DUAS coisas se têm dito sobre a putativa candidatura de Mário Soares à Presidência da República: que o seu tempo já passou e que ele seria a solução de recurso da esquerda. Nenhuma das duas é verdadeira. Soares manteve-se no activo e o partido que fundou só deve temer a sua candidatura.

Soares é velho. Bem sei que estamos no tempo dos políticos sorridentes e saudáveis, mas a verdade é que outros, mais novos, no centro ou na esquerda, ficaram-se. E Soares não regressa de uma reforma. Conhecemos as suas opiniões sobre todos os temas essenciais dos últimos anos. É verdade que a realidade mudou, mas o Soares de há vinte anos e de hoje também não é o mesmo. As suas posições em matérias internacionais são a prova disso. O problema, para muitos, não é Soares ser velho. É ter querido envelhecer de esquerda.

Soares pode impedir a despolitização do debate presidencial, condição para que Cavaco chegue a Belém. Cavaco contava com um passeio sem luta até uma pacífica coabitação com Sócrates. Soares pode estragar-lhe os planos. E, sendo uma inesperada dificuldade para Cavaco, é, para já, uma dor de cabeça para Sócrates. Uma vitória de Soares não vale um chavo para o secretário-geral do PS - a vitória será sempre de Soares - e pode transformar-se num pesadelo para o primeiro-ministro. Soares é demasiado livre. É a liberdade dos velhos. Não têm nada a perder. Não têm nada a ganhar.