
Voltando ao abaixo-assinado dos jornalistas, em que estes se comprometem com uma auto-regulação da sua actividade, seria interessante que os promotores do dito esclarecessem se, quando falam de auto-regulação, estão a falar da criação de uma Ordem profissional. Só assim se compreenderia que não começassem desde já a auto-regular-se sem proclamação de intenções.
Se é esse o objectivo, vale a pena recordar que ele foi devidamente chumbado, há uns anos, pela classe, em referendo. Por excelentes razões de lógica (os jornalistas não são profissionais liberais, trabalham por conta de outrem) e políticas, que me dispenso de enumerar. Apenas convido os próprios a olhar para aquilo para que têm servido as outras ordens. Na altura, pelo voto “não” surgiu uma frase: “Não nos ponham na Ordem”. Ou seja, entre o dirigismo do Estado que convida à censura política e uma ordem de barões que convida à uniformização editorial são maiores as semelhanças do que as diferenças.
Se o objectivo é que os jornalistas passem a fazer a devida selecção de quem entra ou não entra na profissão, parece-me bem que os cidadãos dispensam a vigilância da classe. A liberdade de imprensa é um direito de nós todos, não é um privilégio corporativo.
Ao contrário de médicos, engenheiros e arquitectos, nem a valência técnica é determinante para a entrada na profissão, nem os jornalistas trabalham por conta própria. Para que serve então uma ordem? Para entregar o pluralismo nas mãos de uma classe e definir a “linha justa” nos limites à liberdade de imprensa? Por mim, como cidadão que tem o direito a ser informado, prefiro uma lei mínima que seja realmente aplicada (que não são seguramente o Estatuto do Jornalista e as alterações ao Código Penal propostos pelo governo), entidades de regulação que não sejam um prolongamento do poder político nem uma simples representação profissional (nem a ERC, nem a Ordem) e que no meio da crescente uniformização editorial sobrevivam alguns jornalistas que não estejam às ordens da corporação.
Por Daniel Oliveira 5 Jul 07 em Jornalismo


“nem a valência técnica é determinante para a entrada na profissão”
pois…
Pois não. Não é por acaso que não pode ser médico sem ser formado em medicina, não pode ser engenheiro sem ser formado em engenharia e pode ser jornalista sem ser formado em comunicação social nem sequer noutra coisa qualquer. A valência técnica é adquirida no exercício da profissão, como em tantas outras.
“no meio da crescente uniformização editorial sobrevivam alguns jornalistas que não estejam às ordens da corporação.”
Jornalistas que pensem pela sua própria cabeça e que não se limitem a anuir às linhas editoriais?
Hum…
Atrever-me-ei a considerar tais “personagens” como uma espécie em vias de extinção?
Caro Daniel,
Evidente concordo a necessidade de um novo referendo.
A valência técnica, no caso do jornalismo, dever-se-ia adquirir não apenas no exercício da profissão, mas também através da formação profissional, dado que negá-la equivale evidentemente a negar a utilidade de uma série de cursos e universidades, bem como também a competência de um vasto conjunto de licenciados em CC como se sabe no desemprego.
Vejam o exemplo alemão de liberdade de expressão, há que estar atento. Nunca se sabe se por cá também não querem copiar.
http://povileu.blogspot.com/2007/07/falsa-liberdade-de-expresso-na-alemanha.html