
Editou alguns dos melhores escritores portugueses do século XX. Como escritor, é autor de alguns textos magníficos. O que escreveu e o que editou é menos conhecido do que a sua caricatura mediática que ele alimentou quando já não tinha mais nada para alimentar. Morreu ontem. O tempo será justo com Luiz Pacheco. Daqui a uns anos ninguém se lembrará das entrevistas que tanto animaram piadas de salão de letrados e iletrados. Da Comunidade, do Libertino, do Teodolito e da Contraponto sim. Porque isso é o que deixa e isso é o que interessa.
“Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.”
“Comunidade”, Contraponto, 1964
Por Daniel Oliveira 6 Jan 08 em Livros, ObituárioSem respostas ao post “O Pacheco”
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Luiz Pacheco, o maldito. Um espanto quando entrevistado.
Até sempre Luís Pacheco! Vais fazer-nos falta.
um dia a sua leitura há-de passar a ser obrigatória nas escolas para que a tal “liberdade em estado puro” transforme este país
Estimado Daniel: ora aqui tem alguém diferente de todos os que para aqui andam - nunca vergou.
Não se dobrou em Caxias, como não se vergou às cartilhas vermelhuscas pós-democracia.
Viveu mal porque quis, porque a avença o obrigaria a fingir não ver certas coisas.
Preferia ficar à janela do quarto modesto a morder naqueles que, sob a luz das halofotes, vão passeando a sua arrogância entre croquetes e reuniões fashion, tudo muito politicamente correcto.
O Pacheco vai cá fazer falta, vai.
Digo eu…
Faz falta um desbocado como este. As histórias que ouvi dele, como pessoa, não o recomendavam. Provocador, marginal, causando por vezes dó, outras vezes repulsa, construíu, mesmo assim, um lugar singular na literatura portuguesa do seu século.
A única recordação ao vivo que tenho dele é a de um encontro casual na Feira do Livro, há vinte e muitos anos. Vestia um impermeável cinzento escuro, usava um cabelo muito próximo da escovinha e trazia um maço de folhetos debaixo do braço. Eu ia de olhos no chão e só dei por ele quando me parou com um braço e me estendeu um exemplar. Era O Caso do Sonâmbulo Chupista, da sua lavra, uma coisa de quatro páginas a denunciar o inacreditável plágio de frases e períodos inteiros da Aparição, de Vergílio Ferreira, por Fernando Namora, no Domingo à Tarde. Um escândalo.
Só reconheci o Pacheco quando li o seu nome no impresso, mas já ele debandara de gabardine ao vento. Não me pediu um tostão, prevendo certamente a minha tesura. É esta imagem generosa que guardarei do homem que publicava “literatura comestível”.
Esta gente, claro, não conheceu o Pacheco.
Nem você, Daniel.
Por mim, estão todos perdoados, não sabem o que dizem.
Bela ilustração do André Carrilho.
E já agora por falar em referências, diga à Talina que os comentários que não são da nossa autoria vêm entre aspas.
Peço desculpa.
Um dos mais exímios manejador da língua portuguesa no século XX. A “Comunidade”, “Os namorados”, “O libertino passeia por Braga a idolátrica o seu esplendor, “O teodolito”, são textos entre outros que merecem ser lidos e relidos.
“Estou na minha cidade e vou despido, aqui a luta é violenta e desleal, é tudo conquistado à força de muque e arrogância, mentiras que não somos nós nem são parecidas com nenhum de nós. Vou andando e assobiando a minha música de revolta.”
Excerto de “os namorados”
Ninguém lhe ligou durante décadas - e agora é louvado e apreciado em todos os blogue. Típico. Deve ser uma corrida para ver quem diz a coisa mais esperta sobre um tipo que nunca despertou muita curiosidade a ninguém. É assim a actividade cultural nesta terriola.
“cartilhas vermelhuscas pós-democracia”??? …mas ele era, ou não era, inscrito no PCP?
PT, suponho que não se está a referir a mim, que tenho quase toda a sua obra e até o conheci (não posso dizer que com grande prazer) pessoalmente.
“e até o conheci (não posso dizer que com grande prazer) pessoalmente”
óh Daniel, conta lá à malta os nomes que ele te chamou,
Caro PT…
Com que então sempre pronto para a má língua seu malandreco.Só para refutar esse infeliz desabafo consulte aqui estes links no meu blog:
http://questoesirrelevantes.blogspot.com/2007/01/o-meu-portugus-e-uma-pequena-homenagem_22.html
http://questoesirrelevantes.blogspot.com/2007/11/luiz.html
Num ano de blog postámos três vezes acerca do Luiz…nunca postámos nada de “esperto” (para usar a sua terminologia) mas que está lá, está!!
Na morte de Luiz Pacheco
Nota da Comissão nacional do PCP para as Questões da Cultura
Editor e escritor, Luiz Pacheco assegurou um lugar na história da literatura portuguesa. Enquanto editor, deve-se-lhe a publicação de obras de vários autores importantes, de Mário Cesariny a outros surrealistas e a Herberto Helder. Enquanto escritor a sua obra, em grande parte ainda dispersa - foi autor, entre outros títulos, de “Comunidade”, “O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor”, “O Teodolito”, “Exercícios de estilo” e “Memorando, mirabolando” - dá testemunho de uma prosa depurada e segura, ágil e capaz de recriar a palavra oral e popular, e o calão.
Luiz Pacheco é um autor em que vida e obra se confundem e se ampliam mutuamente, em que a ficção, a crítica literária e a crítica da mundanidade literária se respondem e ecoam um fundo insistente e desassombradamente autobiográfico. Autor satírico, a sua obra combina a ironia e a subversão das convenções do moralismo conservador e hipócrita, com a capacidade de revelar o rosto agredido do ser humano, entre a opressão e o sofrimento da miséria e a alegria insurrecta.
Espírito livre e independente, personalidade lúcida e irreverente, Luiz Pacheco soube reconhecer no PCP o partido dos trabalhadores, o partido consequente, longa e tenazmente fiel aos seus princípios e objectivos, o seu Partido. Assim, em finais de década de oitenta, tornou-se por sua iniciativa militante do PCP - qualidade que manteve até morrer.
A Comissão Nacional do PCP para a Área da Cultura lamenta profundamente a morte de Luiz Pacheco e a perda que ela significa para a Cultura Portuguesa e manifesta aos seus familiares sentidas condolências.
http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=31069&Itemid=1
Parece que temos censura aqui no blog, porque é que será?
Como diz o xatoo, conta lá a história para a gente se divertir.
dealmada, para me insultar pode sempre usar o seu blogue. No meu não pode. É a minha casa e trata com o educação o seu dono. Passar bem.