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«Andamos vigiados. Precisamos de contar anedotas sobre brancos, pretos, judeus, muçulmanos, gays, machos, mulheres, loiras, morenas, católicos, papas, padres, rabinos, alentejanos, açorianos, portuenses, lisboetas, o que for. Para ver se somos gente normal. Ou se só copiamos os estereótipos politicamente correctos.»
Francisco José Viegas, a propósito do anúncio da Tagus

Parece a nova obsessão: o espartilho do “politicamente correcto”. E sempre que leio estas coisas fico com a sensação que devo viver num país diferente. No país de muitos colunistas, comentadores e bloggers vive-se no pânico de ferir susceptibilidades. Vive-se vigiado por uma polícia dos bons costumes em defesa das minorias. No país que eu conheço, que deve ser outro, os gays são chamados de paneleiros e ninguém pensa cinco segundos antes contar, para gáudio geral, piadas sobre os “maricas” (o termo mais carinhoso que se conhece). No país que eu conheço as “bichas” são histéricas e quem não se diverte com a sua triste condição ou é hipócrita ou é um deles. No país que eu conheço a maioria dos homossexuais esconde dos pais, dos irmãos, dos amigos e dos colegas a sua orientação. No país que eu conheço quem se cala, quem é patrulhado, vigiando e condicionado e quem tem receio das reacções alheias são os homossexuais e não a brigada suicida do “politicamente incorrecto”. Com essa, quase ninguém se rala. E, apesar de menos generalizado, no país que eu conheço fala-se dos “pretos” como parasitas e criminosos e das mulheres como galinhas descerebradas, gastadoras do dinheiro dos maridos e fúteis bibelots. No país que eu conheço a «gente normal» dedica-se ao activismo proposto por Francisco José Viegas todos os dias. Se o seu apelo fosse ouvido não sei se alguém daria pela diferença. Novidade, talvez apenas nas anedotas sobre brancos e machos. Mas temo que não venham a ter grande sucesso.

A ver se nos entendemos: não tenho nenhum problema com anedotas de coisa nenhuma. Digo piadas sobre tudo em privado. Porque sou, de facto, «uma pessoa normal». Não faço de cada momento da minha vida um statement. Reservo-me o direito à incoerência, sem a qual qualquer pessoa se torna ou doida ou insuportável. Mas no domínio da vida pública não sou «uma pessoa normal». Por duas razões: porque isso não existe. A «normalidade» exige intimidade. Em público ela é tão fabricada com qualquer outra coisa. E porque não me acho suficientemete importante para que os outros queiram a minha «normalidade».

Por isso distingo, como qualquer pessoa civilizada (Francisco José Viegas incluido), o público e o privado. Porque o humor (como muitas outras coisas) depende dessa distinção. Em privado, com pessoas que conheço, há a cumplicidade do “não dito”. As pessoas que me ouvem sabem que não sou racista, não sou machista, não sou homofóbico. E eu, para além de saber o que elas sabem sobre mim, sei algumas coisas sobre elas. Sei como interpretam e reagem ao que digo. Tenho a certeza que Viegas não contaria uma anedota sobre judeus a um nazi. A razão é simples: falta a cumplicidade. O que para ele seria uma auto-ironia em relação às suas convicções (e aí reside parte da piada dos gays contarem anedotas sobre gays) seria ouvido pelo nazi de uma forma completamente inversa. E essa é uma das razões porque o humor em privado e em público são diferentes. Quando falamos para todos não sabemos como somos ouvidos.

O humor é a tragédia mais a distância, disse não sei quem. E esse é o meu segundo ponto. Uns dias depois do 11 de Setembro um comediante americano de Nova Iorque tentou fazer humor com o assunto num encontro com outros humoristas. Da plateia ouviu-se uma frase: “ainda é cedo!” Da mesma maneira, uma anedota sobre Auschwitz pode ser um insulto se contada na presença de um sobrevivente ou a um familiar. Para eles ainda é cedo. Está lá a tragédia, falta a distância. Vamos medindo até sabermos que já é possível. Para quem vive diariamente o segredo da sua homossexualidade, ou o olhar de esguelha no emprego, ou a incompatibilidade com a família e tem de aturar, todos os dias, a todo o momento, na televisão, no teatro de revista, no restaurante, no escritório, piadas inocentes sobre “paneleiros”, também é cedo. Não será, talvez, se for um amigo, alguém com quem tenha a tal cumplicidade. É se for um desconhecido ou alguém que essa pessoa sabe que despreza a sua opção. Faz diferença. Além de que, como se sabe, o que é demais enjoa.

Claro que Francisco José Viegas pode contar as anedotas que entender. E pode acusar muita gente de falta de sentido de humor por não achar grande graça. Eu digo aqui a única razão porque não acho: porque acho fácil. Viegas estaria apenas a procurar a simpatia da maioria sem beliscar as suas convicções. O que para ele seria visto como uma provocação seria, na realidade, ouvido, pela esmagadora maioria, como uma evidência. O humor sobre as minorias é tão legítimo como qualquer outro (não há humor ilegítimo e as minorias costumam ser o principal tema). É só mais cobarde. E pelo menos a mim a cobardia dá-me pouca vontade de rir. Em Portugal, prefiro piadas sobre católicos. É mais dificil e aí sim, como pode testemunhar Herman José, a censura pode fazer-se sentir.

Para acabar, uma notícia: Adolescente homossexual canadiano, de 14 anos, suicida-se depois de ter sido intimidado pelos seus colegas. O sofrimento extremo das vítimas do preconceito é muito mais comum do que algumas pessoas pensam, quando olham com bonomia para a homofobia. “Ainda é cedo”, digo eu da panteia. Quando isto for memória talvez tenha mais graça. Não tenciono ser polícia de ninguém. Apenas reservo para mim o mesmo direito que dou aos outros: o de achar ou não achar graça a qualquer piada. Um exemplo: achei muita a isto. Talvez porque tenha a auto-ironia de que falava. Ou talvez apenas porque tenha mesmo graça e eu não seja o campeão da coerência.


Sem respostas to “Ainda é cedo”  

  1. 1 Tarzan

    «A «normalidade» exige intimidade. Em público ela é tão fabricada com qualquer outra coisa.»

    Muito bem visto!

    Quanto ao resto posso não concordar mas está bem fundamentado, sim senhor. Um artigo brilhante. Hats off!

  2. 2 agent

    Exacto.
    Contrapôr orgulho gay e orgulho hetero é quase como pôr na mesma balança orgulho branco e orgulho negro, e isso faz algum sentido? Não! Basta perceber as principais causas para o qual cada um desses movimentos foram criados. Agora todo este novo e massivo movimento intelectual a favor da “genialidade” da campanha da Tagus vem dizer que o orgulho hetero e o orgulho branco tem a mesma legitimidade que os seus equivalentes, portanto deduz-se que a sua origem estará numa luta contra a opressão e discriminação.
    Vão fazer história, mas também vão precisar de melhores argumentos/provas para justificar as desigualdades e injustiças que todas essas terríveis ditaduras minoritárias os fizeram passar.

  3. 3 David Oppenheimer

    Caro Daniel

    Queria apenas dizer-lhe que este seu post é dos melhores que tenho lido há um bom bocado.
    Também eu estou cansado de ouvir falar da hegemonia do politicamente correcto, ao mesmo
    tempo que a homofobia, a misogenia, o racismo e o anti-semitismo resistem triunfalmente à
    modernização da sociedade portuguesa. Já agora, muito bom também o seu post sobre a Revolução
    Russa. Já agora permita-me a sugestão de nos vir visitar na Bóina Frígia. Acho que já nos
    conhece. Somos uma espécie de republicanos-de-esquerda-francófilos-ligeiramente-liberais.
    Mas muito laicos e - talvez o desiluda - com alguma empatia em relação a Israel.

    De qualquer forma fica aqui o nosso link

    http://boinafrigia.blogspot.com/2007/05/fracturantes-so-vocs-liberal-sou-eu.html

    http://boinafrigia.blogspot.com

  4. 4 Paulo Ribeiro

    Sim senhor, o texto é bom. Parece que a “nova casa” lhe trouxe um novo fôlego.

  5. 5 Tiago Mendes

    Há muito tempo que não lia um post tão bom.

  6. 6 Joao Galamba

    Daniel,

    merece ser repetido: este post está extraordinário

  7. 7 f.

    beijo-te a fímbria do vestido, daniel.

  8. 8 samuel

    Grande texto, Daniel!
    Parabéns!

  9. 9 Rita

    É bom finalmente alguém dizer tudo que tem de ser dito. Excelente texto.

  10. 10 Alberto Mendes

    Muito bom post.
    Parabens pela nova casa.

  11. 11 António Carlos

    Este post está excelente.
    A propósito basta lembrar o episódio do Ministro Borrego.
    Claro que a demissão foi correcta. Mas ninguém é hipócrita (eu pelo menos não sou)
    ao ponto de pensar que, em privado, não se teria rido da anedota (na altura circulavam outras bem mais “ofensivas”). O próprio ministro será concerteza uma pessoa “bem formada”.
    O que aconteceu então? Para além de ter sido contada em público, ainda para mais por um
    responsável público, “ainda não tinha passado tempo suficiente”.

  12. 12 MARIE

    sei que vou imitar os outros, Bravo!!! é um dos melhores artigos que li nestes ultimos tempos devia ser publicado para ser lido por todos os que se preocupam com o “politiquement correct”

  13. 13 brmf

    O post está muito bem escrito, mas esquece-se do essencial: o que a Tagus pretendeu criar com este anúncio é a tal intimidade de que o Daniel fala, a intimidade com os seus consumidores.

  14. 14 /me

    Brilhante.

  15. 15 What is in a name?

    A Tagus, criar intimidade com os seus consumidores? Só com os hetero, não?

  16. 16 josé Manuel Faria

    “Ainda é cedo”, foi mesmo na hora. Parabéns.

  17. 17 João

    Obrigado, Daniel.

  18. 18 filinto

    É politicamente correcto ser politicamente incorrecto, o que quer que ambas as coisas sejam.

  19. 19 cris

    Tudo dito. Obrigada por este texto para memorias futuras, enquanto ainda eh cedo.

  20. 20 Pedro Morgado

    Assino por baixo. Texto absolutamente excepcional.

  21. 21 Piscoiso

    Só não percebo porque o “correcto”, ou o “incorrecto”, tenham de ser “politicamente”.
    Até porque o “correcto”, ou o “incorrecto”, dependem da circunstância.
    Quando me dizem que o homem é um animal político, interpreto com havendo políticos que são animais. ;)

  22. 22 maria João F.

    Fantastico, se fizer o link ao “avatares do desejo” certamente terá uma surpresa agradavel. Muito bem escrito, fiquei comovida, tocou-me. :-)

  23. 23 Tiago Antao

    A analise peca por um defeito: Os dois paises existem, em paralelo.

    O pais “escondido”, racista, homofobo, praxista. Onde fazer ma cara de uma anedota de “pretos” e’ mal visto.

    O pais “dos jornais”, onde e “politicamente incorrecto” (ie, censurado de alguma forma) falar de muita coisa. Nao e’ apenas os temas queridos a esquerda nas chamadas “liberdades individuais”. Ve la o que acontece, por exemplo a quem defenda a nacionalizacao da Sonae ou a saida da UE? Nem o PC consegue dizer isso a ceu aberto. Mais, e politicamente incorrecto ser marxista, veja-se por exemplo o caso do BE, de certeza que a maioria de quem la manda e’ de facto anti-capitalista, marxista, revolucionario, etc, mas o partido veste uma capa “social democrata”, com propostas bem reformistas.

    E politicamente incorrecto ser marxista, e politicamente incorrecto ser homofobo.
    Isto tudo e possivel, em paralelo com um pais bem racista e homofobo la no fundo.

    A hipocrisia do politicamente correcto aliada ao conservadorismo reinante dao-me vomitos.

  24. 24 ezequiel

    esplendido post *****

    parabéns!

  25. 25 Ana Matos Pires

    Bravo. Um beijo grande e um abraço forte.

    Ps: Reconheço, em absoluto, o país que tu conheces, Daniel. O país onde, nos últimos seis meses, me passaram pelas mãos, na urgência, três adolescentes espancadas pelos pais quando lhes contaram do seu lesbianismo. Divertidíssimos, os politraumatismos…

  26. 26 VDIAS

    Que raio é uma minoria?!?!?!?

    Não é politicamente correcto fazer humor inteligente, mas é correcto catalogar pessoas…?!?!?!

  27. 27 pedro oliveira

    Virtudes públicas, defeitos privados?
    Há quem lhe chame hipocrisia…
    O miúdo canadiano tinha treze anos e era negro ou seja duplamente minoritário.
    Têm (o Daniel e a Fernanda Câncio) mesmo a certeza que o miúdo se suicidou por causa das bocas dos colegas?

  28. 28 David Fernandes

    “Ps: Reconheço, (…) O país onde, nos últimos seis meses, me passaram pelas mãos, na urgência, três adolescentes espancadas pelos pais quando lhes contaram do seu lesbianismo.”

    Lapidar Ana, lapidar. O seu raciocínio ilumina toda a questão; o espancado sem motivo (ou por motivos mais usuais como, por exemplo, má disposição pura e simples do pai) é uma espécie de marchante de uma parada hetero.

    (Ia falar em terrorismo mas, como é claro, seriam extrapolações abusivas e sem sentido).

  29. 29 ifigueiredo

    Depois de tanto elogio, beija mão e outras práticas habituais em déspotas iluminados, vejo-me obrigado a comunicar ao grande educador e moralizador da nossa sociedade, o inefável autor deste blogue, o seguinte:
    1. contrariamente a todos os lambe botas anteriores, não me revejo no país de Daniel Oliveira, nem é esse, por certo, o país onde vivo. Como em tudo na vida, não existe um só Portugal, existem vários que têm a ver com os nosso amigos, o espaço onde habitamos, os locais que frequentamos, a literatura que lemos, a TV que procuramos, etc., etc.. Surpreendente, é um rapaz que se assume como de “esquerda como o carago”, vir finalmente escrever que este seu Portugal é xenófobo, homofóbico, animalesco, fascista, inculto, violento, e por aí fora. Por onde é que você anda habitualmente, ó Daniel? Aí pelos bairros lumpen-proletariado qualquer coisa, ou nos lumpen-chic de Cascais? Porque é que você, em vez de ir passear de fato de treino lilás, aos domingos, para o Centro comercial mais próximo, não vai até a um museu ou ver uma exposição? Porque é que você, em vez de ir a uma tourada para se mostrar ás suas amigas tias e ao padrinho Balsemão, não vai antes ao teatro do Bairro Alto ver o que (de bom) por lá se faz? Porque é que você, em vez de ir beber umas imperiais e comer uns caracóis na tasca do lado, não vai ao King ver um bom filme? E já agora, porque é que você, em vez de andar a mandar palpites idiotas e moralistas na SIC e no Expresso (exemplos de boa coisa, de tudo bom…), não se entretem a ler um bom livro ou ir até à Ler Devagar passar um bom bocado? Porque, pelo que facilmente se entende, não é o seu mundo, não é o “seu” país. Isso não lhe dá o direito de generalizar e de tudo julgar pela sua bitola.
    O problema é que o racismo e a xenofobia existe onde você menos espera (ou melhor, finge não ver); o problema é que as anedotas sobre paneleiros (obviamente inofensivas, como as anedotas sobre alentejanos o são, ou sobre o menino Zequinha, ou sobre hospitais, sobre putas, sobre benfiquistas, sobre o que quizer) nada têm a ver com homofobia. E diga-me lá, dê-me um exemplo sério: a rapaziada gay, em Portugal, é excluida em quê? Ou quer exemplos contrários?

  30. 30 Francisco Crispim

    Concordo com tudo, excepto com aquela parte em que o Daniel chama civilizado ao Viegas.
    Isso é que é distracção…
    Podia chamar-lhe escritor, sei lá, ou coisa que o valha, como é uso chamar-se agora a gajos que produzem prosa marada, como o Sousa Tavares e o Rodrigues dos Santos.
    Mas civilizado, caramba, não será excessivo?

  31. 31 alx

    no dia em que presenciar os orgulhosos gays que nada têm a perder a assumirem a “sua identidade” talvez pense no assunto, até lá, a discussão só interessa: -aos gabinetes de psicólogos/psiquiatras que cedo perceberam o mercado e o trabalho que aí se encontrava (apesar da “perfeita normalidade”); e a quem precisa de sentir “a amizade” para poder defender alguma coisa.

    inté

  32. 32 peter

    excelente Daniel.

    e obrigado!

  33. 33 ifigueiredo

    Ó Daniel: você em vez de censurar (esse seu jeito sempre a fugir para ao mesmo…) um comentário sem qualquer importância, mas também rigorosamente nada ofensivo, mais valia responder a outros comentários que, entretanto, por aí fui escrevendo.
    Vá lá, homem, deixe-se das frases feitas e dos eternos pre-conceitos e responda pela sua cabeça. Mas só pela sua cabeça, tá bem?

  34. 34 Francisco Claro de Oliveira

    Quero comentar sobre o meu avô que eu não sei onde ele está..e eu quero muito encontrar ele..Tomara que eu consiga a encontrar ele!

  1. 1 Adufe 4.0 | Sobre gays, lésbicas e heteros (act. 30NOV2007)
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