SOBRE o referendo em França, a generalidade dos comentadores optou pelo «prêt à porter» argumentativo: ganhou o chauvinismo francês e a sua extrema-direita. Esqueçamos o pormenor de a maioria dos votantes no «não» serem de esquerda, eleitores socialistas e «verdes» incluídos. Fiquemo-nos pelas razões apontadas pelos votantes de cada um dos lados, tomando como rigoroso o estudo feito à boca de urna pela TF1 e o «Le Monde». Do «não»: primeiro, o desemprego, depois, a situação política em França, a seguir, a necessidade de renegociar o tratado e a opinião de que este seria demasiado liberal. A suposta perda de identidade francesa e a entrada da Turquia para a União, os grandes argumentos de Le Pen, são escolhidos por uma pequena minoria, aparecendo em sexto e sétimo lugares. Do «sim»: o reforço da Europa contra os grandes blocos, como os EUA e a China, só depois a continuação da construção europeia e, logo em terceiro lugar, o fortalecimento da França na Europa. De que lado está o egoísmo e o nacionalismo?

As razões do «não» francês são justas. Podiam não ser, mas são. Esta Constituição pretende cristalizar, sem recuo possível, as políticas económicas de quem hoje detém o poder político na maioria dos países europeus, que são responsáveis por uma crise social à escala europeia. Foi por isso que foi chumbada.

Bem podem os eurocratas sonâmbulos assobiar para o lado. Bem pode o homem que, sendo demasiado inepto para governar um pequeno país foi chamado a governar a Europa, afirmar que sendo o voto no «não» contraditório, este não exige qualquer renegociação. Tomemos isto apenas como uma manifestação de saudosismo pelas suas convicções passadas. A França votou «não» e não só quer dizer não. Bem pode a vanguarda dos povos europeus atirar o problema para o alto. Ele vai cair-lhes em cima. E aí, sim, os argumentos de Le Pen começarão a contar. Por enquanto, este foi o «não» da Europa democrática. Aprendam a respeitá-lo. Ainda estão a tempo.