HÁ anos que os funerais das associações mutualistas eram inspeccionados pelas autoridades competentes. As funerárias, com um volume de negócios que ronda os 400 milhões de euros anuais, achavam indecente que andassem para aí uns «caramelos» a dar descanso às almas por tuta-e-meia, valendo-se de benefícios fiscais e da ausência de lucro. Esta semana, o Tribunal Constitucional deu razão às associações. Mas os cangalheiros não desarmam e vão apresentar uma queixa à Autoridade para a Concorrência.
As associações mutualistas, que têm 700 mil sócios e vivem das suas contribuições, cresceram no fim do séc. XIX como uma espécie de segurança social antes do Estado. Em muitos casos, eram já os primeiros passos para o sindicalismo. Noutros, apenas uma forma de os mais pobres se valerem uns aos outros. Para quem não podia sequer sonhar com uma vida decente, a dignidade na morte era a última esperança. Assim, o mutualismo, não se resumindo a isto, sempre foi um recurso muito procurado para o pagamento das despesas dos funerais. Esta tradição vinha, aliás, das irmandades do fim da Idade Média.
Hoje, estas associações são muito diferentes. Mas a ausência de lucro e a ideia de solidariedade entre iguais mantém-se. Por isso, os cangalheiros têm razão. São um corpo estranho no meio do seu negócio. Numa sociedade de mercado há regras. Quem não quer fazer dinheiro que não se meta no ramo. Se o lucro é o que faz rodar o mundo, quem não quer lucro trava o progresso e ofende o espírito da concorrência.
Neste mundo em que vivemos, a própria ideia de solidariedade é antiliberal. E não faltará muito para que nos digam que a segurança social faz concorrência desleal aos fundos de pensões, os hospitais públicos às clínicas, as escolas aos colégios, os confessores aos psicólogos, os amigos à televisão. A verdade deste tempo é esta: a vida, sem lucro, não faz qualquer sentido. Para dizer a verdade, nem a morte, se não nos der dinheiro a ganhar, serve para seja o que for.
Publicado por Daniel Oliveira 14 de Maio de 2005 em Expresso





