A entrevista a Sócrates, ontem na SIC, não trouxe nada de novo a não ser o reconhecimento do erro e a promessa pouco explícita de abrandamento em relação ao encerramento de urgências hospitalares. De resto, a entrevista é, ela mesma, um excelente retrato da situação política do país. Mais as perguntas do que as respostas. Durante uma hora Sócrates responde a pormenores, enumera medidas, explica (quase sempre com tanta habilidade como falta de rigor) a acção do governo e defende-se de casos. E safa-se bem numa entrevista fácil. Mas não há nenhuma pergunta ou resposta política. É um super-director-geral que ali está. Não há nenhuma pergunta ou resposta sobre o futuro (a não ser sobre o seu próprio futuro) e sobre as razões políticas de cada medida. Sócrates dá uma entrevista defensiva para perguntas defensivas. A verdade é que se a entrevista foi, no mínimo, pouco interessante, teia sido um tédio insuportável se fosse uma entrevista política. Porque Sócrates nunca conseguiria sair do chavão redondo e vazio em que é especialista. Porque Sócrates não tem uma ideia política e não tem uma forma de olhar para o país e para o Mundo: Sócrates repete o lugar-comum para defender políticas que têm um conteúdo político profundo que, provavelmente, ele próprio desconhece. Pior: não precisa de falar de política. A entrevista que deu ontem só podia ser dada num país onde não há uma oposição forte nem confronto político. E no entanto, a política está lá.
No que toca ao emprego, Sócrates foi habilidoso. Tentou até a coisa extraordinária de transformar o aumento do desemprego numa excelente notícia. O aumento da população activa não é propriamente um dado inesperado. A um governante, sobretudo a um governante que ostente a palavra “socialista”, deve interessar saber se há mais ou menos desempregados. E há mais. Muito mais. Tentar esconder isso com a criação de postos de trabalho (não querendo saber sequer que tipo de postos de trabalho) é apenas um truque. O que interessa saber, pelo menos do ponto de vista de quem não tem emprego, é porque é que com este governo atingimos o mais alto nível de desemprego de duas décadas. Até porque, depois de vivermos anos a ouvir falar da crise demográfica para explicar muitos dos problemas do Estado Providência, o aumento da população activa deveria ser uma boa notícia. Mas para isso é preciso que essa população activa esteja a trabalhar.
Quanto à economia, Sócrates agarra-se ao que se pode agarrar, mas fica-se com a estranha sensação de que ele vive num país diferente. E quando chega aos certificados de aforro percebemos o descaramento é total. Quem os tem terá dado por isso e entendido até onde pode ir a falta de rigor de José Sócrates.
Em relação ao Aeroporto e à nova travessia do Tejo, ficou claro que o governo navega à vista e não faz a mais pálida ideia do que anda a fazer e a decidir.
Chegados ao fim da entrevista, Sócrates não mobiliza ninguém. Pode argumentar pior ou melhor, defender-se pior ou melhor, convencer pior ou melhor sobre a bondade de cada reforma, mas não mobiliza ninguém. Nem uma palavra sobre o futuro. Quando se pedem tantos sacrifícios às pessoas (e Sócrates parece nem desses sacrifícios ter consciência) é preciso conseguir explicar para quê e para onde se quer ir. Nada. As perguntas não puxaram por isso. Mas se tivessem puxado tinham esbarrado com um muro de palavras ocas.
Como técnico, falta a Sócrates rigor. Como político, falta-lhe política. Resta-lhe a habilidade. O que é assustador quando se querem fazer tantas reformas. Um bom resumo do pensamento de José Sócrates: mais vale um mau sistema de avaliação dos professores do que avaliação nenhuma. Esta é a máxima que o engenheiro aplica a toda a política. Pois eu acho o contrário: se é para fazer pior, mais vale deixar como está.
Por Daniel Oliveira 19 Fev 08 em Governo, SócratesSem respostas ao post “A insustentável leveza da nossa tragédia”
- 1 Pingback on 19 Fev 2008 às 13:28



Não vimos a mesma entrevista de certeza…
“O que interessa saber, pelo menos do ponto de vista de quem não tem emprego, é porque é que com este governo atingimos o mais alto nível de desemprego de duas décadas.”
Não foi com este governo que se atingiu este taxa de desemprego, como não foi com este governo que o défice do estado chegou ao ponto a que chegou, como também não foi com este governo que as reformas essenciais para o país foram metidas na gaveta.
Foram 30 anos de total incuria e laxismo. 30 anos a governar para umas quantas classes corporativas, benquistas da esquerda, ignorando tudo o resto.
Foram 30 anos a engordar o Estado, a empaturrá-lo de funcionários, e enchê-lo de despesa e de ineficiência.
Foram 30 anos em que se mandou a preparação e a educação dos portugueses às malvas.
Esses 30 anos de verdadeira desgraça e de tempo perdido deram nisto : uma ou duas gerações que, muito provavelmente, perderam o comboio do futuro e, se não forem Funcionários Públicos, têm 2 opções : os baixos salários e/ou o desemprego; tudo porque o regime pós-25 de Abril não lhes deu as armas necessárias para poderem lutar no mundo em que vivemos.
E a culpa foi de quem ? Deste governo, ou da maioria ideológica e sociológica de esquerda (a esquerda mais estúpida e reaccionária da europa civilizada) que tudo dominou nestes ultimos 30 anos e que tudo bloqueou em nome da puta da ideologia, da porcaria do dogmatismo e da defesa das corporações ?
O Sócrates tem razão. É melhor um mau governo do que governo nenhum.
Citando Ramos Horta que nos definiu como “um povo mole, mediterrânico”, ainda vamos com muita sorte.
Estou enganada ou tinha sido anunciado uma composição bem diferente para o painel de discussão da entrevista que se seguiu na SIC N, o qual incluia o dono deste blog? Se sim, seria possível saber o que se passou?
Isso foi o painel do Expresso. E estive lá.
Há grande Lino voçê é que sabe….a culpa é da
POLITICA!Se tivesse havido pragmatismo em vez de idiologia ,enfim ALGUEM QUE LEVASSE ESTA
CHOLDRA A BOM PORTO NÃO É?Eu julgo mesmo que estavamos á frente de uma Alemanha,sei lá…
Era preciso ,era um salaz….ops,um LINO POIS
ENTÃO.Já estou a ver o Lino de chicote a gritar
aos FUNCIONÁRIOS PUBLICOS ,QUAL SEBASTIÃO : O
MEU CAVALO NÃO SABE VOLTAR!!!!Força LINO…
Daniel
Já vi que esteve no painel do Expresso. Foi pena. Ficou mal na fotografia.
Lino José
Dou-lhe razão. A nossa esquerda não faz. Desfaz.
Na foto, Sócrates discute os sapatos Prada com assessores.
A tragédia ainda piora quando se olha para a oposição e se vê quem está alinhado como “alternativa”…
O voto é a arma do povo! A ABSTENÇÃO também.
Não seria altura de começarmos a pensar em pedir ao PR para nos mostrar a tal “boa moeda”?
Realmente, aquela pergunta sobre os investimentos da Sonangol em Portugal e vice-versa, parece que foi mais um das curiosidades (ou interesses obscuros) do Nicolau Santos e da sua quadrilha do que do cidadão comum (”ordinary people”). Entrevista medíocre. Mesmo assim, o Ricardo Costa em alguns pontos não dava tréguas.
Daniel Oliveira trabalha para a SIC,está-lhe vedado criticar a triste e subserviente figura dos dois “entrevistadores”,que costumam ser tão vivaços para os da oposiçao.Neste país descaradamente controlado,Sócrates pode continuar a fazer discursos de propganda que quizer,sob a forma de “entrevistas”,aos moleques de serviço.Se falei demais,façam favor de cortar…
É espantosa a qualidade dos comentadores da SIC que, com muita segurança e após o débito de tanta demagogia por parte do PM, acharam que ele se saiu bem. Pensarão esses senhores que os Portugueses são todos estúpidos? Tenham alguma vergonha e disfarcem ao menos ao serviço de quem estão e os vai premiando por intoxicarem a opinião pública com propaganda. Já ninguém aguenta os Bettencourts e os Sarsfields. A realidade deste País é que as 100 grandes fortunas aumentaram os seus rendimentos em 30% enquanto que a esmagadora maioria da população perde poder de compra todos os dias, resvala para a pobreza e emigra…este é o balanço de 3 anos de governação neo-liberal! Não é só a afrontosa falta de ’sensibilidade social ‘ e o autoritarismo que chocam neste Governo. O pior é a desfaçatez…
Ora aqui está um texto lúcido, que subscrevo inteiramente.
Ainda que situada nos antípodas políticos do Daniel…
Este post encerra uma falta de rigor que até mete dó.
“Não há nenhuma pergunta ou resposta sobre o futuro (a não ser sobre o seu próprio futuro) e sobre as razões políticas de cada medida.” DO
Então não se perguntou se os impostos baixariam no próximo ano? Então não foi dito que as reformas na educação e na saúde tem por base melhorar esses sistemas? Valha-nos Deus.
“O aumento da população activa não é propriamente um dado inesperado.” DO
Tretas. É inesperadíssimo. Mesmo agora à posterior não se sabe quais são as razões desse aumento. Diga-nos lá Daniel quais são essas razões.
“mais vale um mau sistema de avaliação dos professores do que avaliação nenhuma.” Sócrates
Certíssimo. Não há maior verdade que essa. Só não vê quem é cego.
A entrevista do primeiro ministro bem como as reacções dos partidos da oposição foi exactamente igual ao que se tem passado nos debates no parlamento.Sócrates não disse nada de novo e os representantes dos partidos da oposição tambem não.Não sei se quem decidiu a realização da entrevista tinha outra intenção ou não,o que é facto é que não acrescentou nada diferente
Apoio o comentário do Pedro. Até porque a maioria dos portugueses não têm apelidos parecidos com “Bettencourts” nem “Sarfields”.
Sr Burial lá da tumba de onde fala o sr só diz asneiras. É evidente que o aumento da população activa era esperado. Bastava ter estudado os dossiers demográficos do INE e a tendência para o aumento das mulheres no mercado de trabalho. Acresce ainda como contributo o aumento da idade de reforma…E pensará o sr que só vai para professor quem não sabe fazer mais nada e por isso deva ser punido? Ou que os professores são todos desqualificados a ponto de merecerem uma avaliação baseada na roleta russa do concurso para titular ou da qualidade das turmas que lhe são distribuidas? Os professores são cidadãos como quaisquer outros. A sua avaliação deve basear-se em princípios de equidade e qualidade e não pelo cartão partidário.
Estou em desacordo! Por acaso, no fim da noite, até fiz dois post críticos ao PM, mas, do que vi da entrevista, confesso que gostei! Especialmente se compararmos com a tragédia que foi a do ano passado. Fui suave, inegavelmente, mas permitiu ao PM deixar correr a propaganda e deixar no ar uma evidência; pode o pior de todos os PM, mas bem melhor que todos os outros nomes possíveis…
O momento é grave e merece a mais profunda reflexão.
Há 30 anos que assisto a campanhas eleitorais e a entrevistas de políticos Portugueses.
Arrepiamo-nos, muitos, ontem com uma das piores entrevistas a que já assistimos.
O despudor e a insensibilidade não tiveram medida. Pede-se um político mais, muito mais.
A postura narrativa e comediante de um primeiro-ministro, a quem passaram as perguntas e respondeu á pressa com 3 ou 4 bullets decorados, é inqualificável.
Admitamos que as medidas tomadas pelo governo (induzidas pela Comunidade Europeia) eram necessárias. A euforia incontida no canto da vitória dos resultados alcançados contrasta com a extrema precariedade de vida dos mais de 80% dos Portugueses a quem foi sugado o sucesso cinzento de 50 minutos de propaganda televisiva.
O primeiro-ministro, se tinha algum espaço, ontem perdeu-o. Nunca fui socialista, mas ontem vi muitos a fecharem as janelas por onde respiravam.
Caro Lino e I.Reis,
Julgo estarem enganados (no caso de I.Reis não sei se o texto é irónico, se o for peço a minhas desculpas). O Lino culpa todos menos a ele próprio. Gostava de lhe perguntar onde é que ele anda? Se tem as soluções para tudo e sabe onde estão os problemas porque é que não os resolve? Claro que então passará a culpa para o povo ou outra entidade!
Já agora “maioria ideológica e sociológica de esquerda” é falso. Se fosse estaria no poder, mas é sintomático que alguém que tem um discurso como o que apresentaste simpatize com Socrates.
Até breve…
É evidente que o aumento da população activa era esperado
É evidente que o aumento da população activa era esperado, diz o Pedro. E acrescenta, bastava ter estudado os dossiers demográficos do INE e a tendência para o aumento das mulheres no mercado de trabalho. Cada vez me convenço mais que se a asneira pagasse imposto o problema do défice já há muito que estava resolvido. Então não é que há hoje menos mulheres na população activa do que em 2005!! Ou seja, a tendência obviamente era para o decréscimo, como se veio a verificar. Valha-me Deus.
Uma coisa é certa, o Daniel em falta de rigor bate Sócrates aos pontos.
Tod a gente sabe que a esquerda festiva detesta dar dois ou três passinhos em frente. Que miséria! Mais vale ficar tudo igual. As grandes fanfarronadas palavrosas e estéreis é que são boas, para depois voltar tudo quinhentos passos atrás.
De acordo no essencial.
Mas sugiro uma rectificação: O Daniel chamou-lhe entrevista, mas eu penso que foi mais um “Tempo de Antena”.
Nisto estavam conversando, palavras de cerimónia, diplomáticas, como é uso nos casos de circunstância. Então, diz o primeiro Sócrates, apontando co sapato:
- Mas, oh, nunca tinha reparado…
- Curioso, nem eu, diz o outro…
- Deveras, curioso, com efeito!…
- Mas quê, pergunta a senhora, atenta - ao que os dois respondem c’o promeiro, solícitos:
- Mas aqui, minha senhora, veja como o chão fica aqui mesmo por baixo!
E assim como espantados, foi vê-los já irmanados ante o inusitado fenómeno.
… espantados
co fenómeno inusitado,
sob a ponta do sapato.
… enquanto a objectiva
recortava a fina linha dos casacos.
como é possivel haver neste blog comentários tão leves. Sou do Porto. Deveriam vir cá ver como as pessoas estão a viver pior.
Ainda hoje ouvi. 2000 empresas fecharam no ano 2007. Mais de 600 foram na área do Porto.
No mesmo ano o BCP pagou mais de 80 milhoes de euros de indeminizações e reformas a ex-administradores.
Este espaço tem que ser um espaço sério e não de contestação mansa. Haja pudor.
É triste, mas é verdade, os alunos pouco sabem. Quanto mais a ministra se esforça para fazer a avaliação e outros programas no ensino, sem qualquer sentido, como as aulas de substituição e outros, menos tempo resta aos professores para prepararem as lições. Com professores nos órgãos das escolas, sem preparação para fazer a dita avaliação, acho que a ministra se devia auto avaliar e demitir-se do cargo:
A AVALIAÇÃO
Eu já fui um professor
e também fui avaliado
mas aluno é um horror
vejam só este, coitado:
-
perguntei-lhe uma vez
qual seria a sua nota
diz ele, quero um três
que bem qu’ele se cota?
-
escreve no quadro, seis
e faz o sinal da divisão
à operação aplica leis
diz-me lá quantos são?
-
no quadro, esse infeliz
quase a querer pensar
mexe e remexe no giz
tem a sua cabeça no ar!
-
e o seis que nome tem
nesse lugar, da operação
à mente um nome vem
e responde seis, então!
-
e eu pergunto outra vez
e aí no sinal da divisão
que nome se dá ao três
responde é três, então!
-
faz a conta de cabeça
digo eu para o rapaz
e a dizer, ele começa
diz que é doze, sagaz?
-
Um dia eu fui ao talho
e seis bifes lá comprei
divida em dois, atalho
Deu doze dele lembrei!
-
tinha outro que a somar
começava p’la esquerda
dizia igual soma vai dar
e que cabeça tão lerda!
-
e o aparelho reprodutor
eu ensinava em ciências
diziam eles, ó professor
ensine estas inocências!
-
meu País não tem igual
sem saber a ciência toda
sabem educação sexual
antes de casar, têm boda?
-
Sei que na Universidade
até dá gosto, por lá andar
copia-se com à vontade
e toda gente vai passar!?
-
temos gente inteligente
com tem qualquer País
professor tem suficiente
e já não se sente feliz!?
-
eu um dia fui bancário
p’ra avaliar havia grelha
me avaliava funcionário
sem bater da sua telha!?
-
se um colega era amigo
desse que nos avaliava
a promoção ia consigo
a outros ele não a dava!?
-
Avalia no meio do ano
a Ministra da Educação
é erro crasso, humano
pouco, alunos saberão!
-
Eu acho que mais valia
é esta a minha opinião
quando o ano, principia
é que se faz a avaliação!
-
neste nosso país, sinistro
onde todo dia, um morre
se não se avaliar ministro
ai, o povo, com eles corre!
-
Pisco