O Governo de Espanha decidiu, através de uma lei, fazer justiça às vítimas da guerra civil. Dos dois lados. A decisão foi acertada. Porque numa guerra civil quase só morrem inocentes. E decidiu dar o devido reconhecimento à memória das vítimas da ditadura franquista. Neste caso só há vítimas de um lado e só a elas a democracia deve alguma coisa.
No mesmo momento, a Igreja Católica beatificou quase quinhentos religiosos vítimas dos republicanos. Uma resposta a uma lei que acaba por trazer à memória a cumplicidade activa da Igreja com os crimes da ditadura. Mas, ao contrário do Estado, a Igreja não conseguiu encontrar ‘mártires’ nos dois lados da barricada. Nem sequer nos dois lados da Igreja. Com tanto beato, não houve espaço para um único dos padres bascos fuzilados em 1936 pelas forças franquistas. Os familiares destes religiosos perguntaram ao Vaticano: “E nós, não somos ninguém?” Pelos vistos, os que escolherem resistir a Franco passaram para o limbo da história.
Pela oportunidade e por quem deixou de fora, esta beatificação só pode ter uma leitura: a Igreja espanhola não se arrepende de ter estado ao lado dos que gritavam “Viva la muerte!”, das saudações fascistas feitas pelos seus bispos em cerimónias públicas ao lado do generalíssimo e da cumplicidade com a ditadura e com o crime. Nenhum remorso. Imenso orgulho. Faria tudo de novo.
Por Daniel Oliveira 4 Nov 07 em Expresso

