«A IGREJA deve ter direitos e fazer exigências sobre lei civil e não pode meramente retirar-se para a esfera privada», escreveu Ratzinger, em 1988. E não lhe faltam seguidores. Para os novos teocratas, a política e a fé são inseparáveis. As convicções religiosas não devem ser apenas opções individuais mas leis de Estado. E a cruzada contra o «relativismo moral» é só a versão «soft» da sua guerra santa.

Em Espanha, a hierarquia religiosa incita os funcionários públicos católicos a recusarem-se a casar homossexuais, impondo ao Estado a Lei de Deus. Em Timor, em defesa da obrigatoriedade das aulas de religião e moral, a Igreja exige a demissão de Alkatiri, líder de um partido que obteve, democraticamente, a esmagadora maioria dos votos. Dizem os bispos que «a remoção do primeiro-ministro pelo povo é constitucional». O povo, entenda-se, é representado por eles, bispos, não pelos deputados. O poder só não chegou a cair na rua porque se ficou pelo altar.

No meio de tantos episódios, é interessante ouvir o silêncio dos que fazem da justa defesa da laicização dos Estados islâmicos o alfa e o ómega do confronto civilizacional. A evangelização da política, no Ocidente, não os incomoda. Nos Estados Unidos, teoconservadores, como o líder dos republicanos no Senado, Bill Frist, vão conseguindo impor a sua mundividência, e eles não se apoquentam. É com as mesquitas que perdem o sono. E, contra fundamentalismo islâmico, até aceitam, se for preciso, uma ajudinha do fundamentalismo cristão.

Não nos enganemos. Não são nem laicos nem liberais. Quando se atiram ao «relativismo moral», não é em defesa dos valores ocidentais. É com os valores da Revolução Francesa que vivem mal. Quando se indignam com o fanatismo religioso, não é em defesa de um Estado laico que se movem. É contra o infiel. Que Deus nos salve do Ocidente que estão a inventar.