O castanheiro que Anne Frank via da sua janela corria o risco de ser abatido. Está doente. Um tribunal de Amesterdão decidiu que isso não devia acontecer. Porque o presente precisa de memória e a memória precisa de símbolos. Por cá, pelo contrário, a memória não vale um chavo e o esquecimento parece ser condição necessária para nos vermos ao espelho. A sede da polícia política é transformada em condomínio privado e é quem o tenta impedir que vai a julgamento. A Câmara Municipal de Lisboa anda há meses a ponderar se ergue ou não ergue um memorial ao massacre de milhares de judeus, em 1506. Por cá, acreditamos que fomos e somos tolerantes, um colonizador simpático, gente pouco dada à violência, enfim, um povo de brandos costumes. Sem o costume de erguer estátuas às nossas tragédias, apagamos as más memórias. Claro que não nos achamos grande coisa. Porque só quem sabe que foi capaz do pior acredita que pode o melhor.