Fui ao velório. Estive lá mas era como se não estivesse porque aquilo não fazia sentido nenhum. Um gajo não morre quase no fim do ano, de madrugada, com 40 anos, dois filhos e um deles bébé, sem que ninguém o espere. Morre, mas não devia. Ainda menos se for o Olímpio. Ainda menos se for uma daquelas pessoas que deve sempre, em todas as circunstâncias, sobreviver aos que o rodeiam.
Não consegui escrever sobre isto nos dias seguintes. Escrever sobre gente que morre é uma coisa. Escrever sobre um amigo que morre é outra. Sobretudo se esse amigo tiver uma idade com a qual não é susposto. Sobretudo se esse amigo não for suposto morrer nunca. Se pensarmos que ele vai estar vivo pelo menos até voltarmos a ligar-lhe para regressar a conversas adiadas.
Passou uma semana e continuei a não conseguir. Adorava-o mas o Olimpio é daquelas coisas escondidas. Envergonha um bocado. Mais inteligente do que os outros, imensamente mais talentoso do que outros, mais culto, mais vivido, mais discreto… Quase não se dava por ele se se andasse distraido a pensar em nós próprios, que é como quase todos andamos. Não me lembro de o ouvir a falar dele. Só se se perguntasse. O Olímpio não falava muito. Só quando não era importante. Uma piada, uma anedota. O Olímpio contava melhor anedotas do que qualquer pessoa. E no inicio conhecia-o quase só por isso. E porque vivia, se a memória não me trai, no Patriarcado de Lisboa. E tinha acabado de chegar da terra. Trabalhava no Movimento Católico de Estudantes. Acho que eu andava no liceu. Já lá vão mais de vinte anos. Ele era amigo do Miguel Fontes e vinha da terra. E era isso. E contava anedotas e tinha graça. E tinha aquele sorriso.
O tempo passou e continuava a ser isso. O Olímpio não mostrava o Olímpio assim facilmente. As conversas começaram e o Olímpio traia. Fazia-nos sentir absolutamente idiotas por ter perdido tempo com as anedotas e com as nossas conversas. Escrevia maravilhosamente e não escrevia. Pensava bem e não falava. Sentia-me uma fraude ao pé do Olímpio. Quer dizer, sinto-me quase sempre. Mas com o Olímpio a coisa tornava-se tão evidente. E ele não fazia nada por isso. Pelo contrário. E por isso mesmo era tão evidente.
Voltei a encontrar o Olímpio em coisas pequenas da política. E depois quando ele estava na Cotovia e eu ia tomar café lá ao lado e passava por lá só para dizer olá. E depois quando ele paginava coisas de pessoas que eu conhecia. E depois quando ele entrou para o Barnabé. Ele nunca escreveu no Barnabé. O Olímpio achava que não tinha nada de especial para dizer e, ao contrário de quase toda a gente, tinha coisas realmente importantes para dizer. E paginou o livro do Barnabé, mas aí foi sobretudo com o Rui Tavares. O Olímpio era amigo de quase todos os meus amigos. Eu conhecia toda a gente que esteve no velório.
O Olímpio era confortável. Não porque fosse leve. Nada. Não porque fosse falsamente simpático. Nada. Apenas porque valia muito mais do que mostrava e fazia-nos parecer valer muito mais do que valíamos. Vendo bem, o Olímpio era desconfortável. Mas tinha aquele sorriso. Meigo, triste, tímido, incrivelmente bondoso.
Tinha um sorriso que apetecia ficar ali o dia todo, sentado na Bijou do Calhariz, onde tomei pequeno-almoço da última vez que o vi. Só para ver o sorriso. O Olímpio morreu de repente, de madrugada. Foi quase no fim do ano e eu não escrevi. Conhecia o Olímpio há vinte anos. E tenho vergonha. O Olímpio deve ter sido das melhores pessoas que conheci. E eu fui encontrando o Olímpio, em espaços largos, em conversas cada vez mais curtas à medida que o tempo passava. Perdi-lhe quase o rasto. Quando encontrava um amigo comum (muitos): então e o Olímpio, como está ele? Teve um filho. Saiu da Cotovia. Está na Bulhosa. Está a trabalhar muito com a Tinta da China. Teve outro filho. Está bem. Aquele gajo podia ser tudo o que quisesse, não podia? Podia, podia. Pois é, pois podia. Gostava de o ver. Há tanto tempo… Daniel, já sabes do Olímpio? O que foi? O que aconteceu? Morreu. Hoje de madrugada. Gostava de o ver. Há tanto tempo…
Quem conhecia o Olímpio ficava amigo do Olímpio. Para a vida. Se não ficasse queria ficar. O Olímpio morreu e eu não estava à espera. Se estivesse tinha-lhe telefonado para pôr toda a conversa em dia. Perdi tanto. Que estupidez. Já quase me tinha esquecido, depois de tanto tempo. Se eu soubesse…
Morreu a arrumar as palavras dos outros. Claro.
São dezenas as referências à morte dele. Em páginas das associações a que pertenceu. Em jornais cristãos. Em blogues de literatura. Nos jornais. Em blogues de amigos. Em cada texto extractos da passagem por lugares onde deixou sempre a mesma memória. Olímpio Ferreira era uma coisa muito especial que a sua biografia não conta. Vejam o sorriso e de certeza que sentem. É tão difícil falar do Olímpio!
Um texto para o Miguel e para o André. Grande pai que vocês têm.
Por Daniel Oliveira 14 Jan 08 em Obituário


Embora não conhecesse o Olímpio, quero deixar aqui uma manifestação de tristeza pela sua morte. Que descanse em paz. Um abraço a todos os familiares e amigos.
Uma homenagem sentida e bela.
Eu não conheci o Olímpio, mas … queria ser.
Parabéns por TER um amigo para a vida, como o Olímpio !!
Que saudades do nosso amigo. Não passam nem vão passar. Um beijo para o Miguel, o André e também para a Mariana.
caramba… diz que é já ali.
a vida é injusta …
Ninguém fica indiferente à morte prematura de um pai, de um marido, dum amigo e de um cidadão com apenas quarenta anos.
A minha total solidariedade aos seus familiares e um abraço aos seus amigos
AINDA BEM QUE CONSEGUISTE ESCREVER ISTO
obrigada
Quem não gostaria de ter um amigo assim?
Obrigado, Daniel, por escreveres assim sobre o nosso Amigo (permite-me que te trate por tu!)!
Ganham força, a cada dia, as palavras de Fernando Brant que o Milton Nascimento musicou… (e de que o Olímpio também gostava!). Especialmente para quem, como eu, partilhou com ele quarto e casa(s)!
Guardo-o em mil pequenos gestos, sorrisos, dificuldades, desafios, debates (na Faculdade [sobre os nossos cursos], na lista para os órgãos de gestão da mesma a que pertencemos, no MCE,…), horas de estudo, concertos que me levou a ver, música que me ensinou a ouvir,… para além dos momentos de diversão pura, ou de silêncio, dos passeios (loucos!) no Simca 1100…
É claro que o Miguel e o André têm um grande Pai! E que a Mariana também o faz Feliz! Aos meus olhos e no meu coração é assim que o vejo: Feliz! Com a companhia da Mariana e dos filhos e dos imensos Amigos que ele tem!
Aqui relembro a canção do Milton:
“Amigo é coisa para se guardar
De baixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na américa ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam não
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.”
Um Abraço muito forte à Mariana Pinto dos Santos!
obrigada, Daniel, obrigada. O Miguel e o André vão ler o teu texto, prometo-te.
Beijos, Mariana. E a eles também.
Olímpio Ferreira, grande amigo de Águeda e de quem perdi o rasto quando foi para Coimbra e depois para Lisboa. Subscrevo totalmente as palavras do Daniel, o Olímpio sempre foi dos melhores de nós, podia ter sido tudo o que quisesse. Fiquei em estado de choque quando li essa noticia no Público de 31 de Dezembro.
Hoje comoveste-me, pá. um abraço.
É por esta e por outras que Deus não entra no meu dicionário.
O Olimpio, quando vivia na “terra”, em Agueda, morava na casa em frente a minha.
Nunca pertenceu ao meu grupo de amigos. Nao foi Escuteiro, nao jogou andebol e pouco saia de casa. Contudo o Olimpio, ha mais de 25 anos, transmitia a mesma tranquilidade, timidez e tristeza feliz de agora.
Reencontrei-o no aniversário de uma amigo comum, o Miguel Marujo, e o Olimpio era o mesmo de sempre… sem nunca deixar de ter aquele sorriso.
Porque Deus está no meu dicionário, sei que esse mesmo sorriso está agora a iluminar outros.
Até já Olimpio…
Belíssima evocação. Comovi-me ontem (ao ouvi-la pelo telefone), comovi-me hoje (ao lê-la no ecrã). A singularidade do Olímpio também se mede pelas memórias que deixou aos seus (felizmente muitos) amigos.
Comprei o Jornal. Ia no comboio a caminho do Porto e vi a Fotografia do Olimpio. Fiquei contente por ver um amigo no jornal e comecei a ler a notícia…não consegui passar do primeiro parágrafo. Li e reli e reli. Não acreditei. Ninguem me tinha dito. Tinham passado alguns dias e senti-me longe do mundo. Não fui ao velório nem ao funeral e ainda tenho dificuldade em acreditar. Conheci o Olimpio no mês de Dezembro de 1987 (se não me falha a memória) estivemos em Itália num congresso da JECI/MIEC (MCE) durante uma semana. A partir dai ficou-me no coração para sempre.
Querida Mariana não nos conhecemos bem mas se leres estas palavras gostava que soubesses que te envio um grande abraço porque se falar vou chorar e não sai nada.
Coia
Conheci o Olimpio há muitos anos atrás, numa curta passagem por Vilarinho do Bairro, numa das muitas visitas que fazia à mãe - a D. Adélia! Que mãe e filho excepcionais! Por isso as minhas palavras vão primeiro para ela. Força e lembre-se, os desígnios de Deus são insondáveis! Agarre-se aos seus netos, eles precisam da si e a sua nora também.Pelo que li o seu filho jamais será esquecido! Força, também para a esposa!
Ontem, a ver a Câmara Clara nem queria acreditar no que estava a ouvir. Fui colega do Olimpio, na faculdade em Coimbra e depois…como acontece sempre, perdemos o rasto uns dos outros, no entanto, os que deixam marca ficam para sempre no nosso coração. Não era assim que eu queria reencontrar o Olimpio…
Para a Mariana, que não conheço e para os filhos de um grande pai, um grande beijo
Soube ontem também pelo programa Cãmara Clara. Fui colega dele na Rádio Universidade de Coimbra (RUC) e também na Faculdade de Letras, mais vagamente… Há muito tempo que não nos contactávamos, sabia, mais ou menos, do seu percurso pelas editoras e do perfeccionismo, bom gosto e sensibilidade dos seus trabalhos.
Era já há 17-18 anos absolutamente brilhante, o mais inteligente e culto, um dos melhores de nós, com um desarmante e finíssimo humor e tinha, sem dúvida, alma de artista. Os seus programas de rádio eram originais e criativos. Sabia, como poucos, jogar, na sua voz, o ritmo das palavras ditas com o silêncio. Admirei-o e, talvez por pudor ou desconforto, nunca lho disse… Lembras-te Olímpio, da viagem a Bruxelas em representação da RUC e da AAC?
Tenho um filho de quatro anos… nem quero só imaginar…
Abraço eterno.