Acaba hoje o Doclisboa. Cerca de 30 mil bilhetes vendidos. Sobretudo para os filmes políticos. O Doclisboa foi apenas uma pequena sombra da impressionante produção de documentários actual. Não é difícil perceber porquê. De tanto nos querer entreter, o cinema “mainstream” de ficção aborrece. Infelizmente, a realidade parece ter-se tornado mais variada e surpreendente. Mas não é só o cinema. É o jornalismo. A fuga de leitores e espectadores da imprensa e da televisão para blogues e documentários resulta do mesmo cansaço: de tanto querer entreter, o jornalismo já só se consegue repetir.
Para se perceber o estado da arte vale a pena olhar para os Estados Unidos. E para o exemplo da Brave New Films, uma produtora dirigida por um ex-barão de Hollywood que se dedica a “documentários instantâneos” sobre a actualidade política. Num artigo publicado este mês na edição portuguesa do ‘Le Monde Diplomatique’ descreve-se o segredo: fazer muito barato e usar a Internet para promover e distribuir os filmes.
Em todo o mundo milhares de pessoas com uma câmara na mão e milhões de “bloggers” nos seus computadores mostram-nos uma realidade muitíssimo mais variada, profunda e contraditória do que encontramos nas salas de cinema e em frente à televisão. Seja para falar de política ou de qualquer outra coisa. Uns são excelentes outros são péssimos. Mas é nesta ‘rede’ que podemos hoje encontrar a mais impressionante resposta à ética do entretenimento. É cíclico: quando a anestesia parece geral há sempre uma reacção.
Por Daniel Oliveira 29 Out 07 em Expresso

