ANTES de sair de casa olhe bem para o tempo que faz lá fora. Vestir um casaco em pleno Verão pode bem custar-lhe a vida. E não julgue que passará despercebido. Vinte e quatro horas por dia, na rua, no metro, no autocarro, nas lojas, será filmado. Se de repente um grupo de homens o perseguir, não fuja. Será a sua última corrida. A ordem é simples: atirar para matar. Não se queixe: é em defesa da sua vida que apontam a mira à sua cabeça.
Depois da polícia matar um brasileiro no metro londrino, com sete tiros na nuca quando este se encontrava já imobilizado, porque tinha um kispo suspeito para o calor que então se sentia e porque, tendo caducado a sua autorização de permanência, fugia a uma perseguição de agentes à paisana, Tony Blair explicou-nos esta execução sumária: «se este tivesse sido um terrorista, e os agentes não tivessem agido, teriam sido criticados de outro modo». Nestes novos tempos, a nossa segurança vale a vida de um inocente, não se vá dar o caso de ele ser um terrorista. Mata-se, «just in case». E o chefe da Scotland Yard já deixou claro que a ordem para matar mantém-se. Nada disto é novidade para os ingleses. Na Irlanda do Norte, foi esta histeria que levou ao «Domingo Sangrento», episódio macabro que acabou por fortalecer o IRA.
Os terroristas conseguiram o que queriam. Entrámos em paranóia colectiva. Sim, os ingleses vivem um trauma. Assim como os americanos, quando acharam que seria boa ideia terraplenar o Iraque ou criar um campo de concentração em Guantánamo. Assim como os palestinianos, que se rebentam em Jerusalém. Ou os iraquianos, que matam em Bagdade. Para mantermos a sanidade e algum sentido ético, só podemos ser severos por igual e perceber que, de um lado e do outro, nunca faltará gente de gatilho fácil que não dá grande valor à vida. E que uns não vivem sem os outros.
Por Daniel Oliveira 30 Jul 07 em Expresso

