Escrevo sem saber quem ganhou as directas do PSD. Mas é completamente indiferente. Mais apagado ou mais populista o próximo líder do PSD não será primeiro-ministro. Porque a direita portuguesa está só no princípio de uma longa crise. Não é só a crise do costume: muito tempo na oposição com falta de lugares para distribuir e consequente debandada de notáveis. É uma crise de identidade. A mesma que vive há anos o Partido Conservador inglês. Só que os “tories” têm séculos de história e uma base ideológica sólida. O PSD é um partido recente, ideologicamente híbrido e geneticamente dependente do aparelho de Estado. A chegada de José Sócrates ao poder pode ter sido má para a base social da esquerda, mas foi péssima para a cúpula partidária da direita.
Sócrates, ao contrário de Guterres, não é a esquerda envergonhada. É a vanguarda ideológica da direita. Privatiza serviços públicos, reduz as prestações sociais na saúde e na segurança social, matando o incipiente Estado- -Providência português, e dá os primeiros passos para os empréstimos no ensino, preparando a destruição de um dos principais instrumentos de mobilidade social. Mesmo em matérias em que, por razões históricas, a esquerda portuguesa é muito cuidadosa, Sócrates não está com meias-medidas: nunca, nos últimos trinta anos, se puseram em causa tantas liberdades civis. Os novos e generosos Código Penal e Código do Processo Penal não disfarçam a concentração de poderes e discricionariedade da nova Lei de Segurança Interna. Quanto à política externa, a continuidade com os governos anteriores é absoluta, deitando por terra a história recente do PS.
Perante isto, o que pode fazer o PSD? Passar para a esquerda do PS, como fizeram os liberais democratas ingleses contra Tony Blair? Em Portugal, em que a memória e a fidelidade contam, não há esse tipo de mobilidade eleitoral. Radicalizar o discurso? O país e a sua demografia mudaram e a direita mais conservadora está condenada, como prova a irrelevância do CDS. Reforçar a componente estatista, tentando representar os sectores empresariais mais frágeis? É o mais provável, mas assim remete-se para o campo dos derrotados. O PSD não se pode reinventar quando todo o seu espaço político foi ocupado com mais atrevimento, mais energia e mais eficácia.
Assim, teríamos de concluir que a resposta da oposição só poderia aparecer da esquerda. Para isso, ela teria de abandonar a cultura de contra-poder e contar com um reforço vindo de uma fractura no PS. Mas as que têm surgido são inconsequentes e sectarizadas. Até lá, os olhos estão postos no PSD. E para o PSD que vimos nas últimas semanas nem vale a pena olhar.
Por Daniel Oliveira 1 Out 07 em Expresso

