O que perturba não é uma ou outra casa camarária de Lisboa ser dada ao sabor dos humores de um vereador. Seria apenas um escândalo. O que mais indigna é serem três mil e esta prática ter sido corrente em todos os executivos camarários. Há anos que se defende uma bolsa de arrendamento jovem para travar a desertificação do centro da cidade e que parte do realojamento de quem realmente precisa de casa deve ser feito na cidade consolidada. Havia três mil casas que podiam ter sido usadas para isto e serviram para comprar cumplicidades, apoios e simpatias.

A cunha e o nepotismo são especialmente perigosos quando, para quem os pratica e para quem deles beneficia, não tem esse nome. Quando estes actos são vistos com tanta naturalidade que ganham a legitimidade do hábito. E é neste ambiente que o poder se alimenta do favorzinho pedido com jeitinho, de chapéuzinho na mão, ao senhor presidente. Que haja tanta gente que beneficiou desta cultura enraizada a achar que as benesses que recebeu são um assunto pessoal é apenas a prova de que somos, na nossa consciência democrática, um país subdesenvolvido. Precisavam de casa? Milhares de pessoas que não conhecem ninguém na Câmara, também. Se o Estado é de todos tem de tratar todos por igual. Porque quando trocamos direitos por favores deixamos de ser livres. Passamos a depender da arbitrariedade de quem nos governa.