A Europa é uma excelente ideia, os europeus é que estragam tudo. Já fora assim em França e na Holanda, voltou a ser assim na Irlanda. Para contornar estes inconvenientes cidadãos já se tentou de tudo: fazer o mesmo tratado com outro nome, mandar repetir o voto, proibir os estados de consultar os eleitores ou recorrer à ameaça, dando a entender que é condição para estar na União não ter opinião. Só não se tentou o mais difícil: perceber os sinais e repensar o conteúdo e o método.
A União Europeia é um projecto absolutamente original na história. Ao adoptar uma moeda própria deu um salto sem precedentes. Mas ficou a meio. Falta-lhe unidade política e social e mais legitimidade democrática. E este é o passo difícil. Porque as identidades nacionais, os interesses contraditórios e os conflitos ideológicos não são uma invenção populista, como julga o impaciente Barroso. São tão reais como a longa e sangrenta história europeia. Por isso, só conheço duas formas de resolver o impasse: ser mais cauteloso, optando por um tratado menos ambicioso para garantir que as opiniões públicas de todos os estados o aceitam; ou ser mais arrojado, elegendo nas próximas eleições um Parlamento que decida, com legitimidade democrática, o caminho a seguir a partir daqui. Continuar a chantagear os europeus ou a procurar atalhos é que não vai resultar. Porque os europeus não estão dispostos a desistir de uma soberania democrática em troca de um poder supranacional que se recusa a ouvir a sua voz. Não é nacionalismo. É bom senso.
Publicado por Daniel Oliveira 7 de Julho de 2008 em Expresso





