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Voltando ao abaixo-assinado dos jornalistas, em que estes se comprometem com uma auto-regulação da sua actividade, seria interessante que os promotores do dito esclarecessem se, quando falam de auto-regulação, estão a falar da criação de uma Ordem profissional. Só assim se compreenderia que não começassem desde já a auto-regular-se sem proclamação de intenções.

Se é esse o objectivo, vale a pena recordar que ele foi devidamente chumbado, há uns anos, pela classe, em referendo. Por excelentes razões de lógica (os jornalistas não são profissionais liberais, trabalham por conta de outrem) e políticas, que me dispenso de enumerar. Apenas convido os próprios a olhar para aquilo para que têm servido as outras ordens. Na altura, pelo voto “não” surgiu uma frase: “Não nos ponham na Ordem”. Ou seja, entre o dirigismo do Estado que convida à censura política e uma ordem de barões que convida à uniformização editorial são maiores as semelhanças do que as diferenças.

Se o objectivo é que os jornalistas passem a fazer a devida selecção de quem entra ou não entra na profissão, parece-me bem que os cidadãos dispensam a vigilância da classe. A liberdade de imprensa é um direito de nós todos, não é um privilégio corporativo.

Ao contrário de médicos, engenheiros e arquitectos, nem a valência técnica é determinante para a entrada na profissão, nem os jornalistas trabalham por conta própria. Para que serve então uma ordem? Para entregar o pluralismo nas mãos de uma classe e definir a “linha justa” nos limites à liberdade de imprensa? Por mim, como cidadão que tem o direito a ser informado, prefiro uma lei mínima que seja realmente aplicada (que não são seguramente o Estatuto do Jornalista e as alterações ao Código Penal propostos pelo governo), entidades de regulação que não sejam um prolongamento do poder político nem uma simples representação profissional (nem a ERC, nem a Ordem) e que no meio da crescente uniformização editorial sobrevivam alguns jornalistas que não estejam às ordens da corporação.


Sem respostas ao post “Não ponham a liberdade de imprensa na ordem”  

  1. 1 1  DO

    “nem a valência técnica é determinante para a entrada na profissão”

    pois…

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    Pois não. Não é por acaso que não pode ser médico sem ser formado em medicina, não pode ser engenheiro sem ser formado em engenharia e pode ser jornalista sem ser formado em comunicação social nem sequer noutra coisa qualquer. A valência técnica é adquirida no exercício da profissão, como em tantas outras.

  3. 3 3  Karl Macx

    no meio da crescente uniformização editorial sobrevivam alguns jornalistas que não estejam às ordens da corporação.

    Jornalistas que pensem pela sua própria cabeça e que não se limitem a anuir às linhas editoriais?
    Hum…
    Atrever-me-ei a considerar tais “personagens” como uma espécie em vias de extinção?

  4. 4 4  João Pedro Henriques

    Caro Daniel,
    Evidente concordo a necessidade de um novo referendo.

  5. 5 5  palhaçadas

    A valência técnica, no caso do jornalismo, dever-se-ia adquirir não apenas no exercício da profissão, mas também através da formação profissional, dado que negá-la equivale evidentemente a negar a utilidade de uma série de cursos e universidades, bem como também a competência de um vasto conjunto de licenciados em CC como se sabe no desemprego.

  6. 6 6  P C

    Vejam o exemplo alemão de liberdade de expressão, há que estar atento. Nunca se sabe se por cá também não querem copiar.

    http://povileu.blogspot.com/2007/07/falsa-liberdade-de-expresso-na-alemanha.html

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