Durante anos acreditámos que quase tudo o que éramos resultava das nossas experiências na infância. As provas científicas eram excelentes para as ideologias dominantes do momento. Se somos apenas fruto do meio em que vivemos não somos livres. Se mudarmos a sociedade mudamos o homem, já que nele nada é dele. Agora está na moda a genética: tudo se determina no nosso código genético. Não há escolha. Não há liberdade.
Não teríamos seguramente de esperar muito até que se desse o passo previsível. Foi um cientista que arriscou. Falando de negros, o senhor James D. Watson, Nobel da Medicina de 1962 e fundador da genética moderna, afirmou ao ‘Sunday Times’: “Todas as nossas políticas sociais estão baseadas no facto de que a sua inteligência é igual à nossa, mas todas as provas mostram que não é realmente assim”. E apela à nossa experiência: “quem teve de lidar com empregados negros sabe que isso não é verdade”. Claro que já vários cientistas desacreditaram esta alarvidade e explicaram que o senhor Watson tem andado pouco atento ao que se tem descoberto na genética.
Mas a verdade é que sempre que tentarmos explicar a condição humana com base em teorias científicas finais e unificadoras destruiremos o mais humano de todos os valores: o da liberdade. E sem ela, meu caro Watson, a inteligência não quer dizer nada. É o livre arbítrio que nos torna indivíduos únicos e irrepetíveis. Não é o nosso código genético.
Por Daniel Oliveira 22 Out 07 em Expresso

