NÃO discutimos Deus, não discutimos a Pátria, não discutimos a Família. Eram estes os dogmas de Salazar. Com o mesmo tom bafiento e dogmático, um padre da Igreja de São João de Brito, no alto do seu púlpito, disse aos fiéis para não votarem em partidos que fossem contra a «moral da Igreja»: «divórcio nunca, aborto nunca, casamento de homens com homens nunca, casamento de mulheres com mulheres nunca, eutanásia nunca, poligamia nunca».
Desta homilia, uma novidade: a poligamia está em debate nestas eleições. Definitivamente, começo a ficar mais entusiasmado com a campanha. Quanto ao resto, já se sabe. Há uma parte da Igreja, felizmente cada vez mais minoritária, que ainda não se habituou à liberdade de pensamento dos seus fiéis. Desse sector ultraconservador pouco se ouve sobre o desemprego, a pobreza, a guerra, a injustiça. Só o castigo os move. Vivem obcecados pelo sexo. Até os compreendo. É humano.
Numa coisa concordo com quem tem defendido a posição deste sector mais radical da Igreja: são livres de dizer o que querem. Nos púlpitos, nas procissões, nas notas pastorais. É lá com eles e eu não tenho nem quero ter nada a ver com isso. O que me deixa realmente incomodado é que os jornalistas obriguem os candidatos a responder a este padre, como se ele tivesse qualquer relevância para o debate político. Entre ele e a IURD, só uma coisa os separa: as instalações onde reúne o seu rebanho são mais antigas e a música menos popular. De resto, para esta franja ultraminoritária da Igreja, resta pouco mais do que isto: lutar contra os afectos. Uma guerra perdida. Ninguém os ouve. Não falam para ninguém.
Publicado por Daniel Oliveira 12 de Fevereiro de 2005 em Expresso





