Qual a vantagem de fazer um documentário sobre alguém que não quer ser documentado?
Qual a vantagem de contar a vida privada de alguém que não a quer revelar e que ainda por cima não tem nem nunca quis ter qualquer responsabilidade pública?
Qual a credibilidade desse documentário quando todos os verdadeiros amigos da pessoa em causa e seus familiares recusam participar nele?
Há uma diferença entre o dever de informar e o desrespeito por uma escolha legítima de quem não tem outra obrigação que não seja escrever e não tem outro compromisso público que não seja para com a sua obra.
Se só a obra se revela, fale-se da obra. O resto é uma violação. E para quê?


Sem respostas to “Violação”  

  1. 1 1  samuel

    Daniel
    Se estás a falar daquela “idiotice” sobre o poeta… andamos a pensar o mesmo, pelo menos sobre algumas coisas!…

  2. 2 2  João Costa

    Caro Daniel,

    Talvez não fosse má ideia contextualizar este post, a não ser que esteja a falar da devassa da privada em geral, o que não creio ser o caso.

    Um abraço

  3. 3 3  Daniel Oliveira

    João Costa, sendo sobre um caso concreto serve para falar sobre o voyeurismo e o desrespeito dos media pelas escolhas de cada um. Não precisa, por isso, de contexto.

  4. 4 4  João Costa

    No comentário acima, onde se lê “devassa privada” deverá ler-se devassa da vida privada.

  5. 5 5  João Costa

    Caro Daniel,

    Entenda como quiser o meu comentário. Apenas o fiz por achar que seria mais “comentável” se fosse contextualizado. Você entende que não deve faze-lo, ok.

  6. 6 6  emepê

    Eu estava a ver o documentário e a pensar (alto) isso mesmo. Previamente à vantagem de o fazer, com que direito se ‘documenta’ alguém que não o quer, e mais, se especula sobre a não-vontade de ser documentado, quando é por demais evidente que não vai ser exercido o direito de resposta.

  7. 7 7  Eric Blair

    ó João Costa: tu sabes que ele sabe que tu sabes que ele sabe de quem é que estão ambos a falar; se é que faço entender.

  8. 8 8  Costa Nunes

    Parece-me que será para abrir caminho para que isaltinamente se liberte espaço nalgum armazém camarário onde estão duas estátuas a ocupar espaço.
    A sublimação do conceito de Jardim Zoológico dos poetas.

  9. 9 9  Nádia

    Claro que pouco ou nada interessa a vida privada, porque o que ficará para posterioridade é a obra, no entanto, confesso que gostava de ouvir o poeta a falar dos seus livros (esses livros que depois de lidos também são um pouco nossos) ou invés dos habituais críticos literários. Mas volto a referir que é preciso respeitar a vontade do artista.
    Fale-se da obra, leia-se a obra, discuta-se a obra… mais… o poeta em questão é digno de uma tertúlia.
    Votos de um feliz Natal

  10. 10 10  Francisco Crispim

    O documentário enojou-me.
    A múmia Pacheco, então…
    Compreendo perfeitamente o post, Daniel.
    Eu não seria tão meigo.

  11. 11 11  FM

    depois “daquilo” apetece pensar que há razões acrescidas para o silêncio

  12. 12 12  João Costa

    Bem, já que vi que caí neste post como um autêntico E.T., de facto não sabia do que se tratava, já que quase não vejo TV e não vi o documentário de que todos falam. Daí o meu primeiro comentário. A minha opção pela quase ausência de TV tem algumas desvantagens. Hoje revelou-se uma dela.

  13. 13 13  Josué

    Entretanto,os desmandos do BCP continuam no limbo.Como deve ficar!!Viva o mercado.Viva a democracia,justiça,bláblá

  14. 14 14  Fastio

    Estou como o joao costa. Não vejo televisão. Alguém pode dizer, sem meias palavras, de que porra de documentário estão a falar?

  15. 15 15  João

    Daniel, compreendo a tua posição. Mas a análise da obra de um autor, para a posteridade e gerações futuras não é completa sem uma análise da vida do criador. A obra de Luiz Pacheco não teria a mesma força caso ficasse no esquecimento o conhecimento da sua vida privada. Vi o documentário sem saber que o autor era teu pai, achei o documentário delicioso, não vi nele qualquer mostra de devassa e violação ao direito à privacidade. Os factos relatados apenas reforçam a análise da obra, contextualizando-a.

    Abraço.

  16. 16 16  Fado Alexandrino

    Compreendo que o amargue que o seu Pai seja exposto quando o não quer ser.
    Sou o feliz possuidor de “Os poetas” entre nós e as palavras com poemas do mesmo pela sua própria voz.
    Não vi o documentário nas acho que em determinado momento deixamos de pertencer a nós próprios e parte de nós pertence aos outros.
    É o preço de nos elevarmos acima do vulgo do humano.
    É o caso.
    Conheci também a sua belíssima irmã uma pessoa de uma serenidade sublime.

  17. 17 17  PRS

    Tenho estado no Pólo Norte a pedido do Pai Natal a ultimar os preparativos para o dia 24. No pólo, apesar de haver cada vez mais ursos polares a morrerem afogados por causa do aquecimento global (o que é tão indiferente para a maioria de nós ocidentais como os magotes de emigrantes ilegais que arriscam as vidas mar adentro em busca de uma vida um bocadinho melhor), não há televisão, de modos que a minha pergunta é mais ou menos esta: quem é a pessoa que não quis ser documentada e sobre a qual se fez um documentário? E se esta não é uma ‘private’ porquê que o Daniel pressupõe que toda a gente sabe do que está a falar neste post?

  18. 18 18  David Fernandes

    Alto lá: querem ver que há cantinhos sagrados.

    Confesso que não vi o doc completo; já entrei em andamento e do que vi, não vi nada de nojento, sinceramente.

    Aliás, pareceu-me mais um doc sobre o que algumas pessoas pensam do poeta mais do que do homem.

    Desinteressante? Talvez. Mais interessante a obra? Inegável.

    Falar de alguém que não quer que se fale de si não é, apenas por isso, desrespeito. Ou isto é mentira para um poeta consagradissississimo e verdade para um outro qualquer mortal?

    Mas os poetas sabem das coisas e explicam: veja-se como recursar um prémio pode ser sinal de humildade e verticalidade, para uns, e vaidade e futilidade, para outros.

    Como diz um poeta (quem será?): “eu procuro dizer como tudo é outra coisa”; e é tudo o que há a dizer. Que curioso.

    Quanto ao mais, pruridos.

    Nojento é chamar múmia a alguém que, de facto, já não está no melhor da sua vida; isso sim, é nojento.

    Mas tudo pode ser outra coisa.

  19. 19 19  David Fernandes

    É um pouco off-topic (ou talvez não): quantos dos que acompanham esta indignação não misturaram antes, vida com obra, em casos como: Ezra Pound, George Oppen, T.S. Eliot, Gunter Grass, etc, etc, etc?

  20. 20 20  David Fernandes

    Desculpem lá a insistência (chamem-me mirone) mas eu gostava mesmo muito de o ver dizer, por exemplo, “ferocidade”, e isso nunca vai acontecer.

  21. 21 21  Antonio Fonseca

    Uma pergunta no espírito do documentário (intrusa): o Daniel também se recusou a participar no trabalho?

  22. 22 22  Daniel Oliveira

    Fado, o que deixa de ser nosso é a obra, nós nunca.

    João, não percebo porquê. A obra de Luiz Pacheco seria exactamente a mesma. Na minha opinião (que vale o que vale) seria talvez melhor.

    António, não preciso de lhe responder.

  23. 23 23  David Fernandes

    Daniel, não tenho andado pelo polo norte mas não sabia da relação. Mas agora que sei, ainda mais estranho o seu post.

    Ao falar disso, está paradoxalmente a publicitar algo que não quer público. O que significa que ignorar o caso seria o mais avisado, talvez.

    Acresce que está numa posição inatingível para todos nós … mas não imperceptível (no que perceber tem de alucinação, de irreal e injusto).

    Dar-me conta dessa sua posição “real” torna tudo muito estranho; seja como for, torna o post incomentável; há de facto cantinhos sagrados mas que um blogue dessacraliza. Não é estranho que não tenha referido o nome do poeta Herberto Helder uma única vez.

    Tudo é, mesmo, outra coisa.

  24. 24 24  peter

    Estou solidário Daniel!

    Olha, boas festas e preferia reedições, colóquios e discussão da obra… mas … bom bacalhau com todos para hoje!
    :)

  25. 25 25  Daniel Oliveira

    David, nem todos os posts são feitos para ser comentados. Por isso nem todos são comentáveis.

  26. 26 26  PRS

    Abstraír-se não deve ser fácil. É ou não relevante conhecermos o percurso biográfico de Fernando Pessoa? de Miguel Torga? de Virgílio Ferreira? de Mário De Sá Carneiro? O background familiar, escolar, profissional… o itinerário vivencial? Seremos voyeuristas por querermos saber que Torga nasceu pobre, pobre, e que viveu no Brasil, ou que Virgílio Ferreira viveu a infância ao cuidado das tias, que Pessoa nunca casou e que Sá Carneiro dedicou parte da sua vida à boémia e ao torpor dos cafés de paris? … a obra não é independente do percurso de quem a escreve. às vezes, o percurso do autor marca a transparência daquilo que se escreveu, ou pelo menos, ajuda a liquefazer a opacidade das mil e uma interpretações que hão-de vir…

  27. 27 27  Nuno Ramos de Almeida

    Daniel,
    Com todo o respeito pelo Herberto Helder e família. Acho interessante e relevante fazer-se um,ou mais, documentários sobre ele. Acho que a vida de alguém explica em parte o que somos. Aquilo que escreveste sobre o poeta aplica-se a outras pessoas. Por exemplo, Álvaro Cunhal nunca desejou que falassem da sua vida pessoal e, no entanto, ninguém defende que os documentários que se façam sobre ele não falem dessa faceta importante no percurso intelectual e político de alguém. Mesmo a biografia, de Pacheco Pereira que pretende recusar a devassa da vida privada de Cunhal, aborda, por exemplo, a natureza das relações com a mãe e com o pai…
    Sobre o documentário em questão, não o vi. Logo não me posso pronunciar.

  28. 28 28  agent

    “- Voçês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro…”
    Disse ele quando foi informado que lhe tinha sido atribuído o Prémio Pessoa (em 1994; sete mil contos!). :>

    Os elogios caem-lhe das mãos, a notoriedade explode-lhe na cabeça. Respeite-se, por favor, O poeta obscuro.

  29. 29 29  dendê

    Desculpa lá este prosaico, mas o conteúdo da sua crítica não se aplicaria na íntegra ao documentário que a RTP fez sobre Pinto da Costa?
    Alguém se incomodou com isso?

  1. 1 Na bloga. « Vida Breve

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