
O Arrastão comemora os 40 anos do Maio de 68. E hoje recorda a Primavera de Praga. Começou a 5 de Janeiro de 1968, com a demissão de Anton Novotny, subsituído por Alexandre Dubcek e acabou a 21 de Agosto, com a chegada dos tanques soviéticos a Praga. Foi assim esmagada a última esperança de um comunismo de «rosto humano».
Aqui fica uma reportagem que escrevi há exactamente dez anos, para a revista “Vida Mundial”. Não a consegui transcrever (se alguém souber como se faz) e por isso digitalizei (talvez um pouco pequeno de mais e a preto e branco). Esperemos que dê para ler.
A reportagem são as recordações cruzadas da Primavera de Praga, da Revolução de Veludo e da nova situação que se vivia em Praga, em 1998, quando a reportagem foi escrita. E de como os checos vivem mal com a sua própria memória.
Como nota pessoal: estive em Praga em 1984 (o meu primeiro contacto com o Socialismo Real, ainda bastante jovem), 1991 e 1998. Vivi lá cerca de um ano, em 1994. Ou seja, este é um assunto que me toca especialmente.
Usem o programa em baixo (permite ir vendo as várias páginas e ampliar) para ler a reportagem:
Obrigado à Shyznogud pela ajuda
Por Daniel Oliveira 1 Mai 08 em Maio de 68


E como foi a experiencia com o “socialismo real”?
Em 1994 também estive em Praga durante alguns meses. Pena o Arrastão não existir na altura, decerto que beberiamos uns copos.
Instala um programa de OCR, que transforma texto-imagem em texto editável. É necessário eliminar as imagens das páginas a rasterizar para não confundir o programa. Convém arranjar uma versão que conheça o português, porque senão o trabalho de correcção será maior do que escrever tudo de novo. Boa sorte.
Tem um defeito,
aliás, cinco ou seis,
tantos quantos ultrapassam
aquela paginazinha
que bastava a dizer o resumo
numa frase ou figura.
Fora issso, parabéns.
Ontem estive hora e meia a ver os 5 vídeos sobre o ano da 68. A única coisa que consegui dizer ao Daniel depois disso (mas que não aparece nos comentários) foi: OBRIGADA.
É realmente emocionante rever parte da nossa (minha) juventude.
Mas é preciso dizer que Portugal não era a França. Aqui a contestação estudantil foi muito mais precoce. Começou em 62 com a revolta dos estudantes contra a proibição (antes autorizada) da celebração do Dia do Estudante, com um almoço na cantina.
A polícia entrou por ali a dentro para impedir que se realizasse. Nessa altura os estudantes uniram-se todos (mesmo os que nunca tinham tido intenção de celebrar o Dia do Estudante) e protestaram “forte e feio” contra a entrada da polícia na Universidade.
O Reitor (Marcelo Caetano) solidarizou-se com os estudantes, mandando-os todos almoçar num restaurante, ali no Campo Grande “a expensas da Reitoria”.
Isto passou-se num domingo, mas na 2ª feira já estava tudo unido. Foi decretado o “Luto Académico”, ou seja a greve por outras palavras (o direito à greve não existia).
A isso seguiram-se meses de luta, a que aderiram quase todos os estudantes, sobretudo de Lisboa e Coimbra. Houve correria, prisões e muita pedrada. Atirar pedras aos “Creme Nívea” (os carros da Pide, que eram azuis e brancos) era uma coisa de que ninguém prescindia. Sucederam-se os “plenários”, frente à Reitoria, em que a palavra era de Jorge Sampaio, Medeiros Ferreira, e tanto outros.
A nossa luta era sobretudo política, contra o regime e pela autonomia universitária. Era o famoso Decreto 40.900 e o direito ao associativismo estudantil.
A guerra de África tinha começado no ano anterior e, para nós, ainda não era problema. Ninguém (ou quase) constava a necessidade de combater o “terrorismo” em Angola, que tinha barbaramente chacinado civis inocentes – homens, mulheres e crianças, cortados em postas – mas pensávamos que isso seria coisa breve, uma operação de polícia.
Contestávamos, pois, o regime. Exigíamos democracia e liberdade.
A maioria da geração de 62 foi deste modo que despertou para a política.
Não nos passava pela cabeça exigir o “amor-livre”. Não usávamos flores na cabeça. A nossa luta era mesmo a sério.
Quando vejo os acontecimentos em França, no Maio de 68, apetece-me sempre gritar – Nós fomos os primeiros!
Mas o que se passou nessa época não nos passou ao lado. A contestação estudantil agravou-se, embora, infelizmente, já muito dominada pelo Partido Comunista. Ora, para nós, os de 62, o que víamos nos Comunistas, era a invasão da Checoslováquia.
Entretanto, a guerra de África, não só não tinha acabado, mas tinha-se agravado. Os nossos irmãos, amigos, namorados, iam para lá, e muitos não voltavam.
Para nós os hippies não passavam de folclore, com canções muito bonitas. Perfaríamos o Che Guevara. Ao contrário dos meninos franceses, dos Cohen Bendit, dos Bader-Meihoff, nós experimentávamos na pele a verdadeira guerra. Além de um regime fascista, com prisões, censura e polícia política. Tudo aquilo que eles desconheciam.
Não estou com isto a menosprezar a luta deles, só que eles levantavam barricadas, mas não tinham a Pide às costas.
É verdade que a experiência duma geração nunca serviu a outra geração. Em todo o caso, não me posso impedir de deixar aqui o meu testemunho.
(Em 69 aconteceram duas coisas importantes: nasceram dois meninos. Um chamou-se Daniel Oliveira, o outro era meu filho.)
Já foi explicado pelo João, em baixo
Instala 1 programa de OCR.
Depois de Digitalizado, o Programa converte a imagem, em texo.