É o mesmo governo que abre portas a futuras privatizações e desinveste nos serviços públicos que tenta alargar os seus tentáculos ao sector privado. Nada contraditório, até porque o objectivo não é reforçar qualquer poder do Estado. Na realidade, ao mesmo tempo que os partidos do centrão esvaziam o Estado de funções, privatizam as suas próprias ambições. De centro de emprego no aparelho de Estado passam a centro de emprego nas empresas.

A leitura mais frequente do que se passa no BCP, com um clube de gestores que ciranda entre o público e o privado a preparar-se para a ocupação do conselho de administração do banco, é a de que o PS está a tentar dominar a banca nacional. Supõe-se que é a política que move estes homens. Na realidade, acontece no BCP o que tem acontecido em tantas outras empresas. Entrou nas regras do mercado nacional, onde o Governo é apenas uma instância onde se decidem negócios privados. No Estado, homens de boa vontade fazem favores, concessionam, oferecem empreitadas e garantem vantagens. Quando saem dessas funções vão para as empresas receber o prémio e tratar de pedir favores, concessões, empreitadas e vantagens aos que lhes sucederem nos lugares públicos.

O condicionamento industrial, com o qual Salazar forjou os nossos capitalistas, já não está em vigor. Mas o espírito é o mesmo. Nem o Estado serve para garantir bem-estar comum nem se permite alguma autonomia ao mercado. Claro que os nossos liberais de serviço, que vivem num país fantasiado, estão chocados. Percebe-se porquê. É duro este banho de realidade: os accionistas das nossas principais empresas querem viver dos favores do Estado. Afinal de contas, num país que recusa o investimento na qualidade (a começar pela qualificação da sua mão-de-obra) essa é a vantagem competitiva que sobra.