Há um acordo no regime. Os piores ministros, depois de saírem do cargo, podem transitar para uma empresa pública ou privada ou para um organismo nacional ou internacional. Em troca, o país só lhes pede que se calem durante uns tempos. Infelizmente ninguém deu o que fazer a Isabel Pires de Lima e não há dia que a senhora não dê um ar da sua graça, atacando o que defendeu e propondo o que não fez. Agora quer um pólo da Cinemateca no Porto porque por lá se vêem poucos filmes antigos. Imagino que até Pires de Lima saiba que uma cinemateca não é uma sala de cinema. Mas o bairrismo, se vier com a devida vitimização perante a arrogância dos doutores de Lisboa, tem bilheteira garantida. É mesmo um clássico em exibição contínua.

Estou à vontade: reconhecendo o trabalho de Bénard da Costa, defendi, quando esse foi um debate, a saudável renovação dos cargos públicos, a que a cultura não deve estar imune. Não farei seguramente parte da “corte de Bénard”. Mas tal não me chega para tolerar o triplo descaramento: que a mais incompetente titular da pasta da Cultura (que retirou a Santana um estatuto que parecia seguro) continue a massacrar o país com o seu ressentimento, em vez de prestar contas pelos crimes que cometeu no São Carlos ou no Teatro Nacional; que insista em insultar a nossa inteligência, falando do que não sabe ou fingindo que não sabe do que fala; e que transforme o debate sobre a política cultural em picardias regionais mais dignas do mundo da bola.

Por isso, doutora Isabel Pires de Lima, faça-se a si própria e a todos nós um enorme favor: fique na clandestinidade durante uns anos e dê-nos algum tempo para nos esquecermos da catástrofe do seu consulado. Se o fizer, e tendo este país memória curta, quase lhe posso garantir que voltará a ser ministra. Talvez da Agricultura.