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Vários bloggers e comentadores aqui do Arrastão se têm espantado pela minha simpatia por Obama. Esperavam que eu “apoiasse” John Edwards ou Dennis Kucinich, ambos com um discurso mais à esquerda. Acontece que não sou americano. Não voto nem apoio candidatos. Os americanos terão de ponderar questões internas e externas. Sou europeu e apesar de saber que as políticas internas norte-americanas terão reflexos na nossa vida, quando mais não seja por influência política, é a política externa de cada candidato e as condições para a aplicar que mais me interessam.

Claro que o candidato de que me sinto mais próximo é Kucinich. Mas uma das razões porque recuso um sistema eleitoral não proporcional em Portugal é esta mesmo: a de se tornar inútil apoiar um candidato que não vence. Só que essa é a realidade da política nos EUA. E por isso talvez as alternativas fora do mainstream, por lá, passem menos pela política institucional do que cá e ainda menos pela política federal.

Claro que o discurso actual de John Edwards me é mais simpático. Mas a verdade é que não ignoro que Edwards procura um nicho de radicalidade que não corresponde ao seu percurso político. É por isso que os discursos dos candidatos em tempo de campanha, numa corrida tão longa e tão profissionalizada e num país com realidades políticas e culturais tão diferentes das nossas, devem ser relativizados.

Quanto a Hillary Clinton, não me esqueço (quem se pode esquecer?) do seu empenhamento na reforma do sistema de saúde e como acabou a ser financeiramente apoiada por todos aqueles que a tornaram impossível. De como apoiou a guerra no Iraque quando era difícil ser contra ela e de como, no momento em que as coisas mudaram, passou a defender a retirada imediata (uma posição de quem se está nas tintas para o que aconteça por lá) e responsabilizou os iraquianos pelo caos, por, descaramento dos descaramentos, não se saberem governar a si próprios. A senadora Clinton é de um oportunismo político assustador.

Neste momento, o discurso de Obama, em plena campanha, apesar das suas enormes qualidades retóricas e da sua empatia difícil de igualar, é quase vazio. Era previsível que assim fosse. Mas a minha simpatia por ele parte de duas razões muito práticas:
1. É o candidato que, pelas suas características e pelo capital de esperança que transporta, mais possibilidades tem de fazer alterações substanciais na política externa americana. Com a Casa Branca a sofrer de um gravíssimo défice de credibilidade, o que Obama tem vale ouro: as pessoas acreditam nele. É quase impossível não acreditar. É dos poucos candidatos que poderá inverter o clima de paranóia, medo e desconfiança que Bush instalou no país.
2. Por não estar ligado ao establishment de Washington, por não ter responsabilidades no passado, por ter tido a posição que teve sobre a guerra e até por ser descendente de muçulmanos e mestiço, é o candidato que, enquanto Presidente, mais facilidade poderá construir pontes com os sectores mais moderados do Islão (que são, ao contrário da ideia instalada, maioritários), com os povos europeus e com a América Latina, dando passos para ultrapassar a espiral de ódio que os neo-conservadores alimentaram.

Não sou optimista. Enquanto não houver uma mudança radical no nosso modo de vida, que diminua a nossa dependência petrolífera, todas as regiões ricas em petróleo viverão em permanente sobressalto. Também não sou optimista em relação a alterações no lugar que os EUA ocupam no Mundo. Que o mais forte tente impor a sua vontade é da natureza humana. São por isso humildes as minhas expectativas: alguém que deite água na fervura, antes que seja tarde demais. E para o conseguir, terá de ser alguém a quem os povos deste Mundo dominado por uma única potência dêem o beneficio da dúvida. Não vejo entre os candidatos (independentemente da sua radicalidade ou moderação) pessoa com melhores condições para conseguir esta tarefa quase impossível do que Barak Obama. E mesmo com ele é improvável.

Compreendo que a mesma direita que aplaudiu Bush, que esteve na primeira linha da defesa da guerra do Iraque, que quer mão de ferro com o Irão ou que defende a privatização do sistema de saúde esteja pronta para apoiar Obama, mesmo que isso seja de uma incoerência absoluta. Clinton representa o antes de Bush. Apoia-la seria a admissão mais evidente do erro. Um passo atrás. Mas com a provável (não segura) vitória de um democrata, se a direita europeia e portuguesa estiver conta Obama e Obama vencer ela fica órfã. Porque ser pró-americana é uma das suas principais fontes de legitimação ideológica. Seja qual for o presidente, vá para onde for, faça o que fizer… Mesmo na direita americana não falta quem queira fazer as pazes com país e com o Mundo. Obama parece ser o único com essa capacidade.

A esquerda tem o mesmo problema: receio de apoiar um candidato que ganhe e depois não se poder opor a ele.

Por mim, sei que George W. Bush não nasceu do nada. O que são hoje os EUA e o que é o seu Império não mudará com Obama. Nem me parece que ele o queira fazer. Não é esse o seu papel. Mas se o problema não é apenas Bush, Bush foi um problema sobre o problema. Se Obama vencer pode não mudar muito do essencial. Mas talvez o Mundo não viva mais oito anos no fio da navalha. Não é pouco.


Sem respostas ao post “Antidepressivo”  

  1. 1 1  Agry White

    Está bem construida a teia que há-de captar mais apoiantes para a causa imperialista!
    A sério, gostei deste seu texto. Não quero ser desmancha prazeres. É uma análise serena e agridoce.
    Não embarcou em clichés e desarmou os preconceituosos. Não será uma perspectiva abençoada pelos deuses mas representa, seguramente, a opinião de quem se reconhece o direito de, quando em vez, saltar sem paraquedas

  2. 2 2  Fado Alexandrino

    Neste momento, o discurso de Obama, em plena campanha, apesar das suas enormes qualidades retóricas e da sua empatia difícil de igualar, é quase vazio.
    Daniel Oliveira

    Apresentou um discurso de vitória que é memorável porque contém todos os elementos que um político sério deve ter, genuíno, profundamente humilde, muito claro nas suas palavras, credível no que promete e por isso capaz de suscitar o entusiasmo nas pessoas.
    Carla Hilário Quevedo

    Desconto o entusiasmo que as senhoras sentem por indivíduos como Obama, não posso deixar de ficar perplexo como é que o mesmo homem é visto de duas maneiras tão diferentes por vultos da, adivinhem, adivinhem, claro da esquerda.

    A minha posição é muito clara.
    Se Daniel Oliveira o acha bom é claro que é mau.
    Como as eleições americanas não me interessam absolutamente nada, quem quer que seja eleito, pensará sempre na América, depois na América e por fim na América, todos servem.
    No caso em revista a única coisa que tenho achado imensa piada é que ele já foi não-branco, afro-americano, descendente de africanos, individuo de cor, muçulmano etc. e tal, mas nunca lhe chamaram preto ou negro.
    É como o cancro.
    Ninguém morre de cancro.
    É sempre de doença prolongada, mal que não perdoa, após prologando sofrimento.
    O medo das palavras, explicado hoje por José Saraiva no Sol.

  3. 3 3  Carlos Serra

    Ora, ora, ora! Veja lá que, ainda que por razões eventualmente diferentes, lá encontro eu alguém que está tb obamado, como eu. Aqui pelas tropicais terras beijadas pelo Índico, atribuíram-me o vírus da excentricidade pelo meu gosto obamado. Coisa bela, afinal, coisa de novidade. E assim se coze o destino por estas amplas nets. Abraço, cheguei aqui graças ao Agry.

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