Ontem, como acontece desde que o Homem é Homem, um grupo de pessoas arriscou a vida à procura de um futuro melhor. Somos nós há 40 anos atrás, a dar o salto e a tentar a sorte. Mas agora somos do primeiro mundo e olhamos com indiferença para a miséria que já conhecemos e algemamos, como se criminosos se tratassem, os homens e mulheres que fazem o que já fizemos.

A governadora civil de Faro diz que terá “corrido tudo muitíssimo bem” e que está “toda a situação ultrapassada”. 23 pessoas (uma delas com 15 anos) numa barcaça durante quatro dias no mar, sem comida e ao frio, não é a melhor definição para uma coisa que corre “muitíssimo bem”. E como serão recambiadas para o sitio de onde vieram não me parece que para elas esteja “tudo ultrapassado”. Mas suponho que não era disso que a senhora governadora falava. Estava só a acalmar-nos. Não espero nada de especial, apenas que os responsáveis políticos ao menos finjam que se preocupam que a vida desta gente. Uma palavrinha sobre o seu sofrimento. Não custa nada. Mas a imagem que faz capa do DN é elucidativa. Já diz o povo: “Não sirvas a quem serviu, nem peças a quem pediu”.

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Sem respostas ao post “O espelho”  

  1. 1 1  nuno magalhães

    Vai um comentário sobre género mais do que sobre o post. Este é daquele tipo de situação que para ser resolvida falta uma visão mais sensível, social, até maternal. Durante anos, políticos - de certa esquerda até à direita - , foram-nos dizendo ser matéria a tratar no feminino. Mas, por cá, o tema é tratado de forma quadrúpede, tal como na restante fortaleza europeia.
    No início do seu consulado, Sócrates terá sugerido que tinha poucas ministras por não haver suficientes mulheres na vida política, ou no partido, com qualidades para esse tipo de cargos. De facto, as que estão no Governo não se recomendam - mas os homens também não, o que mostra bem que isto é uma questão mais de discernimento do que de género.
    Depois encheu os decorativos Governos-civis com mulheres governadoras. Deve ter sido a sua oportunidade de tentar mostrar-se feminista.
    Mas sempre que vejo alguma das governadoras a perorar sobre assuntos e questões sociais sai bernarda. A senhora que está à frente dos destinos algarvios não é uma casualidade. Mostra bem que já vamos atingindo o patamar superior da igualdade. Dantes, dizia-se, só mulheres muito competentes chegavam a altos cargos políticos. O que não se cobrava aos homens cobrava-se às mulheres. Agora, a ganga feminina também já chega aos cargos, pelo menos aos pequeninos.
    O PS, que tanto lutou pelas quotas, fez por isso. Mas não me venham dizer que as mulheres têm de estar na política por exercerem a política de forma diferente da dos homens. Vê-se que são iguaizinhas no melhor e no pior. As mulheres têm de estar na política por terem de estar na política, mesmo com os Zé Lelos que, com bastante classe, sempre que querem bater na Ana Gomes (das poucas pessoas que valem a pena no P”S” actual), sugerem histerismos e desvios hormonais.
    Para concluir, preferia ter o Daniel Oliveira, macho e de aspecto pouco feminino, a tratar deste assunto do que a inefável, mas gira, Teresa Caeiro. Para me manter com estes dois partidos, claro que a Joana Amaral Dias faria melhor figura do que o incontornável Nuno Magalhães, meu lamentável homónimo popular.

  2. 2 2  Pedro Sá

    Claro, claro…o que era bom era não haver regras e isto ser mana joana não é ?

  3. 3 3  Henrique Morais

    Falando de outro assunto gostaria de relembrar ao Daniel que parece que a conferencia de Annapolis nao foi so para a fotografia, parece que o estado palestiniano saiu bastante beneficiado. Lembraria tambem que , pelo que diz no publico a rapariga violada na Arabia Saudita foi “salva” pelo rei da pena a que tinha sido condenada. Casos identicos, acontecem na Palestina, e certo que sem serem por aprovaçao governamental, mas a que toda a gente fecha os olhos, o que a meu ver nao diminui a barbaridade da acçao… Suponho portanto que o Daniel esteja triste ou por se ter enganado nos seus juizos ou pelo “sucesso” dos americanos e seus tentaculos nestas materias…

  4. 4 4  corvo

    A senhora governadora civil de Faro ,deveria ler um pequeno conto de José Rodrigues Migueis.

    Noite de Natal ( o imigrante )

    Talvez corasse de vergonha, se tiver alguma…..

  5. 5 5  Fox

    «Mas agora somos do primeiro mundo e olhamos com indiferença para a miséria que já conhecemos e(…)» A miséria que já fomos.E o pai natal que ainda é. E se nós já não somos nada daquela miséria para quê queixarmo-nos da vida que temos? O senhor está maduro politicamente. Para quando repararem em si?…

  6. 6 6  FNV

    Subscrevo inteiramente. Mas nós até os nossos emigrantes tratámos mal: inveja das voitures, das maisons, etc. E também conseguimos baptizar de “retornados” ( 1974/75) muita gente que nunca tinha posto o pé em Portugal. Somos uns cabrões nesta matéria.

  7. 7 7  xatoo

    O problema africano é complexo. De dificil resolução, na medida em que o colonialismo (leia-se a pilhagem desbragada dos recursos naturais) destruiu os suportes tradicionais de vida, sem que os tivesse substituido, como troca em termos justos, por outros meios alternativos que providenciem a subsistência minima das populações. Pelo contrário, quando os interesses (neo)coloniais ficam ameaçados, de imediato “a Europa” lhe levanta o mais feroz dos boicotes. Como se vê no Zimbabwe

  8. 8 8  agent

    Nem mais. O síndrome da memória curta que tanto jeito nos dá nestas situações.

  9. 9 9  agent

    Sim, sim, a regra que nos permite tratar os imigrantes como alienígenas é que é boa.

  10. 10 10  António de Almeida

    -Ok, tenho pena dos dramas humanos, do sofrimento daquela gente, mas pessoas que pagaram entre 300 a 1000 Euros, que não têm, por uma viagem naquelas condições, vamos agora recebê-las com um visto? Não seria abrir a porta a outros, permitindo que o “crime” compensasse? E já agora, um emprestimozinho bonificado, para se libertarem dos mafiosos que usurariamente os enganam? e que certamente iriam após colocação no mercado de trabalho ilegal, cobrar com juros altissimos tais emprestimos! Não, o problema tem de ser combatido lá, ajudar humanitariamente, mas repatriá-los é a única solução possivel!

  11. 11 11  Paulo Ribeiro

    Eu gostava de ser esclarecido, e esse esclarecimento é sobre a foto do DN, nada mais. Como é que se socorrem pessoas que, depois de passarem fome, frio, de andarem perdidas no mar sabe-se lá quanto tempo, provavelmente não conseguem andar? Não é a braços… é como…. com beijinhos e a auxiliá-las nas perninhas, para se manterem de pé????

  12. 12 12  Fado Alexandrino

    Peço desculpa, não consigo sentir pena absolutamente nenhuma desta gente.
    Cinquenta e tal anos depois de ter terminado o colonialismo ainda há gentinha que pensa que ainda somos culpados de esta gente viver na miséria enquanto os seus dirigentes (como bem o mostraram em Lisboa) vivem na maior opulência.
    Uma vara de governantes africanos passeou-se por esta nossa cidade espatifando milhares e milhares de euros que tanto jeito dava aos seus famintos povos.
    A senhora de dos Santos veio a Portugal e aproveitou para fazer rigorosos exames de saúde na melhor instalação que por aqui há.
    Também Portugal mandou os seus filhos pelos quatro cantos do Mundo, uns por vontade própria e desejo de aventura, outros apenas para poderem sair da miséria.
    O mesmo Portugal, aliás, que não os soube receber quando tiveram de fugir daquilo que lhes garantiam ser seu.
    Deixou de ser necessário sair de cá porque o Governo foi mudado.
    É isso que estes povos têm que fazer.
    Têm que mudar o Governo em vez de fugindo, permitirem que estes ladrões se eternizem no poder.
    Por isso, não consigo ter pena.
    É claro que isto não se pode dizer.

  13. 13 13  Luis Moreira

    Mas tambem não vale a pena deixar as portas abertas para morrerem cá de miséria.Aqui da minha janela já vi 3 Ukranianos novos, cheios de vida, com todo o aspecto de estarem bem alimentados e terem educação,afundarem-se na maior miséria,primeiro no alcool depois na droga.

    Serve a quem quando não sabemos nem podemos dar-lhes uma vida digna com trabalho,uma família?

  14. 14 14  Pinoka

    Oh Daniel! E levá-los lá para casa, heim?

  15. 15 15  corvo

    Xatoo haja seriedade, o Mugabe é um biltre, e não percebo como alguem que se reclama de esquerda, pode defender semelhante pessoa.

    Dito isto, o que está hoje em causa, não são as grandes tiradas sobre o neo-colonialismo, é a vida de 23 homens e mulheres, que se aventuraram com o risco da propria vida , para procurarem um futuro melhor.

    Um país que teve nas decadas de 60 e 70 ,centenas de milhares de homens e mulheres, que a SALTO, procuraram na Europa uma vida melhor, não pode tratar estes marroquinos como criminosos de direito comum.

    È isto que hoje deve ser denunciado, o resto será para outra altura.

  16. 16 16  Daniel Oliveira

    Claro que não consegue, Fado Alexandrino.

  17. 17 17  Francisco Crispim

    É um erro advogar-se total permissividade no que toca à imigração.
    Os primeiros prejudicados com tal política são os próprios imigrantes.
    Quem não consegue entender isto não entende coisa nenhuma.

  18. 18 18  corvo

    Fado Alexandrino, não sentiu VERGONHA de ver esta gente ALGEMADA, como vulgares bandoleiros….

    Como já disse ao Xatoo, o resto neste momento, é conversa da treta…..

  19. 19 19  Fernando Martins

    Totalmente de acordo. Aliás, é uma vergonha a forma como a cobertura mediática deste acontecimento tem, globalmente, sido feita. Em primeiro lugar, porque parece que estamos à beira de ser invadidos por um bando de africanos facínoras pefilados no outro lado do mar. Em segundo lugar, por se ter transformado a imigração “ilegal” num grande problema dos portugueses, quando é um problema dos imigrantes (vejam-se os problemas que têm com a sua legalização, sobretudo agora que há por umas leis novas que a segurança social não quer ou não consegue fazer cumprir).
    Só uma nota final para recordar que ainda hoje não serão poucos os portugueses que emigram clandestinamente por esse mundo fora. Ou não estivessem como estão a economia portuguesa e o desemprego.

  20. 20 20  Henrique Morais

    Fado Alenxandrino, sabe porque nao concordo consigo? Porque infelizmente fomos “nos” nesse maravilhoso periodo que foi o PREC que entregamos aqueles paises ao Imperio Sovietico, aos amigos de Cunhal e do companheiro Vasco. Considerando isto somos bastante responsaveis por aquela pobre gente em África estar entregue a tiranos…

  21. 21 21  ezequiel

    uma vergonha!! Não há qualquer necessidade de tratar as pessoas assim.

  22. 22 22  Fado Alexandrino

    Corvo

    Não, não senti.
    Curiosamente vejo-os sair de um qualquer Tribunal acenando com o V da vitória, bem dispostos em direcção a um bom autocarro no telejornal da noite.
    Mas não é isso que está em causa.
    A homília de xatoo fala por mim.
    A corrente de pensamento em que hoje uma certa esquerda bebe toda a sua ideologia obriga a que quem quer que seja que venha de África, e se não for de lá também serve desde que não seja caucasiano seja tratado com um carinho que não reservamos aos nossos próprios.
    O complexo do colonialista ou mesmo do rico (este até é risível em nós) faz-nos esquecer que à mistura com algum drama pessoal há também a natural vontade de mudar de vida a qualquer preço.
    É este preço que as pessoas escolhem e que têm que aceitar.
    Este caso até é bem significativo porque, sei agora, até médicos há neste grupo que tentava sair de Marrocos para Espanha e aportou a Marrocos II.
    Eu compreendo a vossa indignação.
    O politicamente correcto virá, espero que não nos meus dias, a dar prisão para quem escreva fora da novalíngua.

  23. 23 23  Vítor

    Porque não acolhemos todos os africanos que procuram uma vida melhor? Não era um gesto bonito? Gostava de viver no seu mundo. No meu, o milagre da multiplicação não é possível :(

  24. 24 24  nuno magalhães

    Que eu saiba os marroquinos ainda são caucasiano. Há quem nem saiba distinguir as classificações do século XIX

  25. 25 25  Fado Alexandrino

    nuno magalhães
    Os termos caucasóide ou caucasiano foram criados para classificar o grupo humano que é mais conhecido como “raça branca”, pelo seu tom de pele geralmente claro. O termo surgiu de antigos estudos de antropologia que acreditavam que tal grupo havia se originado no Cáucaso.
    Alguns antropólogos consideram os nativos do norte do subcontinente indiano, norte da África e do Médio Oriente, incluindo os árabes, judeus e turcos como sendo caucasianos embora, no senso comum, muitas vezes não sejam assim considerados.
    Pode ler o resto aqui .

    Henrique Morais
    África tem cinquenta e três países e todos são livres, alguns há mais de cinquenta anos.
    Até a própria União Soviética já encontrou outros rumos.
    O sentimento de culpa que escorre da sua afirmação já devia ter morrido de velhice.
    Essa gentinha não tem culpa. Cumpriram ordens superiores. Era o colectivo. Já morreram, felizmente.

    Agradecendo ao dono do blog a paciência, esta é a minha última intervenção sobre este post.

  26. 26 26  Manuel Monteiro

    «Homem» ou ser humano? Sexismos lexicais inconscientes…

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