A propósito deste texto, João Miranda responde-me.

João Miranda vive nesta ilusão: de um lado as empresas, do outro o Estado. Mas o Estado não é neutro e a maior parte das vezes não se defende apenas ou sobretudo a si próprio. Há outras fontes de poder para lá do Estado e é o Estado que muitas vezes as representa. O Estado, através de opções ideológicas, serve diferentes interesses. Por isso sim, se o Estado decide emagrecer para, como defende Miranda, não sobrecarregar as empresas com impostos e descontos para a segurança social, tem de diminuir despesas sociais. Como não pode deixar as pessoas morrer, trata-lhes da saúde da forma mais barata: mandando nas suas vidas. Ou o faz através de leis ou passa essa função para quem lhe ficou com os recursos: as empresas.

João Miranda acha, como muita gente, que o que defende para a sociedade é menos Estado. Engana-se. O Estado nunca será menos. Será outro, mas não menos. Se reina a selva económica o Estado precisa de tratar do desconforto. Ou trata com a cenoura ou trata com o pau. Se querem menos Estado social terão mais Estado policial (o que não quer dizer que a inversa seja verdadeira). Talvez não seja por acaso (apesar de haver outras razões) que a democracia mais liberal do Mundo, os EUA, seja a democracia com mais presos no Mundo.

Só nos delírios do liberalismo utópico é que um mercado em rédea solta encontra um equilíbrio natural. A escolha não é, neste caso, mais ou menos liberdade. É quem a limita e quem é limitado. A um Estado que não garante o mínimo aos mais fracos para garantir toda a liberdade aos mais fortes resta-lhe a repressão dos conflitos. E um Estado sem recursos para a reprimir passa essas funções, que garantia por procuração, para as empresas, um espaço por natureza mais arbitrário do que qualquer instituição democrática. Sim, no maravilhoso mundo novo que Miranda defende o ditador será um CEO. Ele decide o nosso horário, o nosso almoço, o nosso quotidiano, a nossa família, os nossos gostos, da nossa sobrevivência. Tem muitos mais instrumentos para o conseguir. O Estado faz o que lhe resta: dá enquadramento legal ao “Big Brother, S.A.”


25 respostas ao post “Big Brother, S.A.”  

  1. 1 1  Tarzan

    «Como não pode deixar as pessoas morrer»

    Acho que a diferença de opiniões entre o Daniel e o JM está neste ponto. Para o JM o Estado não tem de ser responsável pela sobrevivência de ninguém. É preferível a responsabilização do indivíduo à sua bovinização a um Estado omnisciente e todo-sabedor.

  2. 2 2  Tarzan

    «menos Estado social terão mais Estado policial [...] a democracia mais liberal do Mundo, os EUA, seja a democracia com mais presos no Mundo.»

    Então pela sua lógica, menos polícia=menos crime?

    Parece-me algo absurdo…

  3. 3 3  Daniel Oliveira

    A lógica não é essa, como é evidente no texto. É: mais Estado Social, menos crime - menos crime, menos polícia.

  4. 4 4  Filipe Abrantes

    O post, como é fácil observar, não desmonta a ideia de que a medida japonesa é de facto uma medida socialista ou colectivista, e não uma consequência de ideias liberais.

  5. 5 5  Miguel Madeira

    “menos polícia=menos crime?

    Parece-me algo absurdo…

    Penso que podemos dizer “menos crime => menos policia”

  6. 6 6  on

    O que é que distingue o BCP de uma empresa pública? Há muito tempo que a maior parte das empresas deixou de ter um dono e deixou de corresponder ao modelo de racionalidade descrito nos livros de economia.
    Só não vê isso quem não quer.
    O JM prefere ser ceguinho ou quer convencernos a fechar os olhos? Não há pachorra.
    Porque é que dão trela a esse tipo?

  7. 7 7  Daniel Oliveira

    Se resolvermos usar a palavra “socialista” sem qualquer rigor…

  8. 8 8  Filipe Abrantes

    socialismo=colectivização (está no dicionário)

  9. 9 9  Daniel Oliveira

    Se está no dicionário está num dicionário pouco especializado em história das ideias. É bastante mais complicado do que isso.

  10. 10 10  Minhoto

    Menos Estado Social aumenta o Estado Policial apenas no sector da regulação e provedoria pois existirão certos serviços que tradicionalmente seriam
    exercidos por este Estado Social que sendo privatizados necessitam vigia do Estado.
    A ideia que o Estado Social deve assentar em subsidios e casas de habitação para as classes desfavorecidas , em ensino diferenciado absurdo e flexivel para as minorias é errado e capa a nascença pessoas que poderiam dar muito para a sua sociedade, temos o caso dos bairros sociais franceses onde foram dadas condições sem igual e hoje têm o maior numero de criminosos por habitante e por área da França.

  11. 11 11  Minhoto

    errata: onde se lê criminosos por habitante deve ler-se criminosos por mil habitantes, se bem que todos temos um dark side.

  12. 12 12  hm

    por esse dicionario até o fmi é socialista

  13. 13 13  Sebastião Dias

    «Por isso sim, se o Estado decide emagrecer para, como defende Miranda, não sobrecarregar as empresas com impostos e descontos para a segurança social, tem de diminuir despesas sociais»

    Não vi JMiranda defender nada do que o Daniel o acusa, não deve ter lido bem o seu pequeno post.

    «Se querem menos Estado social terão mais Estado policial (o que não quer dizer que a inversa seja verdadeira). Talvez não seja por acaso (apesar de haver outras razões) que a democracia mais liberal do Mundo, os EUA, seja a democracia com mais presos no Mundo».

    Como sempre o Daniel tenta, com a simplicidade e a argumentação de um taxista, explicar realidades bastante complexas.

    De forma a que perceba, muita gente prefere ter um estado com políticas para incentivar estilos de vida mais saudáveis do que um «estado-mama» de tetas generosas a jorrar subsídios a todos os que nada fazem, nem por si nem pelo estado.

  14. 14 14  Daniel Oliveira

    Sebastião: eu costumo ler João Miranda e quando digo o que ele defende é tendo em conta o que ele tem escrito.

    Adoro que haja pessoas que preferem que o Estado diga o que elas fazem do que lhes garantam tratamento na doença. Tem de me as apresentar.

    Por fim, contra a «a simplicidade e a argumentação de um taxista» não vejo argumentação nenhuma. É por isso que discuto com Miranda e não discuto consigo.

  15. 15 15  Tárique

    Nem um nem o outro tem razão. Vocês obcecados com o liberalismo e eles obcecados com o socialismo … para uns o sócrates é estalinista, para outros é ultra-liberal …

    … hajam análises mais lúcidas!

  16. 16 16  portela menos um

    “Proveitos … privados, Custos … socializados”

    o lema dos nossos liberais…zinhos!

  17. 17 17  Sebastião Dias

    «Se querem menos Estado social terão mais Estado policial (o que não quer dizer que a inversa seja verdadeira). Talvez não seja por acaso (apesar de haver outras razões) que a democracia mais liberal do Mundo, os EUA, seja a democracia com mais presos no Mundo».

    Com este nível de argumentação é-me realmente impossível discutir.

    «Adoro que haja pessoas que preferem que o Estado diga o que elas fazem do que lhes garantam tratamento na doença. Tem de me as apresentar».

    Mas quem está contra a garantia de tratamento na doença? Onde leu isso? Leu isso de mim? Do Miranda?

    De facto posso apresentar-lhe inúmeras pessoas que acham que o estado deve fazer mais campanhas de prevenção contra a droga, ao mesmo tempo que realmente tenta curar os doentes desse vício, e que são absolutamente contra a ideia do estado fornecer gratuitamente as mesmas drogas em casas de chuto, ideia esta tão cara ao «seu» estado social. Precisa de mais exemplos? Noutro assunto, conheço também pessoas que acham que todos aqueles que não descontaram para a segurança social não devem ter direito a pensões de reforma, entre as quais eu me incluo.

    Mas presumo que o Daniel esteja preocupado com aquilo que o estado possa fazer pelos cidadãos, mais do que o que os cidadãos podem fazer pelo estado. O que vale é que pouca gente quer o seu partido, o PCP ou outros partidos de extrema esquerda a governar. Como se costuma dizer, o povo é sábio.

  18. 18 18  Sérgio

    Sebastião, desejo-lhe sinceramente toda a sorte do mundo.
    Suponho que seja um quadro médio ou superior de uma qualquer empresa ou que tenha uma vida confortável.
    Mas acredito que o Sebastião, como tantos, tantos e tantos outros, rapidamente mudaria de opinião se por circunstancias da vida caísse em desgraça.
    Para já, veria que aquela do “eles não querem é trabalhar” é das patranhas mais vis que se dizem por aí. E depois perceberia que a única “pessoa” que começou por engraxar sapatos para mais tarde ser um multimilionário, apenas pelo trabalho, foi o Tio Patinhas. Não digo que não existam pessoas que consigam evoluir acima do seu meio, mas estes são a excepção, não a regra.
    Não me choca o capital, não me chocam as grandes fortunas, carambam, nem sequer venho aqui reclamar a igualdade e afins… Mas reclamo que qualquer Estado, qualquer Nação digna desse nome deve assegurar um mínimo de conforto e dignidade ao seu Povo.

  19. 19 19  Pedro Sá

    O João Miranda não se importava de passar fome se as empresas estivessem todas em situação financeira invejável.

    É essa a ideologia dele. Tudo às empresas e os cidadãos que se lixem.

  20. 20 20  rónepôl

    A questão cultural pesa muito aqui. Temos casos de países muito liberais (ex: Suécia) e muito estatistas (ex: Dinamarca) que funcionam bem.
    A questão relevante aqui é:
    No nosso caso português e para os portugueses: uma forte intervenção do Estado através de regulamentação e prestação de serviços leva a uma sociedade mais justa e mais geradora de riqueza? Na minha opinião (e é apenas isso) a resposta é não. Eu não acho que o liberalismo seja uma varinha de condão pois tem muitos problemas associados. Agora o que nós vivemos actualmente é um autêntico imperialismo estatal. Estamos nas mãos de:
    - um pequeno grupo de pessoas que desempenham cargos públicos e têm um poder desmesurado;
    - dos empresaros que têm boas relações com essas pessoas.
    O estado português em quase todos os casos presta o mesmo serviço que prestaria um privado com um custo 3 a 4 vezes maior.
    O dinheiro do estado não é uma torneira com armazenamento infinito. O estado deveria tomar opções perante recursos limitados - na minha opinião deveria manter-se em áreas como saúde, estradas e sair IMEDIATAMENTE de áreas como cultura, média (a RTP é provavelmente o caso mais escandaloso de gasto inútil de dinheiro público - DE TODOS - que conheço).

  21. 21 21  Sebastião Dias

    Caro Sérgio,

    Claro que deve assegurar o mínimo de dignidade ao seu povo. E não disse que «eles não querem é trabalhar». Questiono sim se aqueles que optaram por nunca fazer descontos para a segurança social devem reclamar os mesmos direitos sociais dos que optaram por faze-lo. Não me parece justo.

    Quanto à minha vida, como a maioria das pessoas que escolheu trabalhar por conta própria, é incerta. Esforço-me verdadeiramente para que o meu trabalho valha o que me pagam, se assim não for corro sérios riscos de perder trabalho. até agora tudo tem corrido bem. Quando vejo pessoas com emprego garantido que se recusam a ser avaliadas fico incomodado. À conta dessas pessoas há outra geração completamente adiada, que não ganha dinheiro suficiente, que não tem trabalho certo, que não pode ter casa e continua a viver com os pais, que não casa nem tem filhos. A velha história dos direitos adquiridos que a esquerda (sempre) conservadora quer manter à custa dos mais fracos.

    E já agora, voltando ao tema deste post, não concordadndo com as medidas que vão ser impostas às empresas japonesas (ridiculas), penso que devem ser tomadas medidas de modo a influenciar os cidadãos a seguirem modos de vida mais saudáveis quando se trata de problemas graves de saúde pública. Este é, sem qualquer dúvida, um papel importante do que chamamos o Estado Social. Claro que se vão ouvir sempre vozes dos fumadores barrigudos que acham que se estão a imiscuir nas suas vidas.

  22. 22 22  mdn

    “A lógica não é essa, como é evidente no texto. É: mais Estado Social, menos crime - menos crime, menos polícia.”

    Percebe-se que o Daniel nunca leu o Daniel Patrick Moynihan.

  23. 23 23  anonimo

    Percebe-se que o Daniel nunca leu o Daniel Patrick Moynihan.

    Percebese que o Sr. Daniel Patrick Moynihan ainda nao tivo tempo de interessarse por algúm outro pais que nao fosse…os USA !

    Beyond the Melting Pot, an influential study of American ethnicity, which he co-authored with Nathan Glazer (1963)

    The Negro Family: The Case for National Action otherwise known as the Moynihan Report (1965)
    Maximum Feasible Misunderstanding: Community Action in the War on Poverty (1969) ISBN 0029220009

    Violent Crimes (1970) ISBN 0807660531
    Coping: Essays on the Practice of Government (1973) ISBN 0394483243

    The Politics of a Guaranteed Income (1973)

    The Politics of a Guaranteed Income: The Nixon Administration and the Family Assistance Plan (1973) ISBN 0394463544.

    Business and Society in Change (1975) ISBN 0884390022

    A Dangerous Place (1978) ISBN 0316586994

    Best Editorial Cartoons of the Year, 1980 (1980) ISBN 1565545168

    Family and Nation: The Godkin Lectures (1986) ISBN 0156301407
    Came the Revolution (1988)
    On the Law of Nations (1990) ISBN 0674635760
    Pandaemonium: Ethnicity in International Politics (1994) ISBN 0198279469
    Miles to Go: A Personal History of Social Policy (1996) ISBN 0674574419
    Secrecy: The American Experience (1998) ISBN 0300080794
    Future of the Family (2003) ISBN 0871546280

  24. 24 24  tina

    Tivessemos nós tantos emigrantes como os USA e teriamos o mesmo número de presos. Basta ver como noutro dia os polícias foram recebidos no bairro social da Horta Nova. Pelos vistos, o social não ajudou muito aqui.

  1. 1 Arrastão: Dois anos

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