HÁ UMA semana, um tenente-coronel na reserva assentou praça nesta mesma página. Explicou-nos como a presença de homossexuais nos quartéis afectava a moral dos magalas. E exigiu: «deve ser vedado o acesso ao quadro permanente a indivíduos com esta tendência (os que têm os pés chatos também não são admitidos…) e obrigar os que cumprem o seu serviço nacional a não o evidenciar». Por isso, caros recrutas, cuidado com esses gestos.
Escrever e dizer estas alarvidades está na moda. É «politicamente incorrecto». Um sinal de irreverência. Mas um juiz contrariou a moda. Considerou inconstitucional o artigo 175.º do Código Penal. Não o aplicou. O artigo distingue o acto homossexual de um adulto com um adolescente entre os 14 e os 16 anos do acto heterossexual. O primeiro é sempre crime. O segundo não. O tribunal achou que esta lei criminaliza a homossexualidade em vez de se limitar a criminalizar o abuso sexual de um adolescente.
Miguel Sousa Tavares ficou indignado. Escreveu no «Público»: «O tribunal achará que para um rapaz de dez anos, por exemplo, é igual o trauma de ser abusado por uma mulher ou homem?». Esqueçamos a confusão que Sousa Tavares faz entre crianças e adolescentes. O que ficamos a saber é que, para ele, não é tão chocante ver um rapaz abusado por uma mulher como por um homem. Vale a pena perguntar: e se fosse uma rapariga de dez anos a ser abusada por uma mulher? Chocava-o mais ou menos do que uma rapariga abusada por um homem? Estou certo que, para Sousa Tavares, a resposta seria bem mais difícil. Definitivamente, não há pior preconceito do que aquele que se mascara de senso comum.
Miguel Sousa Tavares é obcecado com o tema. Há um ano explicou-nos a anormalidade da homossexualidade. Ilustrou a sua convicção com exemplos que retirou da sua atenta observação do reino animal. Com tantos porta-vozes, o Portugal profundo e «incorrecto» já merecia a sua data: o Dia do Orgulho Grunho. Com arraial e marcha. A bem da tradição.
Publicado por Daniel Oliveira 7 de Maio de 2005 em Expresso





