O bastonário da Ordem dos advogados disse o óbvio: que a corrupção na política ameaça o Estado de direito. Depois, na abertura do ano judicial, saiu do óbvio e foi para o evidente: “muitas pessoas que actuam em nome do Estado e cuja principal função seria acautelar os interesses públicos acabam mais tarde por trabalhar para as empresas ou grupos que beneficiaram com esses negócios”. Aí estão Pina Moura e Ferreira do Amaral para ilustrar a declaração. Ditas estas ‘lapalissadas’, os leques nervosos das donzelas agitaram-se no salão. Os cavalheiros, ultrajados, pediram explicações.
Querem provas e não generalidades. Estou recordado do livro de Rui Mateus. Não eram generalidades. Quem o leu? E do livro do vereador portuense Paulo Morais. Não eram generalidades. Quem o leu? E de quando o vereador lisboeta José Sá Fernandes reuniu provas claras de corrupção, apontou os nomes e levou tudo à justiça. Lembram-se como foi torrado em praça pública? E das acusações de Ana Gomes em relação aos submarinos comprados por Portugal. Lembram-se de algum sinal de solidariedade dentro do seu próprio partido? Perante este padrão, quem se arrisca a meter a cabeça no cepo?
Quando a acusação não tem nomes nem provas é populismo. Quando tem provas e nomes passa a ser uma inaceitável judicialização da política. Num país onde a justiça demora anos, propostas sérias de lei anticorrupção no Estado são suficientes para um deputado do PS receber guia de marcha para bem longe e os grupos de pressão fazem dos jornalistas o que querem, nem o óbvio pode ser dito em público. O coro é afinado: por que não te calas, Marinho Pinto?
Por Daniel Oliveira 5 Fev 08 em Expresso


Sem respostas ao post “Por que não te calas?”