DILIGENTES, os jornais passaram a semana a preparar o terreno. Que o défice tinha chegado à estratosfera. Que Sócrates estava boquiaberto com o que descobrira. Que Constâncio sabia agora o que nem desconfiara. Que economistas e empresários, que não indo a votos têm sempre um programa de governo pronto a servir, pediam sangue. Que o PS terá de fazer tudo ao contrário do que prometeu. E nós que já vimos este filme.
Os portugueses votaram no PS porque, ao que parece, não concordavam com o caminho que foi seguido pelo PSD. Sabem agora que é para continuar. Até o guião é o mesmo. Promete-se uma coisa, chega-se, fica-se «chocado» e faz-se o contrário. Tudo inevitável. A política deixou de ser um confronto entre alternativas. A política é hoje feita de inevitabilidades.
Voltemos ao básico: antes das eleições, Sócrates disse que não aumentaria os impostos. Agora, Sócrates não tem legitimidade democrática para os aumentar. A democracia é isto: diz-se ao que se vem, recebem-se os votos e cumpre-se. Não faltam alternativas, por exemplo, na saúde, principal responsável pela derrapagem orçamental. Porque se o programa de governo fosse inevitável, mais valia pôr Vítor Constâncio como primeiro-ministro. É verdade que descobre tudo em momentos muito convenientes. Mas, pelo menos, tem sempre o mesmo programa de governo, seja qual for o governo. Só lhe faltam mesmo os votos. Um pormenor.
Por Daniel Oliveira 28 Mai 05 em Expresso

