Quem fica meio século no poder acredita que a realidade lhe obedece. Fidel Castro abandonou a presidência do Conselho de Estado mas vai monitorizar a sua sucessão. Não apenas a transição da liderança, mas a transição política e económica. Fidel acredita que pode sobreviver a si próprio. Só que o contexto joga contra ele. Pode acontecer muita coisa em Cuba. O início de uma reforma económica com a manutenção do “stato quo” político, como aconteceu na China, aliviando a pressão económica em que a ilha vive mas mantendo a retórica socialista. Não será fácil, tendo em conta o elevado nível cultural e político dos cubanos. Outra: o desmoronamento, lento e controlado ou rápido e caótico, do regime. E lá estarão os cubanos exilados nos EUA, com capital financeiro e de ressentimento, prontos para a vingança.
Os cubanos têm muito a ganhar: um nível de vida condizente com a sua formação e preparação, liberdade e democracia. E têm muito a perder: condições sociais e culturais inimagináveis para a maioria dos seus vizinhos latino-americanos. Mas basta falar com jovens cubanos para perceber que, se depender deles, nada ficará como está.
Em Cuba espera-se a morte de Fidel com ansiedade. Só aí começará o futuro. Para pior ou para melhor, ninguém sabe. Quando começar, todas as previsões são arriscadas. Cuba não é um continente imperial, como a China, culturalmente distante de qualquer ideia de democracia. Cuba não é o bloco de Leste, na órbita de uma potência que a domine. Cuba sem Fidel é uma incógnita. A panela de pressão vai começar a assobiar.
Por Daniel Oliveira 26 Fev 08 em Expresso

