vai ter ‘guerra’ é com uma tal de Clinton…
[Responder]
Daniel Oliveira:
Até concedo que o Daniel tenha razão e que o “Mudar de Vida” não tenha.
Mas permita-me que estranhe tanto empolgamento seu, à volta das “primárias” americanas, quando por cá se vive um momento de grande crise social. E não estou a basear-me no documento da Sedes.
[Responder]
Manuel Leão: isso de cá e lá não existe. Eu falo muito da política nacional, como sabe. Mas não sei como falar de política sem falar do Mundo. A começar pelo país mais poderoso entre todos.
[Responder]
O artigo do Mudar de Vida parece-me uma análise muito mais certeira das presidenciais americanas do que o entusiasmo do DO, e outros intelectuais de esquerda, com o senhor Obama.
Não está em causa preferir-se o Obama à Clinton, ou qualquer um deles ao McCain, naturalmente que como súbditos dos states todos nós somos tentados a votar no homem que manda na CIA e na NATO e no FMI, o que está em causa, digo, é aderirmos entusiasticamente à obamamania, como se ela transportasse alguma ideia transformadora dos EUA e/ou do mundo.
E nesse aspecto, claramente, Obama é apenas mais um bom rapaz, bem intencionado que, a ser eleito, rapidamente perceberá o que é o poder do complexo industrial e militar americano.
Gostaria de estar profundamente enganado, mas creio que o futuro próximo demonstrará que não valeu a pena queimar tantos foguetes.
[Responder]
JD, o problema é que acho que não gostaria nada de estar enganado. Eu acho que está. Não digo que tudo será diferente. Acontece que, como dizia ou outro, uma pequena diferença de quem está à frente dos destinos dos EUA são muitas vidas de diferença. E isso não é pormenor. Não pode ser.
[Responder]
Daniel, acredite que é verdade, prefiro um presidente nos EUA que melhore as condições de vida dos trabalhadores americanos e não seja um continuador da guerra infinita, tal como prefiro um primeiro ministro em Portugal que não destrua o SNS e não promova a precarização generalizada.
A questão é que não sou entusiasta pelo Obama, tal como nunca fui / serei entusiasta pelo Guterres, Ferro ou qualquer outro social-democrata.
A última vez que me iludi foi com o Lula, veja lá que quase cantei a internacional durante a tomada de posse… E o Lula melhorou a vida de milhões de brasileiros, não foi?
[Responder]
Daniel Oliveira:
O “blog” é seu, fará dele o que entender.
E os USA são o país mais poderoso doMundo, é verdade. Mas veja o espaço ocupado pelas “primárias”, comparado com o dedicado aos “nossos” problemas.
É só uma opinião de um frequentador do “blog”, que vale o que vale.
Mas para mim ainda existe cá e lá, apesar de tudo.
E sabe porquê?
Porque muito embora eu gostasse da vitória de Obama, nas eleições, sinto que a política para a maior parte das questões que nos afectam, não iria mudar muito.
[Responder]
Fala quem viu os ultimos tres debates televisivos entre o Obama e a Hillary, a proposta de sistema de saude de Obama nao podia ser mais recuada. A bem do consenso entre Washington e as seguradoras o Obama oferece um fundo publico para apoiar a populacao pobre a comprar seguros. E e’ voluntario! Como e’ bem sabido estes regimes voluntarios acabam por ser usados so’ pela classe media que sabe mexer-se nos meandros burocraticos. Entretanto como nao vao subir impostos e’ tb a classe media que paga. (Eu ate’ sugeria, para ajudar, construir desde ja’ um pipeline a ligar os cofres dos Estado aos das seguradoras.)
Ja gostei de ouvir o Obama, mas depois de 4 meses a ouvir o mesmo discurso ate prevejo que o tipo possa nao ser elegivel, faltam ainda 8 (4+4) longuissimos meses ate ‘as eleicoes. E’ preciso mais que um par de truques retoricos para convencer a malta (repetir “change” em cada frase). Ajudava ter as politicas do Edwards.
[Responder]
Amilcar,
Acredite que nos EUA a “classe media” (menos de US$ 120000/ano por familia) paga muito pouco imposto de rendimento. Ninguem se livra de pagar “social security” e “medicare” – sistema nacional de saude (sim, ja existe um para quem tem mais de 65 anos e para os mais pobres).
Quem paga mais imposto de rendimento sao mesmo os mais ricos (mais de 150000/ano). E’ claro que quem tem casa propria paga “property tax”, que e’ bem pesado (para uma casa “normal” de US$500000, pode chegar a pagar 7,8 ou 9 mil por ano, dependendo da zona).
Mas concordo consigo que os Democratas sao quem costuma aumentar os impostos sobre a classe media e os mais pobres. O ultimo exemplo e’ o governador Corzine do estado de New Jersey.
[Responder]
Parece-me, no mínimo, exagerada a comparação entre Obama e W.Bush, mas para mim é compreensível este desânimo em relação a qualquer tipo de candidato à presidência americana, seja ele democrata ou republicano. O facto de Obama estar a lutar contra preconceitos e grupos de pressão dentro do seu próprio partido é encorajador mas não é inédito na história do Partido Democrata. Por outro lado, concordo com o ‘Mudar de Vida’, em relação ao lado bélico de Obama. É bem menos acentuado do que nos clãs Clinton e Bush, mas existe. Obama foi senador, não pode sacudir a àgua do capote em relação a todos os atentados cometidos pelos EUA nos últimos anos. Mesmo que a sua interferência tenha sido indirecta.
Ainda assim, não podendo ganhar Nader, quero que ganhe Obama. E confio que as coisas vão mudar. No entanto, ainda ninguém me conseguiu entusiasmar.
[Responder]