Quando o debate político está pelas ruas da amargura e a mediocridade dos dois principais líderes partidários é pouco menos do que deprimente, a SIC resolveu tentar uma abordagem diferente: mostrar o lado pessoal de Sócrates e Menezes. A coisa não foi mais animadora. Sócrates tem a naturalidade de um boneco insuflável e os seus momentos mais profundos, perdidos na introspecção do nevoeiro, têm os traços de um adolescente gótico-depressivo. Menezes é um gajo porreiro, que para fazer boa figura põe a mãe, o pai, os filhos, o gato e o canário a falar das qualidade da sua liderança. Pensamos como seriam estas conversas com Soares, Cunhal ou Sá Carneiro e ficamos desanimados. Nos seus estilos diferentes, seriam retratos de homens com história, exactamente o que falta a estes dois.
Quando a política perde todo o interesse, quando as pessoas deixam de acreditar que ela pode melhorar as suas vidas, quando a direita se desfaz, quando uma esquerda se transveste e a outra decide ficar fora de jogo, sobra isto: encenações em família para mostrar o lado humano do poder. Só que não resulta. Não é regra, mas raramente os burocratas da política são pessoas interessantes. Escusam de procurar mais. Nós já sabemos que ficámos com o refugo.
Por Daniel Oliveira 27 Mar 08 em Expresso

