MARQUES Mendes deu um murro na mesa e afastou os indesejáveis da corrida autárquica. Perdeu a aposta. As sondagens dão a vitória a Isaltino, a Valentim e, mais à direita, ao inenarrável ditador do Marco, Avelino Ferreira Torres, agora candidato a Amarante. Para lá do Marão, o aplauso de colunistas e jornalistas à firmeza de Mendes vale muito pouco.

Num país que odeia os políticos (os portugueses têm, na União Europeia, os mais baixos índices de confiança na democracia), o sucesso de figuras tutelares como Cavaco, Eanes ou Salazar, ou de políticos buçais, como estes autarcas, é revelador de infantilidade cívica. Não alinho em teses identitárias, como se este atraso fosse constitutivo dessa efabulação a que chamamos povo português. Responsabilizar meio século de ditadura pode ser tentador, mas também não chega. A dependência nacional da conjuntura externa, que deixa à política doméstica um baixíssimo grau de autonomia, um Estado fraco perante as pressões de uma elite económica sem horizonte e a inexistência de uma classe média sólida e qualificada parecem-me explicações mais plausíveis para esta falta de exigência nacional.

Fica-se sempre com a estranha sensação de que, por aqui, os cidadãos não se importam de ser enganados, ver os seus impostos pilhados e a sua inteligência insultada, se em troca tiverem um pai protector e autoritário. Que prezam pouco o património do Estado e a dignidade da democracia, porque não vêem nenhum deles como coisa sua. Seja como for, enquanto avelinos, jardins, valentins e isaltinos andarem por aí, saberemos o que falta para chegarmos ao mundo civilizado.