SE UMA couve nasce no deserto, já se sabe, é o efeito-dominó provocado pela intervenção no Iraque. Sem armas de destruição maciça, sem apoio popular à invasão, com uma curta mas já gloriosa história de torturas, há quem viva para encontrar uma razão, delirante que seja, para o desastre que foi esta guerra.
O «Economist» deu o mote e os adidos aqui na província seguiram a linha. Se uma mulher pediu um divórcio no Irão, é o dominó. Se no Líbano o povo pede a retirada da Síria, é o dominó. Se a Palestina elegeu Mahmoud Abbas, é o dominó. No Iraque, já ninguém sabe quem há-de matar ou libertar, mas o que os salva é o dominó.
Só que a intervenção no Iraque não ajudou em nada a laicização de um Estado, que sendo sanguinário, era laico. Pelo contrário, deu, ali e em toda a vizinhança, força às forças mais conservadoras do Islão. Só que, no Líbano, os confrontos entre etnias são história antiga e bastou ver as manifestações xiitas pró-sírias para perceber que o súbito interesse americano na matéria pode bem ter acordado o espectro da guerra civil. Só que, na Palestina, o Parlamento já fora eleito. O que não impediu que muitos se recusassem a reconhecer, então, a legitimidade da liderança de Arafat.
Que o mundo árabe tenha sido sempre assunto pouco interessante para quem acredita que não há civilização onde não se consegue comprar a «Spectator», é coisa que não espanta. Mas por aquelas paragens a história não começou, subitamente, há dois anos, quando guerreiros de sofá deixaram cair uma lágrima furtiva ao ver um 25 de Abril nas ruas desertas de Bagdade.
Por Daniel Oliveira 12 Mar 05 em Expresso

