Post long size sobre um livro recente. E incómodo.

Durante anos, a guerra (a “Colonial”, a “do Ultramar”) permaneceu tema intocável para a maioria dos portugueses que nela participaram como combatentes. Enquanto durou, os militares não podia comentá-la sem correrem riscos. Depois, morto o império, começou a circular que todos a tinham travado contra a sua consciência. Parecia que todos haviam sido anticolonialistas, preferindo fazer-se de conta que o passado colonial estava morto e enterrado. Quem tentava falar do assunto, batia invariavelmente numa parede de silêncio que tornava impossível perceber o lado humano e não-oficial daquilo que acontecera. Pelos anos oitenta começaram então, timidamente, os almoços de confraternização, geralmente preenchidos com as épicas aventuras partilhadas aos vinte anos ou com fanfarronices sobre “turras” e “pretas”. Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.

Outro tema, porém, continuou oculto, ou pelo menos mascarado e entrecortado por longos silêncios: a vida dos civis portugueses que povoaram os territórios africanos foi provisoriamente apagada. E os muitos que voltaram à terra de onde haviam partido, ou de onde tinham saído os seus pais, foram, depois de marginalizados mais pela sua diferença cultural do que por uma eventual cumplicidade no sistema colonial – efectiva em alguns casos, muito relativa noutros –, forçados a integrarem-se para que pudessem ser reconhecidos como portugueses normais, e não como perversos “retornados”. Tem sido elogiada a forma como foram incorporados na vida do país, muito mais rápida e supostamente indolor do que a vivida pelos franceses pied-noirs obrigados em 1962 a saírem da Argélia. Mas esse processo, aparentemente pacífico e “exemplar”, foi feito à custa do apagamento de histórias de vida, de valores, de costumes, de recordações, que eram os daqueles que haviam regressado ou chegado pela primeira vez à “metrópole” em 1974-75. De certa maneira, foi uma violência o que se passou, e foi ela – associada, por vezes, à perda dos privilégios ou das facilidades que muitos tinham conhecido em África – que levou muitos desses portugueses de torna-viagem a romantizarem ou a fantasiarem a vida que um dia tiveram, ou imaginam que tiveram. Uma vida perfeita, feita de bem-estar, de praias, de caçadas, de bailes, de mariscadas, de sexo, de noites de convívio, numa sociedade dentro da qual tudo parecia ter o seu lugar predestinado e imutável, num cenário onde racismo parecia “invisível”, camuflado em Angola ou naturalizado em Moçambique.

É por isso que um livro como o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (ed. Angelus Novus, 2009), se torna perturbante para muitas dessas pessoas, ou para aquelas que delas herdaram o discurso e os mitos. Elogiado por uma grande parte da crítica, com direito a grande destaque em diários e semanários, com um volume de vendas que fez esgotar a edição inicial, tem também sofrido o impacto de leituras sugeridas por quem vê nele algo capaz de colidir com a sua visão modelar e quase paradisíaca de um passado que prefere guardar como então o viu e como o gostaria de continuar a ver. Com os contornos de um tempo de prosperidade e de ordem social, sem confrontos visíveis, basicamente feliz. Mas ele não aconteceu assim – ou apenas assim – e o livro de Isabela Figueiredo, nascida em 1963 na cidade de Lourenço Marques, mostra-o com clareza. Acontece que existia, mas existia mesmo, um ambiente colonial complexo, no qual a paz das esplanadas escondia a violência latente ou explícita do quotidiano, e, sobretudo para os mais jovens nos anos da guerra, onde a aparente unanimidade podia camuflar a dúvida ou a busca de  horizontes culturais mais livres e cosmopolitas, embora uma certa “nostalgia africanista” tenda a desvalorizar este lado.

Caderno de Memórias Coloniais não é um texto fácil para quem integre essa dimensão mais ou menos idílica e a technicolor do passado de muitos dos portugueses brancos que habitaram as antigas colónias, tornando menos agradáveis as imagens quase utópicas, de postal ilustrado, que abundam por aí. Além disso, resulta de um acto de coragem da autora, evidenciando, entre a ficção e não-ficção, um trabalho de exposição pessoal e familiar do passado (e também do presente que se lhe cola) que não deixará de ser pago com juros. Isabela Figueiredo faz notar, na conversa-entrevista que integra o próprio volume, que já houve quem lhe dissesse “que temos de ultrapassar o passado, que não vale a pena tocar em assuntos tão sensíveis”, mas contrapõe ao argumento que, se temos realmente de ultrapassar esse passado, se os portugueses do outro lado do mar precisam mesmo de ultrapassar esse passado, “só o podemos fazer depois de o enfrentar”. Nem que fosse apenas por este acto de enfrentamento, este livro incómodo mereceria sempre a nossa atenção. Os portugueses que povoaram o império colonial, ou “o nosso ultramar”, não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado, não o degrada como julgam os mais cegos ou preconceituosos.

Publicado também em A Terceira Noite


29 respostas ao post “Do outro lado do tempo”  

  1. 1 1  helena

    Conversa de gato pingado,longa,enfadonha,chata,de alguem que parece ter esqueletos no armário.É só uma desconfiança.

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    homem da luta Reply:

    muito pelo contrario, um tema interessante, numa prosa deliciosa como o senhor professor Rui, nos tem habituado.
    quem nao gosta que passe a frente, e va ler aqueles posts onde se fala mal de tudo e de todos, que esses sao de melhor precessão .
    é tudo uma questão de sensibilidade.

    Fado Alexandrino Reply:

    Um post muito bem escrito em manbo jambo e que portanto não incomoda nada nem ninguém.
    Não ter vivido, dez, vinte, quarenta anos ou mesmo ter lá nascido, também ajuda imenso a explicar-nos como era a vida lá.
    Isabela, uma criança com 12 anos que vivia com o pai que montava instalações eléctricas e que lhe arreava forte e feio num subúrbio de Lourenço Marques habitado por brancos de segunda, conta-nos como é que viu e sentiu o colonialismo que o pai lhe impunha.
    Se ela tivesse tido filhos podia ler-lhes o livrinho à noite como se faz com as histórias da carochinha porque o livro como romance de aventuras é muito bom.

    Antonio Cunha Reply:

    Um texto um pouco chato, convenhamos

  2. 2 2  Antónimo

    Tropecei por acaso com uma ler e gostava de deixar uma pergunta que tem a ver com sugestões de livros, emboras listas sejam listas.

    Gostava de saber pq é que Identificação de um País não surge entre os mais importantes 50 livros de história que por aí andam. Ao princípio, quando olhei para a lista, achei que tinham de ter sido traduzidos/publicados nos últimos dois ou três anos mas quando tropecei com uma dinossáurica obra do kissinger achei que afinal tinha sido um exercício de café – transposto para a revista que deixei de comprar, e bem, ao segundo número.

    Valeu-me a entrevista do Rui Ramos, que mesmo sendo um historiador de gostos duvidosos, colocou a obra do Mattoso no seu devido lugar.

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    Julia Mendes Reply:

    o que é que essa merda tem a ver com este post, este blog, este autor?

  3. 3 3  rui silva

    Ainda não li o livro, mas fiquei cheio de vontade de o ler!

    Mas julgo que ainda fica por contar a história dos filhos dos retornados, os mestiços: mulatos, branco, cabritos e negros, que das antigas colónias foram para um país que os pais diziam ser seu, mas que de facto só conheciam o que vinha nos livros da Escola.

    As histórias de racismo sofridas pelos retornados e filhos de retornados ainda está por contar. Para que nunca se esqueça da célebre frase dos anos setenta e oitenta: “Ó preto volta prá a tua terra!”. De uma sociedade que, embora tendo saído de anos de opressão, se aprontou a fazer o mesmo a outros… Na escola, no trabalho, na rua… “Ó preto volta prá tua terra!” Tantas e tantas vezes eu e os meus pais a ouvimos, que ainda hoje a custa proferir em voz alta!

    Faz falta alguém contar as dificuldades porque passaram alguns dos retornados (e filhos de), do qual sem o Apoio Cristão e de outras instituições teriam passado fome e roupa não teriam para se vestir.

    Que se conte o racismo de lá, mas que não se esqueça do racismo que cá os esperava… curiosa inversão de papéis, não?!

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  4. 4 4  Rui Pinto

    O seu texto tem tanto de verdade, como tão pouco de sentimento. Tendo crescido no seio de duas famílias de retornados (Angola pelo lado materno, Moçambique, pelo lado paterno), desde cedo este tema me foi apresentado, de todos os pontos de vista. Não vivi a “fantasia” que relata, mas histórias envolvendo trabalho, puro racismo, confronto, harmonia, felicidade, guerra, prosperidade.
    Só mais tarde me apresentaram a palavra “retornado”, envolta num certo preconceito e tabu. Não percebi e não percebo hoje o significado dela, porque nunca me foi apresentada uma ideia mistificada de África. Não percebo o que significa a discussão em torno dos retornados, como se a eles fosse imputada uma realidade que todos viveram, e que é herança de todos. Como se criando essa palavra, se lhes pudesse imputar a responsabilidade pelo período de colonialismo, de que toda a sociedade portuguesa é herdeira. Não entendo.
    Um tio emigrado nos EUA, não há muito tempo, ajudou-me a perceber. Não esteve em África, emigrou nos anos 70 para os EUA. Perdeu um irmão na guerra colonial. Guarda a mágoa pela morte desse irmão e projecta-a no colonialismo. Hoje, tem um filho destacado no Iraque. Diz que experimenta hoje o mesmo sentimento que viveu em Portugal. Diz que quando a guerra é fora de casa, é obrigada a acabar cedo, porque se lhe esquece muito rápido o motivo. Diz que o preconceito com os retornados é o mesmo que com os emigrantes. Que é o mesmo preconceito das cidades para com o restante país. Diz que o preconceito é sobre arranjar culpados, para que desculpemos a nossa consciencia.
    Fui criado por retornados, e sempre ouvi dizer a palavra preto. Na escola primária ensinaram-me que se devia dizer negro! Hoje, perto dos 30 anos, ainda não sei para que lado pende a virtude.
    Espero que livros como este ajudem a perceber, mas que não sirvam para branquearmos o passado, arranjando bodes expiatórios.

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  5. 5 5  Miguel

    Num dos programas sobre a Guerra do Joaquim Furtado falava-se do caracter (pretensamente) unico da colonizacao portuguesa, de como os portugueses nao seriam racistas, de como tratavam bem os pretos,… enfim uma discussao infindavel que ate’ podera’ inspirar investigacoes e futuros trabalhos academicos.

    Porem, tudo foi sumarizado por um mocambicano, de cujo nome nao me lembro, mas com uma capacidade de sintese notavel, e cito de memoria a sua “punch line”. Disse ele: Ha’ donos que tratam muito bem dos seus cavalos, ha’ outros que os tratam com violencia e desprezo. Isto ninguem contesta, e’ bem sabido. Mas, no fim de contas, seja qual for o caso, e’ sempre o dono quem monta o cavalo. E todos sabiam muito bem quem era quem.

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  6. 6 6  A. Dias

    Há um filme recente de Diana Andringa que trata, com grande delicadeza e linteligência, muitos dos temas que, segundo parece, fazem parte do conteúdo do livro (que ainda não li).
    O próprio título do filme tem semelhanças com o do livro: “Dundo, memória colonial”.
    A quem se interessa pelo assunto, aconselho que veja o filme (já há ou haverá em breve uma edição em DVD).
    O filme abre com a descrição desse sentomento edulcorado de um “paraíso perdido” que transpiram os “exilados” da memória e logo nos conduz à realidade, não isenta de uma lúcida nostalgia, do que foi e do que é a cidade e a sua gente.
    E, nos recontros mais ou menos emocionados, cinquenta anos depois, com os colonizados de então, perpassa um curioso sentimento da parte deles, nem sempre claramente expresso, mas que um dos intervenientes traduz com clareza, ao dizer, mais ou menos isto: “agora que somos iguais, você(s) pode(m) ser nosso(s) amigo(s)”.

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  7. 7 7  Leo

    Rui Bebiano
    Uma óptima iniciativa, essa de pôr as pessoas a falar com este passado português (que a todos pertence, queiram ou não). Ainda não li o livro a que se referem, mas pela entrevista da autora ao Público parece-me que há ali qualquer coisa de patológico, que se cruza algures na sua mente entre a questão do “pai” e a do “preto-cão”. Prometo que o vou ler.

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  8. 8 8  Viseu Esquerda

    O retornado encerra em si várias realidades, das quais destaco quatro:

    *a do retornado branco racista (gerações mais velhas)

    que vê o regresso à metrópele como o fim de um ciclo de privilégios (que para eles eram apenas a ordem natural das coisas – até porque uma terra que dava colheitas todo o ano e 4 ou 5 vezes mais do que no rectângulo e que agora está ao abandono é prova de que “não se sabem governar”…). É o retornado amargurado por não ter continuado o ciclo de exploração na África do Sul. Amargurado por ter vindo para um local onde ser patrão não tinha como requisitos ser branco, mas sim ter capital, inteligência ou astúcia.

    *a do jovem retornado branco

    Filhos dos primeiros, nascido nas colónias, raramente era racista, muitas vezes defendia os pretos contra a vontade dos próprios pais. Vindo jovem para um país em plena idade média – sobretudo para os que vieram para as áreas rurais – onde usar mini-saia ou calças era sinal de má-vida… – estes revolucionaram os costumes e a moda porque estavam a anos luz de grande parte dos provincianos continentais.

    *a do retornado mestiço

    sendo português, este retornado foi quem viveu certamente os maiores dilemas – era preto para os brancos e branco para os pretos – e quando chegou viveu o racismo, enfrentou o preconceito e seguiu em frente

    *a do retornado militar

    vive para as confraternizações e almoços, agarrado às experiência mistificadas da guerra e encontros com os turras.

    Esta pequena segmentação traduz as diferentes perspectivas sobre a descolonização.

    Mas uma coisa é comum a todos: a romantização da África pré 1974|

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    Fado Alexandrino Reply:

    Absolutamente maravilhoso.

    O senhor conseguiu em cinco ou seis parágrafos condensar quinhentos anos de colonialismo e dar um retrato sociológico curto, incisivo e que podia muito bem ser chamado de “O Colonialismo em Reader’s Digest”.

    É claro que faltaram alguns pormenores (por maiores dirão outros) mas como o senhor nunca por lá andou e não tem a classe do Salgari não se pode pedir mais.

    Não sabe e não tem importância que em Moçambique (agora é Mozambique) umas das raças mais influentes era a dos indianos e que uma quantidade muito apreciável também “retornou”, e ainda vieram uns canecos e monhés (vá a uma enciclopédia saber o que são)e que outra que praticamente dominava uma cidade (Beira) eram os chineses.

    Também não sabe e aliás nem a Dona Isabela que viver em Lourenço Marques era uma coisa, outra era viver na Matola, outra ainda viver por exemplo em Nacala e viver como um cantineiro (não, não lhe vou dizer o que eram e representavam) era ainda outra.
    Também não podia saber que os ingleses eram poderosíssimos e que dominavam duas das principais riquezas de Moçambique ou seja o açúcar e o chá.

    E claro nunca vai perceber que o que o comentador Leo diz é uma pura verdade, que não pode ser dita porque contraria a verdade oficial do PCP & Seguidores.
    Como disse a Dona Câncio matavam-se pretos com os carros em Lourenço Marques por desporto e a Dona Isabela queria vestir-se de capulana com doze anos para brincar com os pretinhos e não a deixavam.
    Até me vieram lágrimas aos olhos quando li isto.
    Deixe lá, não se irrite já vi pior, quando chamaram o senhor Guilherme José de Melo para debitar verdades no programa do jornalista de esquerda Furtado aí acreditei que não há limites para a estupidez humana.

    Viseu Esquerda Reply:

    não foram quinhentos anos condensados, apenas 5 pós 25 de abril. e foi apenas um comentário sintético e não um tratado. nessa lógica até as 1000 páginas do -rui Ramos são poucas para os 900 anos de história.

    e caro, garanto-lhe que estou bem mais próxima dessa realidade do que imagina mas não lhe vou fazer aqui um mapa genético-social…

    e esqueci-me também de timor, macau e “índias”.. mas não se irrite que não vale a pena.

  9. 9 9  Marques Pereira

    Era bom saber , nas colónias brancos pretos mulatos e outros estavam divididos em duas categorias bem diferentes Funcionários do Estado, e os restantes , era uma forma de racismo .

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  10. 10 10  Leo

    E já agora, para baralhar mais a questão lembro um óptimo trabalho de Rui Pena Pires, onde conclui que os retornados tinham mais habilitações do que os da metrópole. O número de retornados com diploma superior era quase o dobro; a percentagem de anafabetos era metade. Vão às investigações… falemos de coisas palpáveis. já é hora de darmos um pontapé no cu dos preconceitos.

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  11. 11 11  Guimarães

    Vivi e senti esse tempo a trabalhar em Moçambique (Quelimane). A maioria dos brancos trabalhava como cá, só que com umas condições um pouquinho melhores. Claro que se tinha saído há pouco tempo de racismo oficial para uma “igualdade” forçada.
    O que doeu mais foi ver os governantes incendiarem os ódios populares contra os que voltavam, como o sr. Vasco Gonçalves a dizer no discurso do Sabugo:”os retornados se vieram é porque estavam lá a roubar”.
    Houve quem roubasse esses povos, mas foram aqueles sentados em Lisboa que nunca puzeram o cú em África e recebiam as prebendas.

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  12. 12 12  jms

    Que maravilha, os brancos na praia e a comer camarão, os pretos a vender gelados e a servir à mesa, como Deus mandava. Ai que lindo e ordenado era o mundo antigamente. Até me apetece cantar: Ó tempo volta pra trás, dá-me tudo o que eu perdi!!!
    Depois vieram os maus e Moçambique começou a escurecer, ó tristeza, adeus camarão barato, adeus criados, adeus boa vida. Quem não conheceu o esplendor do antigo regime, como diz o outro, não sabe como a vida pode ser bela…

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  13. 13 13  ECD

    Já li o livro. Recomendo.

    Esta coisa de racismo é muita complicada, sobretudo num país que tendo colónias durante décadas se “assumiu” menos racista do que os outros ou mesmo nada racista. E viva o Luso-tropicalismo, essa “maneira” de ser português no meio do(a)s preto(a)s, amarelo(a)s e pardo(a)s!

    Porque seria que minha avózinha que era filha e neta de militares e que se vangloriava de não ser “nada racista” sempre que via um negro fazia logo fisgas? Felizmente, o meu avozinho também fazia fisgas quando via um padre. E fazia mais vezes; nos anos 50 havia em Lisboa muitos padres e poucos negros. Quase que só me lembro do professor de patinagem do Jardim Zoológico. Grande figura de homem, dizia uma tia minha, baixinho para ninguém ouvir!

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  14. 14 14  Fado Alexandrino

    Porque seria que minha avózinha que era filha e neta de militares e que se vangloriava de não ser “nada racista” sempre que via um negro fazia logo fisgas?

    Que giro!
    E depois o que é que fazia com as mesmas, mandava-lhes pedrinhas?
    Aliás pelo seu paleio a avózinha da sua avózinha deve ter vivido, deixa cá ver, 1837?

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  15. 15 15  Nuno Sotto Mayor Ferrão

    Está muito bem captada esta análise, do Professor Rui Bebiano, das motivações psíquicas dos retornados para o romantismo das suas memórias de África. Há necessidade, como já o referiu o Professor António Barreto, de se proceder ao estudo dos processos de integração dos retornados na Mãe-Pátria.

    É fundamental fazer uma História Global deste período da Guerra Colonial e da integração dos retornados recorrendo à integração das diferentes perspectivas ( da visão oficial, da visão dos colonos e da visão dos nativos ). Temos, pois, de erguer, com base na verdade, uma imagem da complexa realidade colonial e, talvez, o livro de Isabel Figueiredo, que ainda não li, possa ser um importante contributo para esta compreensão.

    Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
    http://www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

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  16. 16 16  Fado Alexandrino

    da visão oficial, da visão dos colonos e da visão dos nativos

    Acontece uma coisa que o senhor, e os outros senhores nunca compreenderão.
    Não havia colonos, havia portugueses que estavam lá como estavam no Minho em Macau ou em Timor.
    E quanto aos nativos, os meus filhos nasceram lá, outros estavam já na terceira geração, o senhor acha que estes também são “nativos” ou é preciso ter a pela da cor negra?

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    Viseu Esquerda Reply:

    eram tão iguais como os filhos dos boers e dos zulus…

    um conselho: já que não gosta do relato subjectivo do Caderno de Memórias Coloniais , que tal o livro de Ana Barradas: Ministros da Noite. Aí a discriminação e o racismo são expostos várias vezes apenas pelo copy/paste da letra da lei dos trabalhos forçados – chibalo.

    é que só assim alguma luz virá sobre o seu sectarismo sombrio, bem ao estilo do que tanto critica…

    enfim… os pretos é que de tão burros não viram a obra merecedora dos seus amos, a bondade dos seus corações cristãos e a sua luta constante contra a preguiça inata dos nativos.

    bem, acho que deveria ter ido para a África do Sul ou Rodésia. pelo menos ainda se aguentava mais uns anos a educar e civilizar os negros.

    Fado Alexandrino Reply:

    Muito obrigado.

    Quando num nick aparece a palavra “esquerda” devemos logo cuidarmo-nos.
    Não vou entrar em grande diálogo até porque não conheço o livro que refere mas a sua observação leva a outro erro muito comum.
    O que aconteceu em 1920 ou 1940 tem pouco ou nada a ver com a vida que se fazia em 1974 em Moçambique, por isso essas cópias de uma legislação de antanho valem o que valem.

    Olhe que em Portugal num tempo que não me recordo até havia o “direito de pernada”.
    O que já vale é sabermos que nunca se passou tanta fome em Moçambique como agora e que na Rodésia e na sua linda capital Salisbury (que conheci) ainda se consegue passar mais fome com uma inflação de mil e tais por cento.

    Já quanto à África do Sul neste momento ostenta a duvidosa honra de ser um dos sítios do Mundo com maior taxa de criminalidade.

    E de quem é a culpa?
    Minha que já ando por aqui há 35 anos não deve ser.
    Veremos o que é que Dona Isabela, na versão Isabela-12-Anos terá a dizer.

    Viseu Esquerda Reply:

    também chorou nas aulas de história quando teve conhecimento da queda do império romano que “civilizou” a europa e nos provocou um atraso de não sei quantos séculos?

    também chorou ao perceber que Viriato não passou de um terrorista nativo ingrato que lutava contra o progresso?

    a sua vida deve ser mesmo um fado…

    depois de 500 anos de escravatura e colonialismo, de países traçados a regra e esquadro, em que as etnias superam as nações no que toca aos sentimentos de pertença, queria ver os africanos nas reuniões do G7, em 35 anos e com um estalar de dedos?

    isso não é fado, é pop rasca!

    Fado Alexandrino Reply:

    Eu chorei foi ao ler o seu post e a ignorância que nele demonstra.
    Dizer que o Império Romano atrasou o desenvolvimento dos reinos por onde andou, nem nas escolas da Brandoa se ouve.
    Queira saber que a Libéria, um dos estados africanos mais “rascas” tem 190 anos de liberdade e independência.
    Falar em etnias é ser racista e eu, graças a Deus não sou.
    Como as respostas já vão longas e como disse noutro lado diálogo a dois é de namorados, “despeço-me com amizade até ao próximo post”.

    JP Reply:

    o velho fado, a mesma cantiga…

    a autora limitou-se a dizer aquilo que está na garganta de muitos que viram as humilhações, as sevícias, a quase escravatura, a subserviência, o racismo… na primeira pessoa.

    você não viu apenas porque estava ofuscado pela luz do branco civilizador a quem os negros não souberam reconhecer o seu mérito e supremacia e a quem os negros sempre deviam…

    a arrogância e a indiferença com que olha para o racismo e total discriminação que se viviam apenas quer dizer que não aprendeu nada…

    o velho fado, a mesma cantiga…

  17. 17 17  Nuno Castelo-Branco

    Parabéns, Vossa Excelência faz o pleno do preconceito de alguém que provavelmente jamais viveu em África. Tal e qual a dona IF que conheceu “tão bem” Moçambique. Tão bem que segundo conta na prosa, viveu enclausurada em uns tantos metros quadrados, às mãos de um pai ordinário, violento e besta humana.

    Este tipo de trolaró, serve sobretudo para camuflar uma realidade tão incómoda quão verdadeira: é que os mesmos que tecem loas ao colonialismo romano ou árabe em Portugal – estradas, pontes, banhos, agricultura ou língua -, são exactamente os mesmos que olham outra História de maneira bem diversa. É que os dados oficiais quanto a Moçambique dizem hoje que o país ainda não atingiu nenhum dos níveis que auferia em 1955. Sintomático.

    Nota: sou “retornado a sítio algum”, nascido em Moçambique e de 5ª geração. Os meus trisavós estão lá enterrados. isso diz-lhe algo? Ou os negros que aqui nascem são colonialistas (passe a ligeireza conceptual)?

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  18. 18 18  buxa

    mas agora no arrastão chora-se o portugal colonialista?

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