Desconfia-se sempre da televisão. Faz o velho parecer novo. Vizinhos tratarem das suas desavenças à estalada e até ao tiro não é novidade. Era assim que se fazia nas aldeias deste país. Focos de violência entre diferentes comunidades também não. É assim desde que existe humanidade. Que a intolerância é a forma mais imediata de nos relacionarmos com quem é diferente é ainda menos novo. E não está escrito em lado nenhum que as vítimas da discriminação são imunes a sentimentos racistas. As proporções do que se passou na Quinta da Fonte é que são maiores do que o habitual.
Podia acrescentar a tudo isto algumas considerações: que o estilo de vida dos ciganos foi destruído pelas novas realidades económicas e que eles ficaram sem lugar numa terra que é também sua e que há cinco séculos os trata com desconfiança; que as segundas e terceiras gerações de imigrantes (que se envolveram neste conflito) tendem a devolver em ressentimento o desrespeito com que a sociedade tratou os seus pais e os seus avós; que os bairros de realojamento erguidos nas periferias são uma bomba-relógio que acumula todos os problemas no mesmo lugar; que o que vimos na televisão é, em Portugal, a excepção e não a regra.
Mas não posso dizer nada disto. A ditadura do politicamente incorrecto que recentemente se abateu sobre o debate político tem uma lei sagrada: explicar é justificar. E como não se pode explicar, não se pode compreender. E como não se pode compreender, não se pode prevenir ou resolver. E assim nos orgulhamos da nossa ignorância e da boçalidade transformada em doutrina. O resultado do politicamente incorrecto está à vista na Itália de Berlusconi: a recolha de impressões digitais dos cidadãos ciganos, crianças incluídas – informação de que estão isentos os restantes italianos. A mesma Itália que enviou ciganos para Auschwitz esqueceu o seu passado. Porque também ela não quer ser refém do ‘politicamente correcto’. Apesar deste ter sido, durante sessenta anos, uma eficaz barragem aos nossos piores fantasmas.
Sem comentários 28 Jul 08 em Expresso


