«Mesmo assim, convém lembrar, a propósito daqueles que acham excessiva a comparação de Che com Hitler, como Che não se compreende isoladamente.» Luciano Amaral

Estes são os mesmos senhores que nos explicam há anos que não houve fascismo em Portugal (sempre exigindo o máximo de rigor nas palavras e nas comparações) e que fazem tudo para isolar o fenómeno português do que aconteceu no resto da Europa na primeira metade do século XX.

Estou completamente à vontade na minha relação com os “nossos filhos da puta”. Até com Che Guevara. Mas foi preciso esperar por esta polémica para ver a direita portuguesa tratar mal Pinochet. Eles com o tempo lá vão chegando. E julgando que destroem os tabus da esquerda, esta semana lá foram destruindo os seus.

Em baixo, podem ler o texto que escrevi em Junho de 2006 sobre Che Guevara.


Derrota ou morte, venceremos!

No Museu Vitoria & Albert, em Londres, foi inaugurada uma exposição dedicada às imagens iconográficas de Che Guevara. Um contratempo: Gerry Adams, o líder do Sinn Fein, braço-político do IRA, estava convidado. O museu retirou o seu nome. Compreende-se. Não é conveniente ter radicais de esquerda que se dedicaram à luta armada numa exposição sobre Che Guevara.

Parece estranho mas não é. A imagem de Che é inofensiva. Che corporiza tudo aquilo em que a esquerda perde. Che sonhava com a revolução mas não queria o poder. E a revolução sem poder é apenas violência. Che queria o poder do povo mas, como se viu na Bolívia e ainda mais no Congo, dispensava o povo para lançar mãos às armas. Che via a revolução como um sacrifício, não como uma libertação. Che representava o comunismo naquilo que ele tem de mais cristão. Era um santo e, na sua utopia, transportava, como um santo, a emancipação dos homens. Ler os diários de Che e a sua megalomania redentora é bastante esclarecedor. E Che era um aventureiro com a única coisa em que ninguém tem o direito de ser aventureiro: a vida e o futuro dos outros. Fidel é uma tragédia para os cubanos. Che teria sido uma hecatombe. Por boas e péssimas razões esta sempre foi a posição oficial dos comunistas pró-soviéticos. Hoje o «merchandising» guevarista toma conta da Festa do Avante! Porque Che não passa de um santinho adorado em procissões.

Che é inofensivo porque representa o lado utópico e absoluto da esquerda. E a utopia absoluta, como programa político, está condenada ao fracasso. Quer o fracasso, deseja o fracasso e vive do fracasso. E o fracasso, em revoluções, escreve-se a sangue. Che é um herói porque perdeu. E as nossas almas cristãs adoram crucificados. Gerry Adams, que fez a guerra e negociou a paz, que cometeu crimes e calou as armas do IRA, iria fazer tanto àquela exposição como a Fátima ou a Lourdes. É que talvez Che fosse um bom homem. Seguramente é uma excelente estatueta. Mas para mim, que sou iconoclasta, foi, como político, uma desgraça.


13 respostas ao post “Os seus tabus”  

  1. 1 1  Telmo

    “Che é inofensivo porque representa o lado utópico e absoluto da esquerda.”

    Espanta-me que se diga que Che é inofensivo quando todos os dias se tenta destruir a sua imagem, é espantoso como um homem que morreu há 40 anos continua a causar tanto incómodo ao ponto de ser atacado a um ponto que nem Hitler ou Stalin o são no dia a dia.

    Quem não compreende porque Che é um ídolo para milhões de pessoas em todo o mundo faça favor de o tentar compreender.

    Quem o ataca sem provar nada do que diz para o atacar faça favor de mostrar as provas (não me refiro aos livros escritos com parcialidade e ressentimento).

    Quem se sente incomodado com a memória e adoração do Che só tem uma coisa a fazer: viver com isso.

    Como grande admirador do Che confesso que fico orgulhoso de ver o incómodo que ele ainda causa após 40 anos.

  2. 2 2  Sebastião Dias

    «Estes são os mesmos senhores que nos explicam há anos que não houve fascismo em Portugal (sempre exigindo o máximo de rigor nas palavras e nas comparações) e que fazem tudo para isolar o fenómeno português do que aconteceu no resto da Europa na primeira metade do século XX.»

    Eu também não acho que seja comparável fascismo europeu, com Hitler e Mussolini, com o fascismo de Salazar e Espanha. E ninguém que seja intelectualemnte honesto e que seja capaz de analisar a história com objectividade pode dizer que houve totalitarismo em POrtugal ou Espanha.

  3. 3 3  corvo

    O que resta da ideias do CHE….

    Pode-se mitificar um revolucionário.

    Pode-se tentar transformar em lenda a sua luta.

    A realidade , isolado, combatido pela ditadura boliviana, pela CIA , mas tambem isolado pelos PC da America Latina, e as suas ideias arrasadas ideologicamente ,pelo então Movimento Comunista Internacional , entre os quais o PCP, que o via como um perigoso esquerdalho, e um péssimo exemplo para a concepção do que deveria ser o derrube do fascismo em Portugal.

    Guevara hoje pouco mais é que um bibelot, que se usa porque parece bem.

    Não foram as suas ideias que triunfaram, foi o romantismo da sua luta, e a lenda de como morreu que o tornou perene.

    Mas foi e é um exemplo isolado, e sem grandes consequências….

  4. 4 4  Henrique Morais

    O Daniel acha que Che e Estaline (por exexmplo) nao sao comparaveis, mas acha que não devemos isolar Salazar de Hitler… Se assim for, nao percebo o seu raciocinio. Caso considere que Che e Estaline estao no mesmo saco, entao nao vejo razao para a capa da revista atlantico ser , de todo, descabida.

  5. 5 5  Henrique Morais

    Ja agora e falando dos tabus que referiu, nao me lembro de ver ninguem, em nenhuma festa de direita, com t-shirts de Pinochet e a falar abertamente das suas “gloriosas” conquistas…

  6. 6 6  Daniel Oliveira

    Acho que Hitler e Salazar não são comparáveis e acho que não devemos separar Che do movimento comunista, no que teve de bom e de péssimo, assim como não devemos separar Salazar dos movimentos autoritários de direita que cresceram na primeira metade do século XX na Europa.

  7. 7 7  jorge gaspar

    este texto é uma desgraça.
    para aqueles que nada conhecem da historia senao a imagem revolucionaria de che que nos percorre a memoria este texto é apenas uma opiniao, é apenas colocar ses no passado da historia mundial . este texto nao vale nada.
    gostaria que o daniel enquadra-se a sua opiniao com factos historicos.
    a unica coisa que faz é dizer que a forma que che utilizava para alcançar o seu ideal utopico era violenta e sanguinaria.
    eu axo que nos (portugueses) vivemos com a ideia de que as lutas se travam com rosas e as revoluçoes sem sangue.
    no entanto penso que nao ha forma de alcançar-mos a liberdade e a igualdade sem sangue.
    nao foi com manifestaçoes que o mundo se livrou da guerra que bush pai desejou e bush filho criou.

  8. 8 8  tonibler

    Daniel,

    O que “os mesmos senhores” fazem não vale de nada ao teu argumento. Quanto muito fará deles alguma coisa, mas nada que te dê razão. Che é um ícone da revolução de base soviética, ele propagava a “revolução” ao serviço da KGB. É o símbolo do mais mortífero de todos os movimentos.
    Neste sentido, claro que é associável a Hitler. Podiam ter-lhe posto uma suástica por detrás, meteram-lhe um bigodinho.

  9. 9 9  Daniel Oliveira

    tonibler, nota-se que não leu o texto que está a comentar e, no caso, sabe pouco sobre Che Guevara. Todos os defeitos tinha, estar ao serviço do KGB seria o último. Uma das grandes divergências de Che com Fidel tinha exactamente a ver com a URSS. Quanto ao resto, o seu comentário não dá grandes argumentos.

  10. 10 10  Paulo Ribeiro

    Normalmente os fenómenos inserem-se dentro dum fenómeno padrão com o qual partilham semelhanças, embora com algumas diferenças que se relacionam com particularidades especificas a cada caso. Existe toda uma série de factores que contribuem para a semelhança entre situações, nomeadamente factores temporais e contextuais. Portanto, é óbvio que regimes e ideologias de esquerda partilhem coisas parecidas e regimes de direita também. Estes regimes têm alicerces comuns, portanto é normal que se encontrem semelhanças, mas as diferenças existem. Isto deve ser lugar comum e não deve suscitar discussão. Bolas

  11. 11 11  nuno oliveira

    Para o Sr. D.OLIVEIRA é tudo uma desgraça: Che, Fidel, Chavez etc, etc. Mas afinal será que só ele e os amigos do bloco é que são o paradigma da esquerda???
    Estes srs, da dita esquerda moderna, começam a fartar…..já nem piada lhes acho!

  12. 12 12  Justicialista

    É curioso, já que não há nenhum líder político actual que cative as massas, continuamos a falar de personalidades políticas que já não deviam estar no esquecimento: Hitler, Che, Marx, Estaline, Churchill, De Gaulle, Franco, Salazar, entre outros.
    E pelos sinais dos tempos, parece que não haverá nunca mais nenhum líder que se possa dizer que vá suscitar tanta controvérsia, paixões ou ódios como essas! O pragmatismo da politica actual não dá lugar a política feita com convicções e marcas ideológicas vincadas!

  1. 1 Arrastão: Dois anos

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