Confesso que mantive alguma expectativa sobre as reacções dos bloggers de esquerda – os bravos que correram a subscrever o manifesto “Todos pela liberdade” – ao texto conjunto do Arrastão que educadamente recusava uma associação a esta corajosa manifestação de liberdade. Não espero muito da Direita; e confirmei que dali não virá nada de novo para além do que já foi exposto na nossa reacção: desdém e insultos mais ou menos velados, vindos de pessoas que se mantiveram nas suas casas quando, por exemplo, Santana Lopes tentou calar as vozes discordantes ou que aplaudiram todas as vezes que Sócrates cedeu ao impulso natural do autoritarismo. Mas da Esquerda espero sempre o melhor, ou pelo menos que me divirta quando com ela não concordo.
A parte da diversão foi logo à partida oferecida de bandeja por Carlos Vidal (quem mais?); saltando várias etapas numa discussão, começou logo por fazer uma associação mais ou menos enviesada ao Nazismo, colando à nossa posição a velha máxima do “se não estão connosco, estão contra nós”. Tal voluntarismo acabou por ser amenizado dentro do Cinco Dias, e folgo em saber que a liberdade interna também existe naquele blogue, depois de ler os textos do Zé Neves (excelente, por sinal) e do Ricardo Noronha.
Nas caixas de comentários dos vários textos escritos pelos arrastões sobre o assunto, encontro dois insultos: o texto era pateta; mas há gente que diverge e acha o texto ridículo. Ridículo, pateta, pateta, ridículo. Ora, parece-me que nesta falsa dialéctica falta o essencial: o porquê. Ridículo porque chegámos a um consenso? Pateta porque decidimos dissociarmo-nos de uma manifestação? Ridículo porque justificámos publicamente as razões? Pateta porque, apesar de acharmos que um limite ético perigoso foi há muito ultrapassado pelo Primeiro-Ministro, não é a esta manifestação – instrumental, dirigida, hipócrita – que nos queremos juntar? Ridículo porque decidimos pensar em vez de agir?
Vamos lá ser sérios: a derrocada deste Governo é uma questão, vá, de tempo. E Sócrates irá cair não porque, de forma canhestra, tentou controlar os media, mas porque não tem demonstrado capacidade para liderar o país, desde o primeiro momento. Se outra prova não houvesse que demonstrasse as suas parcas aptidões para o cargo, bastaria a avalanche de descontrolo em que caiu perante quem dele discorda. Entre o histerismo e a ingenuidade – quem se lembraria de ser apanhado a conspirar para comprar vários grupos de comunicação em escutas paralelas que nada têm que ver com o caso? – Sócrates vai caindo na teia que urdiu. Preocupa-me mais aquilo que não é revelado – manobras de bastidores na guerra Governo-Presidência; controlo dos grandes grupos económicos por figuras próximas do PS. Ah, mas esperem, não é que o PSD – e os “revolucionários” que agora convocam a manifestação – nada diz sobre o assunto? Não se insurge, não pede para investigar, não protesta?
O jogo das cadeiras é para continuar, parece-me; mas a mim não me verão a concordar com o faz-de-conta do puro calculismo político evidenciado por quem convocou a manifestação. Será que posso?
13 comentários 9 Fev 10 em Liberdade, Política13 respostas ao post “A liberdade e outras histórias”
- 1 Pingback on 10 Fev 2010 às 11:01





Pela parte que me toca, acho que o Sérgio Lavos não tem lido O Insurgente, ou o Blasfémias onde escrevia antes. São vários os textos onde se criticam as escolhas de Vara – ainda nos tempos da CGD – ou o assalto ao BCP, patrocinado pelo BdP, ou as negociatas da Compal, enfim, toda uma série de acérrimas críticas.
Podemos não gostar do Insurgente, agora, acusarem-nos de uma agenda que não seja a nossa é completamente desadequado.
Já agora, no Insurgente o PSD está em minoria absoluta: se fosse a votos, tinha uma bancada parlamentar ainda mais pequena que a do Bloco de Esquerda na AR.
RAF
[Responder]
Talvez alguns dos subscritores critiquem as operações económicas do Governo PS, mas certamente o PSD se tem mantido calado, assim como o CDS. E se é verdade que o RAF é uma dessas vozes críticas – leio o Insurgente o os Blasfémias qb – também é verdade que não tem havido em relação a esse assunto o forcing que sucedeu com este. E quer-me parecer que o corporativismo tímido que este regime tem cultivado é tão perigoso como as tentativas de controlo dos media por parte dos sucessivos governos.
[Responder]
Estamos fartos de «empatas».
Não deixam nem saem de cima!
[Responder]
Em vez de contar os insultos, podia responder às questões válidas levantadas. Há o hábito no arrastão de só responder ao que é fácil. Eu discordo do texto porque, entre outras coisas não é claro nas intenções. Não assino. Agora, justificar não assinar por causa de quem subscreve o texto é fraco motivo. Se eu não quiser assinar, arranjo defeitos na actuação de qualquer pessoa, seja por acção ou omissão. Se o texto for claro, independentemente de quem o assine, não se tiram segundas intenções. Uma petição tem que ser clara.
[Responder]
a derrocada deste Governo é uma questão, vá, de tempo. E Sócrates irá cair
De maduro? Portanto, é só esperar?
Entre ridículo e pateta? Hum… escolho definitivamente pateta.
[Responder]
Por mim elogio a posição do Arrastão (daqueles que no Arrastão entenderam não se associar ao manifesto bloguista) e as razões que apresentaram para o fazer. No fundo este manifesto não se afasta muito (no seu espírito) da campanha miserável que o Público de José Manuel Fernandes alimentou durante anos contra Sócrates, tendo como único resultado o descrédito dum jornal que em tempos foi de referência. Não é com demagogia que se combate o demagogo maior e as declarações dos membros do Arrastão são um exemplo a seguir. Parece-me é que haverá pouca gente a perceber a justeza da posição tomada.
[Responder]
MANIFESTAÇÃO “PELA LIBERDADE” …. ??????
Para quinta-feira, 11 de Fevereiro, em frente à Assembleia da Republica está convocada uma manifestação “pela liberdade” .
Quem a convoca são bloggers que se apresentam como “da direita à esquerda” …
A defesa das liberdades é um assunto demasiadamente sério para ser tomado por uma espécie de albergue espanhol onde tudo entra: a direita, a esquerda e os que esperam por nova oportunidade, para voltarem novamente ao poder e repetirem o que já fizeram, igual ou pior que Sócrates.
A defesa das liberdades, hoje em dia, é sobretudo a defesa de um direito que tem sido progressivamente subtraído a pessoas e a movimentos sociais.
A liberdade de opinião e de expressão nas empresas, incluíndo as de comunicação social, é usada selectivamente pelas Administrações dessas empresas ou então até fica à porta …
A liberdade das empresas é sobretudo a liberdade das administrações dessas empresas poderem fazer à vontade o negócio que mais lhes convém, nem que para isso os trabalhadores fiquem sem nenhuns direitos …
Para isso, dá muito jeito ás administrações das empresas ter um poder político com quem possa negociar, já que esse poder também se esquece muito depressa da vontade popular expressa democráticamente em eleições.
O poder político e o poder económico têm andado, desde há anos, escandalosamente, de mãos-dadas. É uma realidade que não é só de hoje!
Os promotores da referida Manifestação não estão interessados em denunciar a aliança que existe entre o poder económico e o poder político, porque, alguns desses promotores, também beneficiam dos proveitos daquela aliança …
Alguns dos promotores utilizam a “liberdade” como alguns partidos da extrema-direita utilizam a palavra “liberdade” nas suas siglas … só serve para isso, mais nada!
Os ataques que hoje em dia se repetem sobre as liberdades e a democracia tem a ver como uma consequência do quadro politico e económico neo-liberal que tem vindo a criar uma nova forma de totalitarismo nas sociedades ocidentais: os Estados e as empresas exercem um controlo imenso sobre a iniciativa social e politica das pessoas e dos movimentos sociais, e, as leis passaram a ter uma aplicação selectiva baseada em critérios de classe e políticos!
As liberdades precisam de ser defendidas! Precisam todos os dias! Mas essa é uma parte da luta pelo socialismo como alternativa ás consequências sociais, económicas e politicas do capitalismo na vida concreta das pessoas.
Os promotores da Manifestação criticam José Sócrates, mas o seu objectivo é, tão só, favorecer uma espécie de presidencialização do regime, já que Cavaco Silva é identificado como politicamente afecto à área politica de muitos dos promotores.
Cavaco Silva não é alternativa a José Sócrates, tal como José Sócrates não é alternativa a Cavaco Silva … até porque AMBOS têm culpas sérias nos ataques que têm sido feitos às liberdades e à democracia.
A defesa das liberdades e da democracia precisa de clarificação social e política! E para começar seria importante, vital, urgente que liberdade e democracia entrassem em todo o lado da sociedade! Nunca ficassem à porta, nem fossem vistas como obstáculos, entraves, aborrecimento para o que quer que seja …
Participar na manifestação de quinta-feira seria como pedir à raposa que tomasse conta do galinheiro … isso NÃO!
[Responder]
José Peralta Reply:
Fevereiro 10th, 2010 at 18:14
Felicito-o, efusivamente, pelo seu texto.
Discordo em absoluto. Leia o texto, concorde ou não, mas não pense em demasia. Faz cálculos políticos onde eles não devem existir, faz processos de intenções descabidos, enfim… liberte-se.
Cumprimentos
José Mexia
[Responder]
Meu caro jpf
Simplesmente, magnífico!
Um grande abraço.
[Responder]
Mas estes foram os que vos responderam melhor.
http://www.aventar.eu/2010/02/10/nem-todos-pela-mesma-liberdade-e-que-cada-um-tenha-a-sua/
[Responder]
Ridículo e pateta porque as ofensivas contra o povo estão a ser feitas há muito tempo. O código do trabalho, a pobreza crescente, o delapidar do erário público contínuo em favor de “alguns”, a mercantilizaçao do ensino e a sua “desdemocratização” e suas consequências, as offshores como forma que enfraquecer o orçamento de estado e das políticas sociais. Todos estes problemas já deveriam ter feito sair à rua toda a gente. E agora querem fazer uma manif para derrubar o governo porque um semanário divulgou um despacho de um juíz em que é referida a possibilidade da PT comprar a TVI?!
Está tudo descentrado das prioridades do país!!!
Neste país toda a gente pode ter um blog e escrever o que quiser. O crescimento exponencial de blogs e de pessoas influentes que os usam como veículo das suas opiniões está à vista! Ainda se queixam de falta de liberdade de expressão?
Quando alguém for interpelado pela autoridade porque teve uma opinião negativa sobre o governo ou o primeiro-ministro ou quando alguma manifestação for violentamente reprimida e desautorizada sem qualquer fundamento, então aí sim, contem comigo.
Até lá, Portugal é um oásis de liberdade.
O
[Responder]