Chegaram numa barcaça. Eram 23 e estavam no mar, ao frio e sem comer, há quatro dias. Uma das imigrantes tinha 15anos. As televisões mostraram, como se tivesse acostado ao Algarve um carregamento de droga. A polícia algemou-os como se de criminosos se tratassem. No fim, com alívio, a governadora civil de Faro disse que tinha “corrido tudo muitíssimo bem” e que está “toda a situação ultrapassada”. Quatro dias no mar, sem comida e ao frio e com a certeza de que serão recambiados para o seu país. Correu tudo bem. Está tudo ultrapassado. Não está aqui em debate a política de imigração. Apenas gostava que, pelo menos durante uns segundos, os nossos responsáveis político fizessem um esforço e fingissem que a sorte destas pessoas os preocupa.
Um grupo de pessoas arriscou a vida à procura de um futuro melhor. Fizeram o que homem faz desde sempre e o que nós fazíamos há 40 anos. Deram o salto e a tentaram a sua sorte. Só que é curta a nossa memória. Agora somos do primeiro mundo e olhamos com indiferença para a miséria alheia. Ao ver as imagens e ao ouvir as palavras da governadora lembrei-me do velho ditado popular: ‘não sirvas a quem serviu, nem peças a quem pediu’.
Por Daniel Oliveira 26 Dez 07 em Expresso


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