O fundo que o BCP tinha investido na Lehman Brothers chamava-se Millennium Prudente. Esta ironia é a melhor imagem dos tempos em que vivemos. Tudo é ilusão. E foi esta ilusão, a que se convenceu de que a economia global podia depender de um jogo de sorte e azar sem a intervenção reguladora dos Estados, que nos levou até aqui. Dependentes de gigantes financeiros que não podem falir sem deixar um rasto de destruição atrás de si, somos reféns da irresponsabilidade. No fim, cá estará o contribuinte para pagar o risco. Na AIG, na Fannie Mae, na Freddie Mac. Uma nacionalização na Bolívia, que nacionaliza os lucros da produção energética, é pecado. Uma nacionalização nos EUA, que nacionaliza os prejuízos de instituições financeiras, é inevitável. Nada que tire o sono aos nossos liberais intermitentes ou, mais grave, aos responsáveis por esta catástrofe. A crise não lhes chega a ombreira da porta. Em 2007, o CEO da Merrill Lynch recebeu 10,6 milhões de euros em bónus. O da Lehman Brothers ficou com 3 milhões. O da AIG, 2,7 milhões. O da Fannie Mae e o da Freddie Mac, um milhão e meio cada. Pelo seu excelente trabalho, claro.
Se as nossas economias estão de tal forma globalizadas que os gigantes financeiros não podem falir; se esses colossos jogam à roleta russa até ao limite da irresponsabilidade, inventando esquemas financeiros manhosos; se no fim quem paga a factura inevitável é o Estado, então o Estado tem de assumir as rédeas da economia para impor regras e transparência. As falências ou nacionalizações de gigantes, a crise dos alimentos por via da especulação, os preços absurdos dos combustíveis… Os sinais estão aí. O capitalismo selvagem pode bem ter, no final desta década, o seu muro de Berlim. Mas antes da derrocada, se não se importarem, seria útil responsabilizar quem, na política, nas empresas e nos jornais, nos meteu nesta alhada. Que pelo menos as culpas não sejam socializadas.
Por Daniel Oliveira 22 Set 08 em Expresso

