Um rapaz meio-apatetado entra à socapa num clube privado. Dirige-se a um homem mais velho, abre os braços e diz: “Pai! Pai!” O homem franze o sobrolho e logo um empregado expulsa o intruso. O mesmo órfão de herança repete a cena com outros milionários: numa marina, numa correria atrás de um descapotável, num campo de golfe. O anúncio acaba: “Não tens pais ricos nem ganhaste a lotaria? Vem ao BES”. Foi feito antes do caso do empréstimo dado pelo BCP ao filho de Jardim Gonçalves. Mas parece de propósito.

Somos um país com uma elite pequena onde o mérito não vale um caracol. Conta a sorte: ter um pai rico ou ganhar a lotaria. Basta olhar para os nomes de gestores e de empresários para ver como os apelidos se repetem há décadas. Por mais inapto que seja um filho, um sobrinho de um amigo, um genro de uma prima, algum lugar se arranja para o rapaz. É por muitas razões que há pouca mobilidade social em Portugal. Uma delas: falta de exigência empresarial.

Uma elite económica onde se eternizam meia dúzia de famílias, que sacrifica a eficiência em nome do nepotismo, que faz pagar os seus gestores acima da média europeia e que concede empréstimos como quem paga mesadas é o retrato da sua própria mediocridade. É por isso normal que ela olhe de lado para os que, ocasionalmente, entram no clube sem serem sócios e sem querer chamar pai a outro. É verdade que muitos chegaram lá pela porta dos fundos. Mas há outra?