Os escriturários da Entidade Reguladora da Comunicação não param. O seu presidente escreve lençóis de prosa no ‘Diário de Notícias’, usando um tom jocoso para falar da imprensa que supostamente deve regular. A sua activista mais mediática, Estrela Serrano, desdobra-se em artigos de opinião, debates e polémicas. Uma entidade reguladora, achava eu, dedicava-se a pareceres e deliberações. E com poderes tão alargados, seria de esperar algum formalismo no seu funcionamento e alguma sobriedade na exposição pública dos seus membros.

No meio do frenesim editorial, os burocratas lá arranjam tempo para pôr os seus cronómetros a funcionar. Fizeram as contas e pressionaram a RTP a reduzir o tempo de Marcelo Rebelo de Sousa para ficar milimetricamente igual ao que é atribuído a António Vitorino. Se aumentassem o de Vitorino seria melhor.

Ganharíamos em produtividade, caindo todo o país em sono profundo nos serões de segunda-feira. Ainda assim, não seria mau explicar à ERC que comentário político, mesmo não sendo neutro, não é tempo de antena. Que os comentadores não podem ser escolhidos em função do seu cartão partidário – e o pecado começou no convite a Vitorino para compensar a presença de Marcelo. Que o pluralismo da opinião não se mede com um relógio. E que teríamos todos a ganhar se os jornalistas da RTP pudessem, nos intervalos de deliberações e pressões externas, ter algum tempo para definir os seus critérios informativos. A ver se, com tanto serviço para o serviço público de televisão, ainda lhe sobra algum público e alguma televisão.