A cultura política portuguesa é avessa à negociação. A imagem de um líder autoritário, decidido e auto-suficiente é mais popular. E esta é uma das razões do nosso bloqueio. Nenhuma reforma se faz porque, perante as adversidades, os governantes pensam que contar com a participação de quem a vai aplicar é sinal de cedência. Na verdade, qualquer técnico competente consegue arquitectar uma reforma. O que distingue o bom e o mau político é se a consegue levar até ao fim. E para o fazer tem de contar com os principais implicados na dita. Indo ao concreto: uma ministra da educação que consegue juntar todos os professores contra si é inútil. Das suas propostas não ficará nada a não ser mais ressentimento. Claro que não faltarão articulistas a elogiar-lhe a coragem e a desancar nas “corporações”. Mas não me parece que a reforma do nosso sistema educativo dependa de elogios fúnebres à ministra.

Hoje Lisboa vai assistir à maior manifestação de sempre dos professores. A reacção de Sócrates foi marcar, para o próximo fim-de-semana, um comício partidário de apoio ao Governo. Não se trata apenas de um disparate táctico, que cola todos os professores descontentes à oposição, desistindo de os convencer seja do que for. Esta opção pelo confronto é uma confissão de fraqueza. Sócrates está cercado, perdido num labirinto de reformas fracassadas. Resta-lhe a indefectível base militante do partido. E um primeiro-ministro que à indignação de professores responde com um pedido de comparência de militantes é um primeiro-ministro só e à deriva.