O PSD estava à beira de um precipício. Acabou de dar um passo em frente. Entre o intervalo e o abismo escolheu o abismo. Acabou num santanismo sem Santana. Ou seja, sem graça.

Luís Filipe Menezes representa o pior do PSD profundo: sem ideologia nem programa, refém de caciques. A oposição do PSD será de esquerda quando o vento sopra da esquerda, de direita quando o vento soprar de direita. O nível da sua campanha para as primárias é um cheirinho do que nos espera. Espera-nos o PSD dos autarcas.

Se acreditasse que Luís Filipe Menezes era um líder para ficar diria que o PSD se preparava para um crise de identidade sem remédio. Acredito que o seu arqui-inimigo, Rui Rio, ficará à espreita. E Rio Rio é o oposto. Um autoritário de uma direita liberal, um pequeno Sarkozy à pindérica dimensão nacional. Não aprecio o estilo, mas ele seria o que o PSD precisava: um dirigente com um perfil ideologicamente marcado. Menezes poderá fazer guerrilha, mas não construirá um exército para tomar o poder. Não tem nem nunca terá uma ideia política. Aliás, quem ouviu o seu paupérrimo discurso percebeu que Menezes tenciona fazer oposição a Sócrates pela esquerda. Um disparate de cálculo. O PSD arrisca-se a não recuperar o que perdeu e a perder o que tem.

Agora vamos aos problemas práticos que estão à frente de Menezes:

Menezes não é deputado. Com as alterações ao funcionamento do Parlamento, os debates com Sócrates ganharam importância. E com o líder do PSD fora da Assembleia é lá que Sócrates vai querer fazer os debates. Quem encontrará ali espaço para brilhar? Santana Lopes. Sobretudo tendo em conta que aqueles foram os deputados que ele escolheu. Ou seja, ou Menezes escolhe dar protagonismo quem lhe vai cavar o túmulo ou fica sem nenhuma voz de peso no Parlamento.

Segunda dificuldade: os pesos pesados do PSD estiveram calados. Suponho que assim continuarão. E enquanto Marques Mendes, mesmo sendo fraco, era um dirigente com dimensão nacional, Menezes terá um partido de anónimos ou de apoiantes transitórios.

Terceira dificuldade: Menezes fez toda a campanha contra Mendes defendendo aqueles que Mendes afastou com argumentos morais, fossem falsos ou verdadeiros. Isaltino já prepara o regresso. Os caciques virão cobrar a dívida.

Os militantes do PSD acharam que precisavam de um líder mais forte. Um erro. As próximas eleições já estão perdidas. O que o PSD precisava era de um líder sólido que estruturasse uma alternativa para daqui a seis anos. Uma alternativa de direita que empurrasse o PS à esquerda e recuperasse para o PSD o eleitorado do centro. Com Mendes adiava essa urgência. Com Menezes afasta-se dela.

Resumindo: fora do Parlamento, sem os pesos pesados, sem solidez política, entregue às exigências do pior que o PSD tem, Menezes será um líder forte de coisa nenhuma. Sócrates pode ignorá-lo como ignorou Mendes. Com uma vantagem: não se tem de cruzar com ele.

Quem ficará em dificuldades é Paulo Portas. Tem um concorrente no terreno populista. Ele é melhor, mas o seu partido é mais pequeno.

Uma direita ideológica e alternativa a Sócrates fica adiada. Mas, para dizer a verdade, talvez ainda não fosse o tempo dela. O programa da direita está a ser aplicado. É por isso mesmo que Manuela Ferreira Leite fica em casa. Sabe que a coisa está em boas mãos. Do PSD, nos próximos dois ans, virá apenas ruído.

Publicado no 31 da Armada.


14 respostas ao post “O refugo”  

  1. 1 1  Laura

    O refugo, diz bem.

    Sou uma PSD que gosta de o ler, mas descanse… eu não contamino à distância e você de resto tem a bateria completa dos anti-vírus necessários!

    Se não estivesse tristíssima, ria-me e brindava consigo ao abismo em que, como soit disant “derrotada”, me deleitaria a vê-los cair, na peugada do mesmo assim felicíssimo líder LFM (iniciais para Lepidóptero Flutuoso Mentecapto). Mais conhecido por CO2 (Cabeça Oca ao quadrado).

    Está na altura de fundar outro partido político.
    Isto não é o PSD.

    Quanto a si, felicitações democráticas.
    Ou então não, já que, parafraseando JPP na ressaca da noite de hoje, vendo bem isto é um “…Pobre País”…
    Todos perdemos.

  2. 2 2  aminhapele

    Parece-me que há santanismo,com Santana…
    E se a paródia correr bem,até o Portas se junta.
    Se há PSD ou não,também não é questão que me preocupe.

  3. 3 3  Sebastião Dias

    Concordo com bastantes coisas que o Daniel disse relativamente às fragilidades de Meneses e da sua eventual - quase segura - incapacidade de fazer uma oposição credível a Sócrates.

    Discordo de si numa coisa que assumirá bastante importância o futuro próximo: a situação de Paulo Portas.

    O Daniel acha que ele ficará em desvantagem no futuro por ter um rival populista à direita. Eu estou seguro que os desiludidos com a vitória de Meneses, que estou em crer que sejam muitos, e que não votariam nunca no PS, irão provavelmente muitos deles votar em Portas.

    A eventual desgraça do PSD com Meneses será certamente um factor importante para a subida de intenções de voto que Paulo Portas poderá gozar no futuro.

  4. 4 4  busilis

    Que estranho vê-lo a si a derramar uma làgrima por esta gente(pelo paìs nao è de certeza).Em termos de ideologia nenhum partido de direita fez ,faria ,ou farà melhor pelos interesses (pode incluir aqui desde os ideològicos atè aos materiais)da dieita.Logo, quem è de direita sentir-se-à perfeitamente representado pelo sòcrates,o resto sao os tachistas do mendes versus tachista do menezes.Impressionante è olharem para o psd com a esperança ,secreta ou assumida ,de que(esta turba) pode por algum equilibrio na politica em portugal.Estes meneses ,duroes ,santanas ,cavacos,marcelos,balsemoes,etc,a par dos seus equivalentes do ps puseram o paìs no exacto ponto em que se encontra.Mais uma vez abisma-me conseguirem olhar para eles com algum sinal de respeito,entao o exercicio de apresntar como menos mau um deles è mirabolante.Daniel ,apreciei a tua frase acerca da contra revoluçao,ficas-te -te por aì,aceitaste o jantar e acabaste por tomar partido entre estes dois cromos,boa ,para a pròxima jà te convidam para a primeira comunhao dos filhos,e tu vais là estar.Mais croquete menos croquete já là estàs.

  5. 5 5  Rui Corrêa

    Sou militante do PSD e embora tenha votado em Marques Mendes, fui para a assembleia de voto convicto que Luís Filipe Menezes iria ganhar as eleições. Porquê? Porque era certo que as “bases” queriam mudança, independentemente da qualidade do candidato. Era necessário mudar. Só que neste caso, como diz e muito bem, “O PSD estava à beira de um precipício. Acabou de dar um passo em frente.”
    A análise que fez está, na minha opinião, muito boa.
    Luís Filipe Menezes afigura-se-me, e levando ao extremo a tragédia, como o ultimo líder do PSD, o qual não terá continuidade depois de ser liderado por aquele.
    Pode ser que no congresso lhe ponham um “travão”. Mas não tenho muito esperança.
    A esperança é as “bases” que o elegeram se revoltem contra o mesmo e alguém de valor assuma o leme do partido e o leve a bom porto.

  6. 6 6  Miriam

    Só espero que se reduzam aqueles para quem este partido ‘trabalha’ de mangas arregaçadas…Quanto piores eles forem melhor para a gente,Daniel(não sei pq se lamenta,com esta luminária)

  7. 7 7  busilis

    Tal&Qual

  8. 8 8  marieta

    o 31 da Armada preferia o MMendes, que se vê, e LFMenezes é o que de melhor podia acontecer ao PSD, um homem inteligente, pragmático, sensível, honesto, de boa figura, dedicado ao seu partido, como poucos, na ideia constante do Portugal de que nos orgulhemos de, melhor que o do Sócrates mentiras, com a bandeira a entreter do sargentão das quinas!

  9. 9 9  viana

    “O que o PSD precisava era de um líder sólido que estruturasse uma alternativa para daqui a seis anos. Uma alternativa de direita que empurrasse o PS à esquerda e recuperasse para o PSD o eleitorado do centro.”

    Não percebo este raciocínio. Um PSD claramente posicionado à Direita não coloca qualquer tipo de pressão sobre o PS para mover-se para a Esquerda. Que tipo de eleitores é que um tal PSD iria buscar ao eleitorado actual do PS, de Esquerda?! Indecisos ao Centro?… É dos manuais políticos que só um partido colocado no Centro é que consegue retirar votos a outro partido colocado no Centro. Porque é que o Daniel acha que na maioria dos sistemas políticos a tendência é quase sempre de desenvolvimento de dois grandes partidos políticos que disputam entre si o Centro? Se o Daniel quer que o PS inflicta para a Esquerda, então o PS tem de ter medo de ver os seus eleitores de (Centro-)Esquerda votarem no PSD (infelizmente muitos dos seus eleitores à Esquerda reagem pavlovianamente à possibilidade de votarem BE ou PC, donde não tem tanto receio destes partidos). Obviamente que tais eleitores nunca votarão num PSD marcadamente de Direita, a propôr privatizar tudo e mais alguma coisa.

  10. 10 10  marieta

    oh, despeito que
    aí vai na armada…
    a dizer bem o respeito
    pela classe do vencedor,
    melhor, indubitavelmente,
    c’ò ke staba… ou já a simpatia
    fácil por cá não parava!

  11. 11 11  busilis

    Daniel,ao menos limpa as maos à parede…

  12. 12 12  marieta

    “O que o PSD precisava era de um líder sólido que estruturasse uma alternativa para daqui a seis anos. Uma alternativa de direita que empurrasse o PS à esquerda e recuperasse para o PSD o eleitorado do centro.”

    ó Daniel, também achei graça a esta de táctica dançarina, pa trás, pà frente, ao lado, mais logo à direita e então ao centro, poça, muito complicado…

    pois então não sabe que nestas de política, como de económicas, sempre há pouca lógica, se não que baste capricho, quando ao povo baste que este governo deixe as contas globais, digo, do globo, do mundo e dos states, resvalarem e, sem baixa de preços e dos impostos, este PM vai à bota e poucos já votam nele!

    você, Daniel, amigo, entendeu o ponto?! é que só falo uma vez, quando digo um comentário!

  13. 13 13  O Raio

    Luis Filipe Menezes vai ser um precioso aliado de Sócrates e Cavaco Silva no desejo destes de enterrar o referendo ao clone da Constituição Europeia, isto é, do Tratado Reformador.

    O suicídio político de Marques Mendes deve ter sido o querer fazer um referendo!

  1. 1 Arrastão: Dois anos

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