A estratégia com Sá Fernandes tem sido simples: pô-lo sempre a justificar-se. As coisas não precisam de ser graves, não precisam ser sequer notícia. Desde que tenha de se justificar está onde quer que estejam: à defesa. Já Carmona Rodrigues, arguido num mega caso de corrupção, passeia pela campanha como se nada fosse, sem ter de dar explicações políticas de coisa nenhuma. Vai ser assim até ao fim da campanha. Não é preciso nenhuma cabala. Basta que alguém se dê ao trabalho de, diariamente, ir soprando coisas sobre Sá Fernandes. Umas mentira, outras meias-verdades, outras verdades que omitem os restantes candidatos. Como se tem visto na relação com a blogosfera, os jornalistas são o que há muito são: escribas das investigações dos outros.


E hoje, último fim-de-semana de campanha, mais uma notícia sobre Sá Fernandes, como não podia deixar de ser. Neste caso inclui António Costa, o que é uma novidade a assinalar e a aplaudir. Nos dois diários que por coincidência fizeram a mesma investigação no mesmo dia, com os mesmos argumentos, os mesmos dados e as mesmas informações. Nada como as notícias que já vêm feitas. O “Diário de Notícia” esqueceu a de falar de António Costa e concentrou-se no candidato mais relevante.

Ao que parece o Grupo Parlamentar do BE contratou os assessores de Sá Fernandes. Ao que parece não voltaram para a a câmara porque não eram funcionários da câmara. São pagos pelo dinheiro do BE, o que é escandaloso.

Os assessores que trabalhavam para Sá Fernandes contratados pelo grupo Parlamentar não custam nem mais um tostão ao erário público. Nem um tostão. É dinheiro do orçamento do grupo parlamentar que o grupo ou gastaria com eles ou com qualquer outra coisa. Por isso, confesso, não cheguei ainda a perceber onde está a notícia. O BE gasta o dinheiro que lhe está destinado para não deixar pessoas que contratou sem salário durante três meses, já que ao contrário dos assessores dos outros partidos não os colocou nos quadros da administração local. Eles continuam a fazer trabalho político, que é aquilo para que servem os assessores partidários. Onde está a notícia?

O “Público” inventa uma teoria que depois, no fim, é só meia teoria: são consideradas receitas não permitidas “receber ou aceitar quaisquer contribuições que se traduzam no pagamento, por terceiros, de despesas que aproveitem à campanha”. Terceiros? Agora o BE é um terceiro na campanha do BE para Lisboa? Mais: foi já o próprio tribunal constitucional que esclareceu que os funcionários partidários podem trabalhar na campanha, como, aliás, sempre fizeram. Mas esse pormenor não vinha no pacote da notícia.

Fui assessor de imprensa do BE durante quatro anos. Era funcionário do mesmíssimo grupo parlamentar. Trabalhava no Parlamento. Fiz, enquanto assessor, uma campanha presidencial, uma campanha europeia e várias campanhas legislativas. Em todas elas fui assessor das campanhas e era pago pelo grupo parlamentar do orçamento que está disponível para ele e que não depende de ter mais ou menos funcionários. Os jornalistas, todos os jornalistas de política, sabiam isso. Nunca foi notícia. Nunca! É normal que não fosse. Sá Fernandes não era o candidato e ninguém andava a soprar “old news” como se fossem notícias..

Escreve o próprio “Público”: «a utilização de meios humanos dos grupos parlamentares nas campanhas eleitorais não é ilegal, sendo até bastante comum. Todos os partidos o fazem, mas, nos casos do PSD e do CDS, os assessores continuam residentes no Parlamento, onde são vistos todos os dias e respondem a todas as solicitações.» Estamos a brincar, não estamos? Ou seja, podem trabalhar para a campanha, mas só se for um bocadinho. Se forem meias-contribuições de terceiros já pode ser? E quando são campanhas presidenciais ou europeias, feitas quase sempre fora de Lisboa, os assessores de imprensa em campanha também “continuam residentes no Parlamento, onde são vistos todos os dias”? Não. E alguma vez isso foi notícia? Os argumentos para justificar esta notícia são de um rigor assombroso.

O que a notícia não refere, apesar da jornalista o saber, é que a maioria dos assessores do CDS, PCP, PS e PSD, assim como os de Carmona Rodrigues, continuam a receber da Câmara, porque são funcionários da dita. Os do BE deixaram de ser uma despesa da câmara e passaram a ser um despesa do BE. E, nesta campanha em que está tudo de pernas para o ar, é isso que parece grave.

O assessor de imprensa do grupo parlamentar do CDS é o assessor de imprensa do candidato Telmo Correia. É funcionário do grupo parlamentar e está a fazer campanha (como é natural e sempre aconteceu). E os jornalistas sabem. Isso não é uma contribuição de terceiros, na estranha concepção legal do “Público”?

Vários funcionários do grupo parlamentar do PCP na Assembleia Municipal estão a fazer a campanha do PCP. Carmona Rodrigues usa assessores da câmara, pagos pela câmara, para lhe fazer a campanha, isso sim absolutamente irregular e desleal. Nem uma linha sobre nada disto nas duas notícias. Porque não sabiam? Sabiam. Mas dá um trabalhão fazer notícias que não vêm já feitas. Claro que se pode dar o caso dos dois jornalistas, do DN e do Público, terem lido as mesmas nomeações no mesmo dia quase à mesma hora no Diário da República. Tenho a certeza que sim.

Já agora, sobre os assessores, gostava de dar uma informação que também nunca saiu nos profundos dossiers sobre o tema: feitas as contas, e contando com os salários dos funcionários da câmara destacados para o apoio aos gabinetes dos vereadores, o gabinete de Sá Fernandes é o que menos dinheiro gasta com salários e despesas. Porque é que foi ele a notícia? Pela mesma razão que foi ele a notícia desta vez. Não existe investigação no jornalismo português. Existem pessoas que sopram umas coisas aos jornalistas. E existem jornalistas que as escrevem sem querer saber mais. Não é nenhuma cabala. É porque isso faz-se num fim-de-tarde. A investigação dá muitíssimo mais trabalho.


Sem respostas ao post “Notícia trapalhona”  

  1. 1 1  Fado Alexandrino

    Muito obrigado.
    Uma notícia assim comentada por um insider tem muito mais valor.
    Quer então dizer que há um orçamento que tem que ser gasto, quer seja ou não necessário fazê-lo.

    Ou então entendi tudo isto mal.
    Claro que o que se aplica, no meu texto presumo, aplica-se a todos os outros partidos.

  2. 2 2  Daniel Oliveira

    O orçamento fica sempre abaixo das necessidades, como em qualquer lado. Um partido pode é cortar numas coisas para gastar noutras. Quer saber qual era o meu salário de assessor de imprensa? Fica uma dica: um terço do que recebo para escrever no Expresso e falar na SIC. Metade do que recebia antes como jornalista. Quer que continue? Foi o meu salário mais baixo nos últimos 20 anos. Em termos absolutos. Porquê? Porque o BE preferia ter mais assessores com salários mais baixos. É uma escolha. Neste caso cortou em despesas para não deixar estes funcionários seus sem salário e poder usa-los em trabalho político.

    Já agora, um dos assessores é autor da proposta de lei dos solos feita para o grupo parlamentar.

  3. 3 3  Bang Bang

    Daniel,

    espanto-me como ainda compras o Público!!! Ainda não percebeste que estas “noticias” são todas fabricadas por JMF? Não sabes que JMF é um ex-UDP que tem como missão de vida acertar contas pessoais passadas?Também ainda não percebeste que o Público é a voz do patrão, leia-se Belmiro?

  4. 4 4  Bang Bang

    Daniel é para leres o Rui Tavares? Recordo-te que sempre o podes ler no “Pobre e mal agradecido”.

  5. 5 5  renegade

    A julgar pela última sondagem estão quase a conseguir que o Sá Fernandes não seja eleito. Foi parvo, devia ter aceite o suborno da BragaParques e das outras mafias, como outros aceitaram. Ter a coluna vertebral direita só dá chatices.

  6. 6 6  a.pacheco

    Sabe-se que a Braga Parques tem um contrato com uma empresa de comunicação.

    Sabe-se que a Santa Aliança
    PCP-Carmona Rodrigues-Soares Franco-Grupo Amorim-Correio da Manhã -24 Horas, a que como se vê se juntaram agora o Publico e o DN, têm como objectivo destruir Sá Fernandes, nunca, tirando o caso de Ferro Rodrigues, se viu uma tão bem orquestrada campanha de destruição de um cidadão , é o país que temos, mas sobretudo são OS JORNALISTAS QUE TEMOS.

    E assim tentam evitar que se discutam os reais problemas de Lisboa.

  7. 7 7  Fado Alexandrino

    Posted by: Daniel Oliveira | julho 7, 2007 12:21 PM

    Muito obrigado.
    Não me fiz entender, erro meu.
    Quanto ao que ganha, não me interessa para nada e acho que vale o que pesa (sem qualquer ironia), escreve bem, é assertivo, conhece muita gente e é uma espécie de comunista moderno.

    O que eu queria demonstrar é que há um orçamento entregue a cada partido que o gasta sem qualquer controlo externo e que, pior que isso, o gasta quer seja ou não necessário.
    Ou seja, a Assembleia da República tem uma determinada dotação e espatifa-a toda e pelo que conheço ou imagino conhecer dos políticos portugueses, mais viera mais iria.

  8. 8 8  ezer

    http://leiriaemcuecas.blogspot.com/ de 3ª feira explica com é!
    Com esta gente tão,mas tão democrática não vamops lá .Num estado de direito o Carmona ia logo dentro mais os outros todos.E mais nada!E esses jornalistas unsa trabalhar para o patrão só escrevem aquilo que ele quer dizer!É por isso q os media privados e liberdade de impressa são uma treta,’como’ Q.E.D!

  9. 9 9  ezer

    http://leiriaemcuecas.blogspot.com/ de 3ª feira explica com é!
    Com esta gente tão,mas tão democrática não vamops lá .Num estado de direito o Carmona ia logo dentro mais os outros todos.E mais nada!E esses jornalistas unsa trabalhar para o patrão só escrevem aquilo que ele quer dizer!É por isso q os media privados e liberdade de impressa são uma treta,’como’ Q.E.D!

  10. 10 10  antonio malaquias

    É tudo verdade, menos a última parte do post. o gabinete do CDS na Câmara era, de longe, o mais barato. Tinha dois assessores políticos e um assessor de imprensa.

  11. 11 11  Daniel Oliveira

    antonio malaquias, tem de contar com os requisitados à Câmara. e depois ver qual o ordenado de cada um. Estou a fazer o levantamento com a ajuda de uma pessoa. Veremos o que consigo.

  12. 12 12  Tonibler

    De todos os trafulhas, Sá Fernandes é o menos trafulha? A ideia é essa?
    E como noticiam as trafulhices do BE, sem noticiarem as trafulhices dos outros, então os jornalistas são desonestos?

    Oh Daniel, jornalista honesto é como um elefante albino. Sabe-se que pode existir mas, de facto, nunca ninguém viu.

  13. 13 13  Daniel Oliveira

    Tonibler, Sá Fernandes é trafulha porquê?

  14. 14 14  a.pacheco

    Antonio Malaquias olhe que não.

    O Expresso trazia o nome das 9 pessoas que calaboravam com a Nogueira Pinto,e não vi da parte da ex-vereadora e do CDS qualquer desmentido.

    E talvez esteja aí o problema, o PSD o CDS e PCP o PS requisitaram á Camara pessoas da sua confiança, que em mandatos anteriores tinham já metido nos quadros da dita

    Por isso poderam dizer que só contraram poucas pessoas.

    Como o Bloco nunca arranjou empregos na Camara para pessoal da sua confiança, teve de contratar gente de fora para ajudar a fazer o trabalho.

    Só que quando a Camara caiu, as pessoas que colaboravam com o BE , ficaram sem trabalho.

    As do PCP do PS do CDS do PSD, que tinham sido contratadas para essa função tambem.

    As pessoas do PS PSD CDS e PCP, que já eram empregadas da Camara mantiveram o seu lugar nos quadros.

    Por isso é pouco curial dizer que Nogueira Pinto só tinha dois assessores, ou já agora que o Ruben tinha 3 ,NADA MAIS FALSO.

    Mas realmente o busilis chama-se Domingos Nevoa e as cassetes.

    Se o homem fôr a julgamento, pôe a boca no trombone, e disso que têm muito medo, os partidos com paredes de vidro ( eu dizia telhados) os rosas do Largo do Rato, os laranjinhas da Lapa, e os amigos do Largo Adelino Amaro da Costa.

    Por isso esta Santa Aliança , do pior que a partidocracia tem, aliada ao mau jornalismo, e a certos empresários sem escrupulos.

  15. 15 15  Miguel Nascimento

    A sério? Existe uma Santa Aliança para destruir o cidadão Sá Fernandes? CONTEM COMIGO! Mete o nome Miguel Nascimento nesse rol!!!

  16. 16 16  Sebastião Dias

    Daniel, sempre me meteu muita confusão a rotativifdade estranhíssima de todos os deputados do bloco de esquerda. São eleitos, estão lá uns meses, saem, tornam a voltar, caem entretanto uns para-quedistas novos. Não sei qual a explicação subjacente a esta situação, mas acho que desvaloriza o papel do deputado que expressamente eleito por um determinado número de pessoas. E, claro desprestigia o parlamento. Transforma-o na casa da Joana.

    Quanto ao que se passava na Câmara não se de nada. Tinham a mesma política na camara com os seus acessores?

  17. 17 17  Tonibler

    Daniel,

    ” o gabinete de Sá Fernandes é o que menos dinheiro gasta com salários e despesas. Porque é que foi ele a notícia?”.

    Como o resto do post é feito a dizer que os outros são trafulhas, a conclusão, com esta pergunta, é que o Sá Fernandes é menos trafulha. E, veja-se lá, que os assessores estão a ser pagos com dinheiro que o BE ia gastar na mesma. Estou esmagado com tanta moralidade….

  18. 18 18  Daniel Oliveira

    Não ia gastar na mesma. É o seu orçamento. Ainda não percebeu o conceito?

  19. 19 19  a.pacheco

    Para certa imprensa, os reus nesta campanha NÂO SÂO:

    Carmona Rodrigues e o PSD pelo descalabro que foi esta presidência, e pelas jogadas de Marques Mendes.

    O PS pela incrivel oposição Gaioso Ribeiro-Dias Baptista-Carrilho

    A pseudo oposição colaborante de Ruben de Carvalho e do PCP.

    Não o reu é quem foi oposição, quem não calou as negociatas, quem denunciou os empreiteiros corruptos, mas tambem quem foi capaz de apresentar propostas sérias e crediveis para a cidade, José Sá Fernandes.

    Estranho, talvez isto diga muito do estado a que se chegou , na incapacidade que os cidadãos têm de pedirem contas aos politicos pelos seus actos.

    A abstenção é a forma que muitos encontram para responder a este estado de coisa, o que é totalmente errado.

    Se os cidadãos se desinteressarem dos destinos da sua cidade, haverá muitos oportunistas que não deixaram de aproveitar esse facto.

    Quanto ao sr. Nascimento, só lhe posso dizer, que não se pode agradar a gregos e troianos.

  20. 20 20  tonibler

    É o seu orçamento, mas é o meu dinheiro. Ninguém é preso por gastar o orçamentado, sabias???? Mas, por gastar, há milhares de pessoas que ficam sem emprego porque vou precisar de aumentar impostos! É este a preocupação BE com os mais fracos? Ou os mais fracos já são todos funcionários do BE e, como tal, o Sá Fernandes já pode usá-los à vontade? É chato quando não se pode usar o argumento de que os outros são piores, não é? ;)

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