Isabel Pires de Lima não tinha, tirando entre os seus secretários de Estado e alguns familiares e amigos, ninguém para a defender. Arranjava problemas numa pasta irrelevante para Sócrates. Foi borda fora. O primeiro-ministro escolheu um negociador experimentado para colar os cacos. Fosse outro o Pinto Ribeiro – o programador da Culturgest -, e o sinal seria mais claro: mudar de rumo com um orçamento decente. Já Correia de Campos não era impopular por causa das asneiras que fazia, mas por causa das asneiras que o primeiro-ministro o mandava fazer. A saúde é o calcanhar de Aquiles deste Governo, com manifestações pelo país fora, autarcas em fúria, revolta nas bases socialistas e reprimendas de Cavaco. O rosto da política foi borda fora. Com a escolha de Ana Jorge, Sócrates espera ganhar tempo enquanto a ministra merece o benefício da dúvida, acalmar os militantes do PS e, escolhendo uma alegrista, atar de pés e mãos o seu opositor interno.
Sócrates não reconheceu um falhanço. Reconheceu um erro de “casting”, que entrava pelos olhos dentro, e fez uma jogada de política interna e um recuo táctico. Na cultura talvez as coisas melhorem um pouco. Na saúde, como bem explicou a nova ministra, que rapidamente esqueceu as duras críticas que fez no passado recente, é para seguir o mesmo caminho. Mas o ritmo será mais lento. Com eleições a aproximarem-se, a nova ministra deve reduzir a pressão. Sócrates teve mais olhos que barriga. Mas sendo um obstinado, lá voltará. Em 2009.
Sem comentários 5 Fev 08 em Expresso


