NUMA bibliografia usada para dar formação a professores, a Associação para o Planeamento Familiar referia um programa adoptado pelo Governo das Canárias e que nunca foi implantado em Portugal. Nele, era pedido às crianças que colorissem as partes do corpo em que gostam de tocar. Na mesma bibliografia, outro livro, da autoria de Júlio Machado Vaz, Susana Cardoso e Duarte Vilar, explica que se deve dizer às crianças que a masturbação é coisa para se fazer na intimidade. Não é uma lição de masturbação, que seria desnecessária. Há coisas que todos sabemos sem aprender.

As associações contra a educação sexual têm-se encarregado de espalhar a ideia de que psicólogos e pedagogos andam para aí a fazer exercícios de masturbação com os meninos. De meras referências bibliográficas para o escândalo nacional foi um passo.

Dizem estes senhores que se tem de dar à criança «o enquadramento afectivo». A educação sexual tem um conteúdo. A masturbação, o prazer, o corpo, são parte dele. Com ou sem «enquadramento afectivo». Uma coisa é explicar a uma criança o que está a sentir no seu corpo, na idade que tem. Outra, bem diferente, é explicar-lhe o que estará certo ou errado na sua sexualidade adulta. Para isso, como pai, dispenso bem a escola e ainda mais os esquadrões dos bons costumes.

Eles queriam que a escola se dedicasse a lições de anatomia reprodutiva e moral sexual. Uma é, na infância, inútil. A outra é, na escola pública, abusiva. Os miúdos estão ainda e só a descobrir o seu corpo. Querem lá saber do «enquadramento afectivo». Só que se dependesse destes senhores, as crianças teriam como respostas às suas perguntas mais embaraçosas um silêncio reprovador. E a educação sexual na escola teria um único objectivo: educar para a culpa.