Norman Mailer amava e odiava a América. Como se ama e odeia uma mulher num casamento, dizia ele. Nada de bom, tendo em conta que se divorciou de quatro e esfaqueou uma. Compreensivelmente, as feministas não o apreciavam e o sentimento era mútuo. Decidia o que tinha de decidir ao murro e envolvia-se sem pruridos em movimentos políticos. Bush era o seu último saco de pancada. Nunca se sentou na poltrona da respeitabilidade. Não precisava.
Mailer ainda é mais facilmente recordado como jornalista, colunista e pugilista amador do que como romancista. Perpetuo a injustiça. Estamos hoje bem servidos de polemistas que se apresentam politicamente incorrectos. Na maior parte dos casos, são jovens aristocratas sem berço mas com pretensão que repetem num estilo cínico e afectado as mais reverentes certezas. Nunca poderiam ser seguidores de Mailer. Nele, a incorrecção não era mera figura de estilo. Por isso, nunca esteve do lado do poder. E é essa a diferença entre um provocador e um petulante.
Por Daniel Oliveira 19 Nov 07 em Expresso

