Claro que me incomoda que um cão seja agarrado ‘pelo pelo’ em vez de o ser ‘pelo pêlo’. Que o ‘para já’ possa ser uma ordem para que se fique quieto ou o começo de uma explicação. Mas espanta-me o tom catastrofista de algumas críticas ao Acordo Ortográfico. A ver se nos entendemos: cada um continuará a escrever como quiser. Ninguém vai ser obrigado a refazer as suas bibliotecas, os jornais continuarão a decidir dos seus próprios livros de estilo, não haverá uma ASAE para a prosa de cada um. É uma norma sem sanção. A escola e os documentos oficiais serão os únicos afetados. Com alguma vantagem, reconheço, para o português no mercado das línguas. E para Portugal, que nesse mercado ficaria para trás perante o poder internacional do Brasil. Corríamos o risco de assistir de fora a uma unificação de facto ou de fato. Dos 3% de palavras que sofrem modificações, os brasileiros cederam em 1% e os portugueses em 2%. O negócio, não sendo ótimo, podia ser pior.

No entanto, e sendo o problema mais burocrático do que prático, não percebo por que se optou pela obrigatoriedade da maioria destas alterações. Parecia-me mais inteligente e respeitador da diversidade da língua que em todos os casos se aplicasse a regra da dupla grafia. Assim, viveríamos ao abrigo da mesma lei, deixando que a adaptação acontecesse naturalmente. Nas escolas mantinha-se a grafia nacional. Os documentos internacionais e o ensino do português no estrangeiro optavam, como já terão de fazer com muitas palavras.

O excesso unificador não me agrada. Mas o pânico purista não me parece a melhor resposta. Até porque, como puderam perceber, decidi aqui aplicar o acordo ortográfico antes de ele entrar em vigor. Não é ilegal. Serei livre de não o fazer depois de ele ser ratificado.